2009-03-20

A INFANTARIA

Cumprindo as ordens do médico, que me mandou fazer grandes caminhadas, decidi-me a dar um longo passeio pela Internet. Eis senão quando um poema aparece à minha frente. E uma nostalgia incontrolável, invadiu-me: tinha lido este mesmo poema em Mueda, "Terra da Guerra", Moçambique.

Voltei a lê-lo; e a empolgar-me com a linguagem que o poeta utilizou, e que foi tão bem traduzida e adaptada para o português.

O poema estava na página do Bruno, no HI5. Não sei quem é este Bruno, mas tenho de arranjar maneira de o felicitar. Há que tempos, eu andava à procura deste poema!

Eu também fui infante…


Tinha acabado a guerra; e Deus, lá nas alturas,

Cercado de astros de oiro e pulcros querubins,

Ouviu sons marciais, fanfarras e clarins,

E um ardente vozear de humanas criaturas.

"Que rumor – perguntou perturba assim o ar?"

"Senhor lhe responde alguém da corte celestial

-Os bravos vencedores da Guerra Mundial,

Sob o Arco do Triunfo estão a desfilar."

Na célica mansão um sussurro se expande;

E a densa legião de almas plenas de graça

Acorre curiosa e se debruça e esvoaça,

P'ra melhor distinguir a marcha heróica, grande!

Então o bom S. Pedro, o santo venerando,

Que por mando divino é dos céus o porteiro,

Gritou: "Chamai Flambeau, o esperto granadeiro,

Para explicar o que se for passando."

Flambeau, que combateu e foi dos mais ousados,

Acercase atencioso, observa por momentos E informa:

"Vão ali famosos regimentos,

A glória militar, indómitos soldados!"

Cavaleiros, então, avançam com ardor,

E ele anunciou: "Desfilam os dragões!..."

Estremecem no céu os áureos portões,

Que a voz do povo era um estrídulo clamor.

- "Mas isto nada é...", disse Flambeau atento.

"Olhai a Artilharia!..." Em enorme alarido,

Reboam saudações qual ciclone enfurecido,

Ascendendo em rajada até ao firmamento.

E Flambeau continua: "Isto ainda não é nada!

Vereis melhor Senhor... Eis os aviadores!..."

Regougam pelo espaço os potentes motores,

A ponto tal que a voz do povo é sufocada.

Flambeau proclama com enlevo! "Os Marinheiros..."

Desta vez o entusiasmo os mundos excedeu;

E cativado, o sol, palmas de oiro abateu

Sobre os rijos heróis, que foram dos primeiros.

" Agora, Senhor meu - disse Flambeau ovante –

Vereis quando passar a nobre Infantaria...

Tenho medo que o sol estoire e finde o dia

E a noite eterna envolva a Terra num instante.

Serão aclamações estrondosas torrenciais,

Vibrarão no azul qual doida trovoada,

Verseá a multidão frenética, entusiasmada,

Delírio igual jamais se viu, jamais."

Surgiram a seguir os homens das trincheiras,

Alpinos, caçadores e toda a infantaria.

Nas suas expressões claramente se lia

O martírio sofrido e angústias e canseiras.

Quando o canhão, rugindo, a morte semeava,

Impávidos, no posto, assim permaneciam...

Era uma coorte altiva, os tantos que ali iam,

Um grande, imenso, mar de heróis que ali passava.

Às quentes saudações que a multidão soltou

Silêncio se seguiu, silêncio e nada mais.

O espanto avassalou as regiões siderais.

E Flambeau, indignado, agreste se expressou:

-"Assim os recebeis, ó crua, ingrata gente?!

Por vós riram da morte e a fome desdenharam,

Cansados de sofrer jamais o confessaram,

São de aço os quais ali vão, tropa digna, valente!

Deveislhe orgulho, sim, a graça de viver,

E, em vez de os abraçar, calaivos? Mal andais.

Franceses, ouvi bem: Sois rudes, sois brutais,

Tamanha ingratidão não tem razão de ser."

Mas mal termina a frase, olhando a Terra, fica

Possuído de orgulho, o coração em festa...

Os Infantes, semideuses, heróis em gesta,

Que a luz do sol poente envolve e magnifica,

Marcham erectos, viris, o olhar altivo e ousado...

Fremente, perturbada, a imensa multidão,

Por um alto mandato ou estranha inspiração,

Havia ajoelhado.



LUCIAN BOYER Adaptação livre do Cap. J.M. Galhardo

3 comentários:

Pedro Meneses disse...

e os Infantes endurecidos derramam lágrimas na sua sala de honra, enquanto ouvem tais palavras...é o orgulho de ser Infante

Ad Unum

marco disse...

incrível encontrar aqui um camarada do meu curso!trielha grande abraço!lembro-me bem dessas lágrimas que tão intensamente nos queimaram as maçãs do rosto... No coração de todos nós existe...

Ad Unum

Marco Domingues

José Gonçalves Cravinho disse...

Durante a clerical-fascista Ditadura/
reforçou-se a Aliança da Cruz e Espada/havia Missa Solene com
Militar Parada/e o Povo emocionado
com a Militar postura./Ao Deus dos Exércitos nas Catedrais/vibrava o som dos clarins marciais.