2009-03-01

A JORDÂNIA EM BREVES PINCELADAS

Islão 1 - A Jordânia é um país islâmico, e isso não é novidade para ninguém. Por isso, não é de admirar que um jordano seja metido na prisão se for encontrado a consumir bebidas alcoólicas em público. Suponho que em privado pode, porque ninguém vê.
Islão 2 - Por curiosidade perguntei ao guia como lidavam com o ateísmo - isto é, com os ateus. Olhou para mim como se eu lhe tivesse perguntado se havia homenzinhos verdes am Marte. Acabou por responder: "Sabe, as leis são muito rigorosas..." E mais não disse. O resto concluí eu, sem ajuda: Não há ateus. Têm de acreditar, quer queiram quer não. Apesar disso, há comunidades católicas ortodoxas. Toleradas. Mas não são ateus.
Islão 3 - Não vi "burqas". Mas vi mulheres que usavam o "hijab" (à esquerda) ou o "niqab" (à direita). A Jordânia pareceu-me moderadamente fundamentalista (perdoem o oxímoro), por isso fiquei admirado por ver algumas mulheres com o "niqab". Se "lei é lei", todas as mulheres deviam usar o "niqab" ou o "hijab". Será que dá direito a escolher? O guia, minha vítima de eleição, elucidou-se a medo: o "hijab" é obrigatório; o "niqab" é facultativo. Pode ser usado por mulheres mais fundamentalistas... "Ou quando o marido manda", acrescentei eu. "Sim, se o marido mandar..."
Ciumentos compulsivos, estes muçulmanos.
- Na Jordânia não há petróleo. Oficialmente, claro. Porque parece que há... Aliás, nem se compreenderia que, num país rodeado de petróleo por todos os lados, o subsolo estivesse seco. Mas uma reserva estratégica é sempre aconselhável.
- Por isso, os jordanos (leia-se as autoridades jordanas) insistem que o único petróleo é o turismo. O turista é sagrado, garantem. Mas não se ficam pelas palavras. Vejam só:
Episódio 1 - O nosso autocarro seguia em direcção à cidadela de Amã. Transito intenso, e um chico-esperto que resolve mudar de direcção. Resultado: o autocarro embate no ligeiro. Só chapa, com amolgadelas do tipo curável com betadine.
Episódio 1-A - Em menos tempo do que leva a contar, surge um polícia. Rapidamente, trata de desviar o trânsito.Apercebe-se de que se trata de um autocarro com turistas. Imediatamente, pelo telemóvel, contacta a central, que coloca uma ambulância em alerta. Mas não houve feridos. "Para onde iam?" "Para a cidadela". O autocarro tem de ficar imobilizado, e o grupo tem de seguir de táxi, pois "the show must go on". O polícia, ao mesmo tempo que orienta o trânsito, vai mandando parar os táxis vazios. Aos poucos, o grupo desloca-se para a cidadela.
Acabada a visita, o grupo espera pelo autocarro. Outro autocarro. "Porquê?" perguntei ao guia. "Porque o anterior, junto com o motorista, foram para a central de polícia, acompanhados pelo outro veículo interveniente e respectivo condutor. O acidente dá lugar a um inquérito rigoroso, uma vez que um acidente com um autocarro de turistas pode levantar a suspeita de atentado".
Allah não brinca em serviço... E a polícia também não, ao que parece.
Episódio 2 - Rua Zahran, à noite. Em Amã existe um viaduto que o governo dos EUA mandou construir propositadamente, para que o embaixador não tivesse de parar nos semáforos (!!!) quando se dirigisse à Embaixada. Dada a beleza desse viaduto, e a sua vista privilegiada sobre o centro da capital, decidimos ir até lá. Não sabíamos se se podia atravessar a pé, pelo que nos dirigimos a dois polícias postados de serviço ao palácio do chefe do governo, um pouco mais abaixo do hotel. Pelos vistos também não sabiam, já que nos informaram que a ponte também era pedonal (não é). Levantava-se um problema: atravessar a movimentada Rua Zahran, com duas faixas de rodagem e três vias em cada sentido. Vagueamos um pouco, à procura de uma passadeira. Um dos polícias aproximou-se. Perguntou se queríamos atravessar. Dissemos que sim. O polícia entrou no meio da rua, mandou parar o trânsito. Chegámos ao separador central, e o polícia fez o mesmo na outra faixa de rodagem. Atravessámos calmamente.
Turista é mesmo sagrado, porra!!
Por falar em turismo... Eu sei que estávamos num país muçulmano. Mas não é admissível que num hotel de 4 estrelas se apresentem, ao cliente, chávenas esbotenadas. Além disso, o serviço é lento mas, contraditoriamente, se um cliente se distrai, levantam-lhe o prato da mesa, ainda com comida. Basta que pouse os talheres enquanto mastiga.
A mim, uma vez, e enquanto ia buscar a sobremesa, levaram-me o prato, os talheres e o guardanapo. Felizmente que foi tudo devolvido.
Petra - Podemos dizer que é o símbolo da Jordânia. Isso, aliado a uma propaganda que (justamente, entenda-se) a blogosfera proporciona, torna a Jordânia um destino de sonho. Mas... O que tem Petra, de especial? Beleza?Nem por isso... Quer dizer, não tem mais beleza do que qualquer monumento da antiguidade grega ou romana. Então, o que atrai tanta gente a Petra? O que leva as pessoas a calcorrearem quase cinco quilómetros para ver Petra? Por favor, não me perguntem, porque não sei responder. Há um misterioso fascínio que faz com que não se consiga sair indiferente, de Petra. À medida que caminhamos em direcção à cidade, sente-se como que um estado de ansiedade crescente, que culmina com a frase, várias vezes repetida: "A célebre fenda!!!" Os Nabateus, fundadores da cidade, desviaram um rio para poderem construir Petra. E é ao longo do antigo leito desse rio, entre rochas que chegam a atingir cerca de cem metros de altura, que se caminha até à cidade sagrada de Petra, que se manteve escondida durante mais de mil anos.

Mas a verdade é que a Jordânia não é, apenas, Petra. A Jordânia não parece ser rica em monumentos, e a paisagem não é deslumbrante. Pelo menos nos termos em que consideramos "deslumbrante", embora os desertos causem assombro pela magestade de algumas formações rochosas. Não são permitidas visitas de "infiéis às mesquitas, o que poderia dar algum sabor à visita. Nota-se que os serviços de turismo fazem um esforço enorme para "ocuparem" o turista durante os seis dias de estada. Visitas aos corais do Mar Vermelho em águas poluídas do porto de Aqaba ou um banho tardio no Mar Morto, são alguns dos ingredientes com que se tenta "apimentar" a permanência. No entanto, a pouco menos de 200 quilómetros de Amã, encontram-se o castelo de Ajloun e a cidade antiga de Jerash, forte e bem conservado vestígio da ocupação romana, com um surpreendentemente belo teatro, possuidor de uma acústica maravilhosa. Infelizmente, o mau tempo não nos permitiu uma visita completa, como Jerash merecia.

Não me apercebi de sinais de pobreza. Quero dizer, daquela pobreza a que estamos habituados quando visitamos certos países. Não vi pedintes, mesmo nos locais mais frequentados pelos turistas. Claro que isto pode não significar nada: basta que a polícia proiba a exibição de sinais exteriores de pobreza. Porque na verdade, nas conversas com o guia este não deu indicações de abundância financeira, embora o parque automóvel se apresentasse novo. Digamos que, tal como cá, há ricos e pobres.
O que não impediu o falecido rei Hussein de ter tantos automóveis que permitiram criar um museu que é, apenas, o maior museu automóvel do mundo. Aliás, Hussein era conhecido (também) pela sua paixão pelos desportos motorizados.

Por tudo isto, quero dizer que não vale a pena uma viagem à Jordânia? Calma, eu não disse nada disso! Claro que vale a pena. Porque uma viagem não se fica pelos monumentos ou pelas paisagens. Há a gastronomia, os costumes, as tradições, o povo. O povo jordano é hospitaleiro e simpático. A cada passo nos pediam para serem fotografados connosco e, contrariamente ao que tenho visto noutros países muçulmanos, não se "faziam" à gorgeta.
E depois, uma viagem é sempre uma viagem. Nem que seja ir a Espinho e voltar.

3 comentários:

dora disse...

Dissestes bem: - Uma viagem é sempre uma viagem.Sempre valerá à pena.Sempre voltarás mais enriquecido culturalmente, com toda certeza...
E com tantas lembranças, tantas passagens interessantes, pitorescas...terás assunto para páginas e páginas de teu blog.
E eu interesse para ler estas páginas. E viajar tambem, atraves delas...Não é este o objetivo do escritor?- Nos levar a viajar... Ou, pelo menos, um dos? Atingistes o teu. Adorei a viagem.

Joaquim Fernando disse...

Amigo Moreira
Força! Muita força de viver, especialmente, se a saúde for precária, é o incentivo
que lhe dedico, para poder continuar a correr mundo, em todos os seus quadrantes e a fazer "reportagens" como esta que nos dá uma visão generalizada de como vivem os povos do Médio Oriente. Um abraço,
Kim Nando

José Gonçalves Cravinho disse...

Eu,um simples operário emigrante na Holanda desde 1964 e já velhote (88anos),direi que gostei de ler a reportagem mas digo que a muitos e determinados Países,nem que me pagassem,eu visitaria.E quanto a visitas turísticas,antes visitaria as terras de Portugal ou até mesmo do Algarve donde sou natural e que não conheço.