2009-01-18

SOMOS TODOS RACISTAS?

Há dias, reencaminhei um e-mail que anexava o vídeo que aqui podem ver.
Confesso que, quando recebi essa mensagem, e depois de a ter visto, a minha primeira preocupação foi proceder ao reenvio (não quero que falte nada aos meus amigos...) e, a seguir, arquivá-la. Não voltei a pensar nela. Devia tê-lo feito, mas não fiz.
Hoje, resolvi "limpar o sótão" do meu PC; e eis que a mensagem me salta para o monitor. Boa!!!
E resolvi meditar um pouco sobre ela, ou antes, sobre o assunto que ela aborda.
Hoje em dia, o mundo está povoado de organizações que pregam, discutem, protestam, se manifestam etc, em prol da igualdade racial e contra a xenofobia. E eu assino por baixo. Mas o pequeno filme leva-me (-nos?) a fazer algumas perguntas. Desde logo: o que é o racismo? Como aparece o racismo?
Os valores que, como adultos, possuímos, são aqueles que nos são transmitidos pela sociedade em que nos inserimos. Alguns desses valores são adquiridos por imitação, outros por educação. Ou seja, são-nos transmitidos no seio da família. e é aqui que eu quero chegar - pois há mais formas de aquisição de valores.
Quando eu era criança, e o tempo que eu demorava a comer a sopa era inversamente proporcional à paciência da minha Mãe, esta ameaçava-me "Se não comes depressa, vem a cigana e leva-te". E, na verdade, de vez em quando aparecia, lá pelo bairro, uma cigana a "ler a signa", que colaborava com a minha progenitora "o menino tem comido a sopa toda?" O que, ao longo dos anos, me levou a olhar para os ciganos de lado (e hoje, salvo honrosas excepções, ainda não os olho bem de frente...). No entanto, NUNCA a minha Mãe me disse "se não comeres depressa vem um preto e leva-te". Se calhar porque havia mais ciganos que pretos...? Não sei. Mas, tanto quanto me recordo, nunca, nas nossas conversas de meninice, o problema dos pretos foi abordado como fazendo parte dos nossos medos colectivos - ou individuais. Aliás, não era abordado, ponto final.
Mas vamos supor - e esta hipótese, ainda que meramente académica, é conveniente - que sim. Vamos supor que os nossos antepassados nos incutiam a rejeição dos pretos. Façamos de conta que sim. Então, eu pergunto: o que pode levar uma criança preta a rejeitar a boneca igualmente preta? O que pode levar uma criança preta a garantir que a boneca preta é má?
Não resisti, e voltei, agora mesmo, a passar o filme. E demorei-me a contemplar a atitude do rapazinho quando o adulto lhe pergunta "Qual a boneca que se parece com você?"
Porquê? O que leva um adulto preto a dizer - como me disse um, quando o aconselhei a ir trabalhar para as plataformas petrolíferas em Angola "Eu não trabalho PARA pretos"?
Será que, no fundo, e a razão não é de aquisição de valores, mas outra que me escapa, somos todos racistas? Será que somos "anti-racistas" porque é politicamente correto?

Um comentário:

dora disse...

Gostei muito da tua abordagem ao tema.
Perfeita. Como sempre, tens um talento enorme para discernir sobre tudo.
E instigar...Nos levar à reflexão.
Respondo a tua pergunta pelo meu ponto de vista:
-Somos racistas porque queremos ser.Quem não quer ser NÃO É, mesmo que tenha recebido "nenhuma" educação.Porque temos tempo pela vida para ir descobrindo, mesmo devagar, quais os verdadeiros valores das pessoas.E estes valores não implicam a cor da pele, nem a raça, nem o poder que possuam.