Devidamente roubado ao Diário Ateísta, a história das origens do Natal
Estando noiva de José, e antes ainda de com ele ter coabitado, Maria apareceu grávida por acção do Espírito Santo.
Quando José se preparava para a repudiar, apareceu-lhe em sonhos um
“anjo do Senhor” que lhe ordenou que recebesse Maria em sua casa e que
aceitasse o filho que ela carregava como obra do Espírito Santo.
Quando a criança nasceu, e tal como o anjo lhe havia ordenado, pôs-lhe o nome de Jesus.
Todas as culturas antigas, sem excepção, tinham um horror profundo e
visceral à esterilidade. O que é absolutamente compreensível, face à
óbvia conexão entre a própria sobrevivência da tribo ou de uma
determinada sociedade e o seu fortalecimento face aos povos vizinhos e
rivais, por exemplo, em disputas territoriais.
Não é, por isso, de estranhar que desde a sua origem todos os cultos
religiosos revelem nas suas mitologias e iconografias não só esse temor,
como muito principalmente uma óbvia preocupação pela fecundidade.
De tal forma que nas mais remotas manifestações de religiosidade o lugar de Deus foi ocupado por uma mulher.
Só muito mais tarde a mulher foi relegada para um papel de mãe, esposa
ou amante do Deus, sempre com a responsabilidade da renovação e da
reprodução, mas também obviamente virgem, como convém a toda a terra que
vai receber uma nova semente e de quem se espera a máxima fecundidade.
Por isso, também, só de uma divindade é possível esperar o dom da
fecundidade, principalmente quando se trata de uma mulher estéril que
acaba por dar à luz, um milagre que obviamente só está ao alcance de
Deus.
Ao mesmo tempo, constitui prova inequívoca da proximidade de um homem a
Deus o facto de ter nascido do milagre da concepção de uma mulher
virgem.
Assim, vemos que essa associação entre uma concepção milagrosa e a
deificação do filho nascido de um fenómeno que só está ao alcance de
Deus (sempre após uma história mais ou menos fantasiosa de uma
«anunciação» feita por um anjo ou qualquer outra entidade celestial,
seja ao vivo ou em sonhos), é afinal perfeitamente vulgar e recorrente
em todos os cultos religiosos da antiguidade e, curiosamente, nas mais
distantes regiões do planeta.
Aparecem então como filhos de mães virgens tanto deuses como grandes
personagens, como os imperadores Chin-Nung, da China, ou Sotoktais do
Japão, ou como os deuses Stanta, na Irlanda, Quetzalcoatl do México,
Vixnu da Índia, Apolónio de Tiana da Grécia, Zaratustra da Pérsia, Thot
do Egipto, ou como Buda, Krishna, Confúcio, Lao Tsé, etc., etc.
O mito vai mesmo ao ponto de Gengis Cã ter um belo dia determinado que
também ele era filho de uma mulher virgem, para se deificar aos olhos do
seu povo e dos povos que ia conquistando, e para se fazer obedecer e
respeitar cegamente como um Deus pelas suas tropas.
Entre os mais famosos homens filhos de mulheres virgens está, como é sabido, Jesus Cristo.
É também muito curiosa a mitologia comum relacionada com o nascimento
destas personagens deificadas pelo seu nascimento de mulheres virgens,
como sejam a existência de estrelas ou sinais celestes que os anunciam
ou comemoram: uma milagrosa luz celeste anunciou a concepção de Buda, um
meteoro o nascimento de Krishna, uma estrela o nascimento de Hórus e
uma «estrela no Oriente» o nascimento de Jesus Cristo, embora somente o
evangelho de Mateus se lhe refira, sendo pacificamente aceite que não
mais do que para corporizar ou fazer concretizar (quase um século depois
da morte de Jesus Cristo) profecias messiânicas do Antigo Testamento.
Ao mesmo tempo, é também absolutamente natural que faça parte dos
cultos de fecundidade a adoração de deuses relacionados com o ciclo
solar e com a renovação anual das estações do ano e, com estas, as
colheitas ou a produção de gado, com especial incidência e manifestação
em festas, mitos, cerimónias e ritos religiosos comemorativos,
realizados normalmente nos Solstícios, preferencialmente no Solstício de
Inverno.
A corporização mais comum destes Deuses de renovação e de fecundidade
é feita em relação ao Sol, símbolo perfeito da sucessão regular e
infalível dos dias e das estações do ano, quer seja adorado como um Deus
em si, e em praticamente todas as civilizações conhecidas, das Américas
Central e do Sul, ao Egipto, passando pela Suméria ou Mesopotâmia, quer
também através de outros deuses «solares», como o Deus-faraó egípcio
Amenófis IV, que reinstalou o culto de Áton (Sol) e mudou mesmo o seu
nome para Aquenáton, ou como Deuses que resultam da antropomorfização do
Sol, como os Deuses Hórus, Mazda, Mitra, Adónis, Dionísio, Krishna,
etc.
Destes Deuses, um merece especial referência: Mitra.
Mitra é um dos principais deuses iranianos (anteriores a Zaratustra),
simbolizado com uma cabeça de Leão (representação típica dos deuses
solares) e conhecem-se manifestações do seu culto já com mais de mil
anos antes do nascimento de Cristo.
Mais tarde os romanos adoptaram o seu culto e incluíram-no mesmo no seu panteão.
Enquanto divindade, as funções de Mitra eram carregar com a iniquidade e os males da Humanidade e expiar os pecados dos homens.
Mitra era também visto como meio de distinção entre o bem (Ormuzd) e o
mal (Ahriman), como fonte de luz e sabedoria e estava ainda encarregue
de manter a harmonia no mundo e de proteger todos os homens.
A mitologia do Deus Mitra tinha-o como um «enviado», ou um Messias, que voltaria ao mundo para julgar toda a humanidade.
Sem ser o Sol propriamente dito, Mitra era tido como seu
representante, sendo invocado como o próprio Sol nas cerimónias do seu
culto, onde era tido como espiritualmente presente no interior de uma
custódia, por isso colocada em lugar de especial destaque.
Todos os Deuses solares depois de expiarem os pecados dos homens acabam
por morrer de morte violenta, acabando depois por ressuscitar ao fim de
três dias e de ascender aos Céus ou ao Paraíso.
Hórus morre em luta com o mal, corporizado no seu irmão Seth
(identificado com Satanás), que o coloca num túmulo escavado numa rocha,
ressuscitando ao fim de três dias para subir ao Paraíso.
O Deus hindu Xiva sacrifica-se pela humanidade, e morre ao ingerir uma
bebida corrosiva que causaria a destruição e a morte de todo o mundo,
acabando também por ressuscitar ao fim de três dias.
O Deus Baco foi também assassinado, tendo ressuscitado três dias depois, através dos seus pedaços recolhidos por sua mãe.
O mesmo acontecia aos Deuses Ausónio, Adónis ou Átis, que morriam para
salvar os homens ou expiar os seus pecados e acabavam por ressuscitar ao
fim de três dias.
E todos eles a 25 de Dezembro.
Uma vez mais, um dos mais famosos «ressuscitados» é Jesus Cristo,
embora este tenha ressuscitado em metade do tempo dos restantes Deuses,
talvez somente um dia e meio depois, embora a sua mitologia continue a
mencionar os três dias.
Ou seja: a figura de Jesus Cristo, e toda a religião e mitologia cristã,
foram construídos com base num modelo pagão dos deuses solares que
então se conheciam.
A própria escolha da data de 25 de Dezembro para comemoração do nascimento de Jesus Cristo é disso um inequívoco exemplo.
Aliás, esse dia 25 de Dezembro (o dia das festividades dos Deuses Mitra,
Baal e Baco) só foi adoptado pela Igreja Católica já no século IV, por
decisão do Papa Libério, com o óbvio objectivo de “cristianizar” os
cultos solares, então ainda muito populares e difundidos e de os fazer
confundir e “absorver” pelos próprios ritos cristãos, dada até a
proximidade com a data do Solstício de Inverno – data da “morte” do Sol
no horizonte – e a data em que o Sol “ressuscita” e se eleva novamente
horizonte três dias depois, exactamente no dia 25 de Dezembro.
Merece especial referência o facto de todos esses Deuses solares
serem representados fisicamente com a cabeça rodeada de um disco ou uma
auréola amarela, como ainda hoje acontece com os Deuses e até com os
santos católicos.
Aliás os próprios imperadores romanos que governaram no auge do culto
destes deuses solares faziam-se representar devidamente aureolados, por
exemplo nas moedas que mandavam cunhar.
O imperador Constantino, a quem se deve a criação da Igreja Católica
Apostólica Romana (e que nunca se converteu ao cristianismo, antes o
tendo adoptado como religião oficial do império, sem nunca proibir as
restantes, para melhor o unificar), mandava realizar regularmente
sacrifícios em honra do Sol e as moedas que mandou cunhar continham a
inscrição «Soli Invicto Comiti, Augusti Nostri».
Não obstante a oficialização do cristianismo no seu império,
Constantino manteve a obrigatoriedade de as suas tropas rezarem e
prestarem culto ao Deus Sol todos os Domingos, isto é, «O Dia do Sol».
Também neste dia do Sol se pode ver a óbvia influência destes cultos na
formação dos ritos católicos, com a mudança do «Sétimo Dia» ou «Dia do
Senhor» bíblico do Sábado para o Domingo, uma vez mais com o objectivo
de fazer “absorver” as festividades e os ritos solares, nem que para
isso se tenha tido de “aldrabar” a própria redacção de um dos
mandamentos trazidos por Moisés do cimo da montanha.
Como se não bastasse a óbvia coincidência ritualística dos cultos
solares com os cultos cristãos, como a morte violenta e ressurreição
três dias depois, da presença física do Deus na custódia, no nascimento
de uma mulher virgem, do «Dia do Senhor» como «Dia do Sol» (Sunday, em
inglês), da auréola solar a coroar as divindades, da designação e da
forma radiada do chapéu dos bispos católicos, ou «mitra», é precisamente
com este Deus Mitra que se dá o mais curioso aproveitamento dos ritos e
cultos solares por parte da Igreja Católica.
De facto, segundo a sua mitologia, muito popular por volta de 1.000
a.C., Mitra nasceu de uma virgem; nasceu no dia 25 de Dezembro; nasceu
numa cova ou numa gruta; foi adorado por pastores; foi adorado por três
magos ou sábios 12 dias depois do seu nascimento, a 6 de Janeiro, que
interpretaram o aparecimento de uma estrela no céu como anúncio do seu
nascimento, pregou incansavelmente entre os homens a sua mensagem de bem
por oposição ao mal; fez milagres para gáudio dos que o seguiam; foi
perseguido; foi morto; ressuscitou ao terceiro dia; o rito central do
seu culto passava pela distribuição de pão e vinho entre os iniciados
presentes, numa forma de eucaristia de composição e fórmula em tudo
idênticas à que a Igreja Católica viria a adoptar.
Já na mitologia de Hórus, que teve o seu auge cerca de 2.000 aC., se
passa exactamente mesma coisa. Hórus é filho de Osiris e de Isis, a sua
mãe virgem que engravidou de um espírito com a forma de um falcão, com a
curiosidade ainda de ter um pai terreno com a profissão de carpinteiro.
Também foi traído, torturado e morto, ressuscitando ao terceiro dia, o mesmo dia 25 de Dezembro.
Em suma:
Independentemente da bebedeira consumista que se apodera das pessoas, o
que actualmente se comemora como o nascimento de Deus, na forma de «Deus
Filho», ou de «Menino Jesus» (como se sabe, um dos deuses da Mitologia
cristã), não é mais do que a apropriação de um culto pagão, de um «Deus
Solar», como tantos houve durante a História dos Homens.
Para um católico, dir-me-ão, este aproveitamento ritualístico será
irrelevante, na medida em que o seu significado mítico ou simbólico,
qualquer que seja a forma ou a data em que se realiza, continuará sempre
a ser (actualmente) o nascimento de Jesus Cristo, como referi um dos
(muitos) deuses da mitologia cristã.
É certo.
Mas é também certo que esta apropriação existiu de facto, e o seu significado como fenómeno antropológico não pode ser ignorado.
Como também não pode ser ignorado, ainda assim, o manifesto significado simbólico, mítico e até místico dessa mesma apropriação.
Até por que uma coisa mais terá de ser realçada, essa sim, talvez a
que contenha uma maior valoração simbólica deste aproveitamento e
apropriação ritualísticos:
- É que, como não podia deixar de ser, toda esta transformação e
apropriação foram feitas sob a égide de um Papa, mais exactamente do
Papa Libério (352-366) e sob a força legislativa e fortemente repressiva
do Imperador Constâncio II que, com mão de ferro e com uma ferocidade
inaudita e que ficou na História, as impôs pela força das armas.
E assim, uma vez mais, vemos que também o ritualismo desta nova
mitologia cristã, mesmo esta que se refere ao próprio nascimento do seu
Deus, deste «Menino Jesus» deitado nas palhinhas, uma vez mais teve de
ser impiedosamente imposta aos Homens pela força.
Obviamente depois do conveniente e costumeiro… banho de sangue…
2011-12-24
2011-12-23
Para os mais pequeninos (II)
Recebi muitas mensagens de meninos a dizer que não tinham percebido lá muito bem aquela coisa da Teleologia, e que, por isso, não tinham feito o exercício de casa. Eu sei que é difícil, mas vou tentar explicar mais uma vez.
Imaginem os meninos um país qualquer - desde que não seja Portugal, claro. Um país onde haja muitos velhos. Ora, como os meninos sabem, os velhos são uns chatos, por várias razões. Primeiro, porque andam sempre a dizer "No meu tempo..." o que é uma chatice de todo o tamanho; depois, não trabalham, o que até nem é muito grave, mas ganham pensões de reforma, e aí sim, é que a coisa começa a ter alguma gravidade. Quem é que eles se julgam para ganhar sem trabalhar? Deputados? Gestores públicos?
Bom, adiante. Como se não bastasse, os velhos, ainda por cima, fartam-se de tomar medicamentos que lhes permitem não só ter saúde como também, e isto já é preocupante, durarem cada vez mais anos. Reparem que já há idosos que morrem de velhos. Ora, num qualquer país civilizado esta situação seria insustentável. Porque se grande parte dos impostos vai para os medicamentos dos velhos, é certo e sabido que não sobra nada para comprar carros de alta cilindrada para os gestores públicos, pagar as falências fraudulentas de alguns bancos, pagar bons ordenados a "boys" inúteis e incompetentes, etc. Então, o que fazer? A solução é simples, e só peço a Deus Nosso Senhor para que nenhum governante leia este blogue: a solução passa por matar os velhos.
Aquele menino ali ao fundo está a dizer-me que não se deve matar ninguém, que só Deus é que pode matar. Pois, mas há muitas maneiras de matar, não é preciso pegar numa metralhadora e começar a dizimar a velharia. Se um iluminado se lembrasse de cortar nos subsídios à velhada, aumentar os preços dos medicamentos, reduzir as comparticipações, aumentar as taxas moderadoras e tomar outras medidas que Nicolau Maquiavel aconselharia, os velhos acabariam por morrer antes de chegarem a velhos. As despesas diminuiriam substancialmente, os gestores e outros "boys" passariam a viver melhor. E aí temos mais um exemplo do que é a Teleologia: provocar aumentos para a velhada deixar de meter nojo e ir andando, e a parasitagem continuar a viver à tripa-forra.
Deus queira que ninguém se lembre de aplicar isto em Portugal.
2011-12-21
Para os mais pequenitos
Meus meninos, hoje vou explicar-vos o que significa a palavra Teleologia.
Diz o dicionário que Teleologia é:
Diz o dicionário que Teleologia é:
1. | FILOSOFIA ciência ou estudo dos fins ou da finalidade |
2. | finalidade, ação diretora que o fim exerce sobre os meios |
3. | doutrina, oposta ao mecanicismo, segundo a qual há no mundo uma finalidade que se sobrepõe à causalidade eficiente Mas como parece muito confuso, vou tentar explicar - que eu também não sou perito nestas coisas. Vamos supor - atenção, eu disse supor - que o Governo quer acabar com o Serviço Nacional de Saúde (SNS). Não é verdade, mas vamos supor, que estas cousas de explicar as palavras não há nada como os exemplos, ainda que sejam absurdos, como é o caso. Então, e partindo dessa suposição meramente académica e perfeitamente absurda, o que é que o Governo faria? Ora, fechava tudo o que fosse hospitais públicos e centros de saúde, e estava o assunto resolvido. Mas as coisas não podem ser feitas assim. Primeiro, porque dava muito nas vistas e era capaz de pôr gente na rua; depois porque um governo que se presa de cuidar cos cidadãos não iria fazer uma coisa dessas. Mas há outras maneiras de resolver o problema - e esta nem lembraria ao Diabo mas, como já disse, estamos no campo dos supônhamos. Eu vou dizer o que é que faria, e só espero é que nenhum governante leia este blogue. É assim: começava por aumentar brutalmente as taxas moderadoras. O Zé Funcionário Público, ao ver tais aumentos, o que faria? Faria contas, certamente. E sendo beneficiário da ADSE, rapidamente chegaria à conclusão de que lhe ficaria mais barato ir ao privado. O SNS começava a ter muito menos gente, e os funcionários públicos só lá iriam para o doutor assinar a baixe médica, quando fosse o caso. Vendo que o SNS estava a deixar de ter clientela, o ministro da saúde podia, perfeitamente, dizer: "Ó pá, só por meia dúzia de gatos-pingados, não vale a pena estar o SNS a funcionar, que isto só dá despesa e a Troica não alinha". E prontos, aí estava uma razão de peso para encerrar o serviço. E chama-se a isto ou seja, a esta forma de proceder, Teleologia. Não sei se os meninos perceberam ou não, mas isto nem é original, faz-me lembrar aquele copianço de vender o ar em frascos. Por exemplo, há muitas repartições do Estado onde se aplica a teleologia. Por exemplo, as chefias não gramam um funcionário. Vai daí, começam por dar-lhe serviços foleiros; depois, tiram-lhe todos os serviços e ele fica sem fazer nada. Finalmente, abrem-lhe um processo por incompetência, porque está a receber o vencimento sem fazer a ponta de um corno. Aliás, foi assim que uma companhia de caminhos de ferro num país que eu conheço procedeu: primeiro, mudou os horários dos comboios de modo a não interessarem a ninguém; depois, começou a queixar-se de que as linhas davam prejuízo porque ninguém andava nos comboios. Finalmente, encerrou as linhas. E prontos, meninos. Agora vão para casa e escrevem cem vezes a palavra Teleologia. |
2011-12-18
Carta aberta ao PC *
*Presidente da Câmara
Exm.º Senhor
Presidente da Câmara Municipal do Porto:
Como é, certamente, do conhecimento de
Vossa Excelência, e se o não for pode passar a ser clicando aqui,
o Excelentíssimo colega de Vossa Excelência na cidade da Guarda passou a
patrocinar a venda de ar puro daquela cidade em frascos. Bom, se não patrocina,
pelo menos permite ou, em último caso, assobiou para o lado. O que é facto é
que a vereadora do Ambiente daquela Edilidade deu a cara pelo assunto.
Ora, apesar de o empreendimento tresandar
a plágio, como se pode ver aqui,
não restam dúvidas de que se trata de uma excelente ideia. É minha ideia, não
esqueçamos. Estamos, ao que parece, num tipo de empreendimento emergente, como
agora se diz, e que contempla um nicho de mercado assaz abrangente, como agora
se diz também. Pelo que proponho a Vossa Excelência que a ideia – minha,
insisto – seja aproveitada e posta em prática com muito mais possibilidades de
êxito do que a que foi levada a efeito na Guarda.
Permita-me que me explique.
O que tem a Guarda para enfrascar? O seu
ar puro, naturalmente. Mas mais nada. Mas o Porto, Senhor Presidente, não se
limita a ter ar puro; o Porto tem ares de diversas qualidades! E qual delas a
melhor.
Senhor Presidente: já se dignou passear
pela Ribeira do Porto num qualquer fim-de-semana? Já viu a quantidade de
turistas que por ali passam? Já viu como seria belo esses turistas poderem
levar, num frasco ou boião, um pouco do genuíno ar da Ribeira, e respirá-lo
sofregamente enquanto visionam as fotografias digitais no Picasa 3? Já imaginou
como as contas da câmara poderiam ficar equilibradas e, até, apresentar
mais-valias financeiras, se a CMP começasse a vender o ar do Parque da Cidade?
Mais: Já viu a gama de escolhas que poderíamos ofertar, desde o ar do ar do
Parque de S. Roque até ao ar da Praia dos Ingleses? Repare, por favor, nas
potencialidades deste negócio: Vossa Excelência e o JNPC enterravam o machado
de guerra e, em parceria, proporcionavam a venda de ar do Estádio do Dragão,
sim, senhor Presidente, aquele ar com o cheiro a relva pisada misturado com o
fumo dos “very-lights” e com uma pitada de suor dos jogadores… Imagine só os
lucros fabulosos nos jogos internacionais, nacionais que fossem! Vou mais
longe, no meu ambicioso projecto: uma parceria com a C.M. de Matosinhos, para
se vender o ar da Petrogal. Não é que seja muito agradável, mas é raro, pelo
que o seu preço seria, sempre, em função da procura, que seria elevada, não
tenho dúvidas.
Depois… o limite está na imaginação que,
como Vossa Excelência sabe, não tem limites. Haveria ar para todos os gostos:
desde o ar da Lipor até ao da ETAR; poderíamos enfrascar o cheiro das genuínas
e mui portuenses Tripas à Moda do Porto, e das não menos genuínas Francesinhas.
Aqui fica, pois, o meu projecto.
Aproveite-o Vossa Excelência da forma como mais lhe aprouver, sendo certo que
desde já me comprometo a não cobrar um tostão por direitos de autor, ou de
percentagem nos fabulosos lucros que se adivinham, e que farão inveja às CGD,
EDP e quejandos.
2011-12-17
O ar da Guarda
País - Já pode comprar ar puro em frascos - RTP Noticias, Vídeo
Duas estações televisivas davam notícia de que o Teatro Municipal da Guarda (TMG) estaria a comercializar o ar puro da Guarda, em frascos devidamente embalados. Afirmavam que se tratava de uma iniciativa "original".
Desde logo, não sei se é possível introduzir o ar dentro de frascos - basta abri-los, julgo eu - e, depois, respirar esse mesmo ar. Os meus conhecimentos de física não me permitem saber quanto tempo depois de abrir o frasco o ar se mantém, inalterado, no seu interior. Do mesmo modo modo, não sei até que ponto o ar pode ser vendido - a menos que o TMG se limite a vender os frascos, oferecendo o ar como brinde. Seja como for, uma preocupação me apoquenta: vendendo o ar da Guarda e considerando, dada a excelente qualidade, uma procura fora do normal, tanto que até já se fala em exportação, não se correrá o risco de os guardenses começarem a respirar ar impróprio, poluído ou contaminado? Ou será que as quantidades disponíveis de ar são suficientes para dar e vender?
Desde logo, não sei se é possível introduzir o ar dentro de frascos - basta abri-los, julgo eu - e, depois, respirar esse mesmo ar. Os meus conhecimentos de física não me permitem saber quanto tempo depois de abrir o frasco o ar se mantém, inalterado, no seu interior. Do mesmo modo modo, não sei até que ponto o ar pode ser vendido - a menos que o TMG se limite a vender os frascos, oferecendo o ar como brinde. Seja como for, uma preocupação me apoquenta: vendendo o ar da Guarda e considerando, dada a excelente qualidade, uma procura fora do normal, tanto que até já se fala em exportação, não se correrá o risco de os guardenses começarem a respirar ar impróprio, poluído ou contaminado? Ou será que as quantidades disponíveis de ar são suficientes para dar e vender?
Adiante..
Recuemos uns anos.
No ano de 1984, na qualidade de Subinspector da Polícia Judiciária, e até 1986, chefiei a então Subinspecção da Guarda. Posso dizer que me apaixonei pela cidade, o que não é nada difícil, e criei, com ela, uma ligação afectiva muito forte. De tal modo que não há, praticamente, um ano que eu não visite a Guarda - embora ainda me doa constatar o desaparecimento do emblemático "Monteneve", ali na Praça Nova, mas o progresso é quem manda. Ainda tentei fazer da Guarda a minha cidade natal, mas já estava, na altura, 41 anos atrasado, segundo me disseram.
Após a aposentação, e como não tinha mais nada de útil para fazer - não tinha, ou não sabia... - comecei a escrever. Dois dos meus romances falam da Guarda: um, de forma implícita ("Não Há Crimes Perfeitos?"), já que a história de desenrola à volta da investigação do que ficou conhecido pelo "Caso da Fonte Seiça; o outro, e é este que nos interessa, fala explicitamente na "Alta cidade da vetusta Beira". Livros cuja leitura recomendo viva e obviamente.
Voltemos ao ar engarrafado, ou será melhor dizer enfrascado? A ideia tem duas vertentes, que acabam por entroncar na mesma origem, a saber: a ideia é excelente, mas não é original. Não é original porque é minha, e é excelente pela mesmíssima razão.
Com efeito, em Julho do corrente ano na Papiro Editora dava à estampa o meu mais recente romance - "O Alfa das 10 e 10". A páginas tantas, é descrita, em pormenor, uma tentativa, concretizada em parte, de vender o ar puro da Guarda. Não era em frascos, era em garrafas ou garrafões, como se pode ler no texto "A reunião preparatória". Infelizmente, os empreendedores empresários deixaram que a ganância falasse mais alto, e o negócio lá foi por água abaixo.
Assim sendo, para bem do meu ego, gravemente ferido e mais amarfanhado do que o chapéu de um pobre, bom seria que a verdade fosse reposta, e que e a César fosse dado o que a César pertence sendo que, neste caso, o tal César sou eu. Vendam, à vontade, o ar da Guarda, ate o podem dar, se quiserem; mas não digam que a ideia é vossa; ela é minha, muito minha!
Acho eu...
A reunião preparatória
(…)
Felizmente
que "Nelo Careca" era homem de ideias. Muitas ideias, embora nem
sempre ou, para ser mais exacto, quase nunca, a quantidade correspondesse à
qualidade.
As
cidades estavam poluídas com o crescente aumento da utilização dos automóveis,
e havia pessoas a queixar-se de dificuldades respiratórias. "Nelo
Careca" tinha lido, algures, que os ares da serra eram mais puros, o que
se compreende, porque lá em cima sempre há menos automóveis, e leu mais, que
quanto mais alta fosse a serra mais puro era o ar, o que também começa a fazer
certo sentido, considerando a consideração anterior. Ora, o ponto mais alto de
Portugal é o Pico, na ilha com o mesmo nome, mas fica um bocado à desamão, pelo
que os continentais terão de se contentar com o que há por cá. Ora por cá, como
toda a gente sabe, temos muitas serras, a mais famosa das quais é a da Estrela,
não só por ser a mais alta mas também por ter neve e tudo. Os ares daquelas
bandas são tão puros que até houve, em tempos, um sanatório ali nas imediações,
mais exactamente na cidade da Guarda que, não sendo tão alta como a Serra da
Estrela, é a cidade mais alta de Portugal. Todos estes ingredientes bastaram
para que "Nelo Careca" se decidisse a fazer aquilo que se chama,
hodiernamente, uma prospecção de mercado. Reuniu o terno e marchou, e este marchou mais não é do que uma figura de
estilo, ninguém, em seu perfeito juízo, se põe a marchar desde o Porto até à
Guarda, mas pronto, o terno lá se
deslocou até à Alta cidade da vetusta
Beira[1], como rezou o
poeta Júlio Ribeiro. Planeava que as pessoas das cidades, principalmente da
cidade do Porto, ou, até, do chamado “grande Porto” pudessem usufruir dos ares
puros da Serra, ou seja, queria tratar da saúde àquela gente toda. Não era
fácil. Como conseguiria, alguma vez, levar mais de trezentos mil habitantes a
tomar o ar da montanha, se o carro só levava quatro? Pronto, está bem, com
jeitinho e apertados caberiam seis, mas só se os outros elementos do terno não quisessem viajar, mas mesmo
seis era pouco para fazer face às despesas, a gasolina estava cada vez mais
cara, de repente lembrou-se de ter ouvido, algures, um provérbio que dizia,
mais ou menos, Se a montanha não vai a
Maomé, Maomé vai à montanha, lembrança que foi de grande alegria para
"Nelo Careca" e para o terno,
já que tinham o problema parcialmente, mas era um parcialmente muito grande,
enorme, resolvido, e que era, afinal, muito simples, bastava aplicar o
provérbio ao contrário, aliás, há muita gente que diz que a montanha é que foi
a Maomé e não o inverso, o que não dá para acreditar muito, não tem grande
lógica, as montanhas não andam, pois bem, se as pessoas não podiam ir à Guarda
tomar o ar, trazia-se o ar da Guarda para as pessoas, devidamente engarrafado,
claro, bastava-lhes abrir a garrafa ou o garrafão e respirar o ar que se
encontrava lá dentro, não há nada como os provérbios antigos, modernos que
sejam, vejam lá o que a gente aprende com eles, não é por acaso que se diz que
os provérbios são a voz do povo e, como toda a gente sabe, a voz do povo é a voz de Deus, estão a ver, outro provérbio que
encerra verdades como punhos, embora, neste caso, talvez fosse mais correcto
dizer que a voz é de Alá e não de Deus, já que é de Maomé que falamos, e foi
Maomé que inventou Alá, que Deus já tinha sido inventado tempos antes. Eis,
pois, que o terno passou a
deslocar-se semanalmente à Guarda, às vezes mais que uma vez por semana, donde
traziam o carro atulhado de garrafas e garrafões de plástico cheios de ar puro
da Serra que, depois, iam vendendo a quem tivesse dificuldades respiratórias,
três euros a garrafa, dez euros o garrafão, se devolvessem o vasilhame tinham
desconto de cinquenta cêntimos, meus amigos, aquilo vendia-se como pão na
padaria, quando havia padarias, naturalmente, podem não acreditar mas eu posso
assegurar-vos que houve pessoas que passaram a sentir-se melhor, a respirar sem
dificuldade, algumas houve a quem o médico garantiu, doença pulmonar obstrutiva crónica? Nem pense nisso! Os seus pulmões
estão limpos como a palma da minha mão, grande coisa é a psicologia, o terno voltou a encher-se de dinheiro, e
já pensava em comprar uma carrinha quando a ganância passou a falar mais alto,
e toda a gente sabe, se não sabe devia saber, que não se deve dar ouvidos à
ganância, quer ela fale alto quer fale baixo, isto é um conselho que dou
gratuitamente, só têm que pagar o livro, mais nada, quando ouvirem a ganância a
falar façam como Ulisses, que mandou os marinheiros amarrá-lo ao mastro com os
ouvidos tapados para não ouvir o canto das sereias, mas "Nelo Careca"
nunca tinha lido a “Odisseia”, limitava-se a ler a “Caras” e a “Maria”, que não
falam nessas coisas. Ora, quando a ganância falou deu maus conselhos, a saber, como é que as pessoas conseguem distinguir o
ar da Serra da Estrela do ar de outra serra qualquer, isso é como a água benta,
como é que se distingue da outra? mas a verdade é que se distingue, nunca
ninguém se benzeu com água da torneira, de charco, engarrafada que fosse, o que
é certo é que "Nelo Careca” achou que a ganância tinha razão e, poupando
nas despesas iria, fatalmente, aumentar os lucros, sempre assim foi e há-de
continuar a ser, se Deus Nosso Senhor quiser, daí que tivesse deixado de
efectuar as longas viagens até à Guarda, substituindo-as por mais rápidas e
económicas jornadas à Serra do Pilar, para o que bastava atravessar uma das
pontes que unem as margens do Douro. Não tardou, porém, que começassem a cair
reclamações, ah, e tal, o ar não é tão
bom como o costume, veja lá se é do fornecedor, eu assim não compro mais, antes
quero continuar a respirar o ar normal, sempre é mais barato, o meu médico já
me disse que eu estava pior, devia procurar outros ares, a provar que o ar
da Serra da Estrela não se confunde com outro ar qualquer, tal como a água
benta não se confunde com a água rafeira,
o que é certo é que os fundos do terno
estavam a chegar ao fundo, a clientela fugiu, a firma perdeu credibilidade, e foi nessa altura que, em desespero de
causa, "Nelo Careca" tentou a cena cigana que atrás se descreve, com
as consequências igualmente descritas.
[1]
Alta cidade da vetusta Beira,
Entalhada na monstra serrania.
Chamem-te, embora, Feia,
Falsa e Fria,
Mas és, também, fidalga
hospitaleira.

2011-12-14
Como se insulta com diplomacia
O Governo descobriu uma maneira simpática de insultar os portugueses. Para além de lhes ir aos bolsos desalmadamente, sem qualquer tipo de vergonha, o Governo desatou a chamar idiotas aos esmifrados tugas. Só que o Governo insulta os portugueses com diplomacia.
Valha-nos isso, ao menos. Pode ser haja quem não perceba o insulto e, nesse caso, o insulto não funciona. Mas não é o caso da esmagadora maioria da população - embora alguns governantes continuem a achar que os portugueses permanecem imbecis como antes do "25 de Abril". Parece que quem é imbecil não é a chamada "sociedade civil", aliás.
Dito isto: O ministro da Saúde vem a terreiro garantir que as consultas não aumentam para 10€. E para basear a sua afirmação, conta-nos a sua versão, corrigida e aumentada da galinha da estatística: "«Vamos fazer uma conta simples, por cada português daria a mais por ano cerca de dez euros, mas não dá, porque há quase sete milhões de portugueses que total ou parcialmente estarão isentos, portanto há três milhões de portugueses que vão pagar este acréscimo, então estes 90 a 100 milhões de euros divididos por três milhões darão cerca de 30 euros por ano, quer dizer que em média cada português pagará mais 2,5 euros daqueles que não estão isentos».
Seria anedótico, se não fosse triste.
Valha-nos isso, ao menos. Pode ser haja quem não perceba o insulto e, nesse caso, o insulto não funciona. Mas não é o caso da esmagadora maioria da população - embora alguns governantes continuem a achar que os portugueses permanecem imbecis como antes do "25 de Abril". Parece que quem é imbecil não é a chamada "sociedade civil", aliás.
Dito isto: O ministro da Saúde vem a terreiro garantir que as consultas não aumentam para 10€. E para basear a sua afirmação, conta-nos a sua versão, corrigida e aumentada da galinha da estatística: "«Vamos fazer uma conta simples, por cada português daria a mais por ano cerca de dez euros, mas não dá, porque há quase sete milhões de portugueses que total ou parcialmente estarão isentos, portanto há três milhões de portugueses que vão pagar este acréscimo, então estes 90 a 100 milhões de euros divididos por três milhões darão cerca de 30 euros por ano, quer dizer que em média cada português pagará mais 2,5 euros daqueles que não estão isentos».
Seria anedótico, se não fosse triste.
2011-12-08
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