2009-08-25
A BEATA INTRANQUILIDADE
2009-08-21
OS GENÁRIOS (II)

Entretanto, salta-me a vista, depois de enxuta a lágrima traiçoeira, uma notícia no "Jornal de Notícias": Estradas Já Mataram Mais de Uma Centena de Jovens". E a notícia vai por aí fora, e eu fico pensando que, se calhar, não é a estrada que mata as pessoas, são elas que se suicidam. O que já é grave, mas o problema é de cada um. O pior é quando suicidam os outros. E pergunto: se a notícia dá conta de que essa centena engloba jovens entre os 15 e os 29 anos, o que andam a fazer os velhotes? Deixaram de conduzir? Ou estão a renovar a carta de condução, com rigorosos exames psicotécnicos?
2009-08-13
RONALDO E A INVEJA
Vejamos: Ronaldo foi acometido de gripe. Era natural que, com aquela categoria e com o

Como se não bastasse, a equipa da selecção portuguesa, que tem vindo a perder tudo quanto é pontapé na bola, com Ronaldo e tudo, acaba por ganhar por uns largos 3-0 à poderosa selecção do Liechtenstein. Se isto não é uma cabala, alguém faça o favor de me explicar como é que se define cabala. Então, não é que a chamada equipa das quinas ganha, precisamente, quando Ronaldo não joga?!
OS SUPERIORES INTERESSES DA CRIANÇA
Há dias, numa fila de trânsito, verifiquei que, no carro à minha frente, seguia, divertidíssima e alegremente "solta", uma criança, no banco traseiro. Como se fosse pouco, a criança brincava na direcção do espaço que há entre os dois bancos dianteiros. Tencionando sair um pouco mais à frente, pela esquerda, ultrapassei o veículo em causa: a condutora, presumível mãe da criança, falava descuidadamente ao telemóvel.
Ao ultrapassar, olhei de relance: havia uma cadeirinha apropriada. Mas a criança ia solta.
2009-08-10
MOMENTO DE LEITURA
Vistoriaram, a seguir, ambas as portas. Ou antes, os interiores das portas já que, exteriormente, nada havia a assinalar: as inevitáveis amolgadelas e os respectivos arranhões. Foi, pois, no interior das portas, na parte que fica voltada para dentro, que os investigadores depositaram a sua atenção. Observando atentamente, «Cartabranca» concluiu:
- Esta porta é do lado direito! Do lado do passageiro… Verifiquem a outra porta.
Verificaram. Não tinha qualquer motivo de interesse.
- Mas o assento tem, Chefe – era «Toninho» que, agora, solicitava a atenção do seu superior.
«Cartabranca» não conseguiu esconder a sua completa confusão:
- Estou completamente confuso!
Voltou-se para Fonseca, que seguia atentamente o desenrolar das operações:
- De onde é este assento?
- Do Fiat, claro!
O Chefe não estava para jogos de palavras:
- Porra, que é do Fiat, sei eu. Mas de que lado? Esquerdo, ou direito?
- Este assento é do lado direito.
- Portanto, está-me a dizer que este assento é do lado do passageiro.
- Exactamente. – Fonseca não tinha quaisquer dúvidas. – Não tenho quaisquer dúvidas.
«Cartabranca», porém, decidiu mostrar-se céptico. Não que não acreditasse no especialista, mas porque não bastava, na investigação, um caramelo qualquer, por muito especialista que fosse, dizer que sim senhor, que é o assento do lado direito. Se assim fosse, muita gente estaria presa inocente, muitos culpados estariam em liberdade, e o número de almas no Purgatório não seria, certamente, aquele que as estatísticas referem. Não senhores! Na investigação quer-se rigor. Objectividade. Para que os culpados sejam presos, os inocentes libertados, e muitas das almas do Purgatório ascendam, finalmente, ao Paraíso Celeste – que o Terreno já deixou de existir há uns anos largos, graças à estupidez do Adão, que foi logo dar ouvidos à primeira gaja que lhe apareceu pela frente. Há homens que não podem ver uma mulher, começam logo a fazer asneiras, palavra de honra! Foi por essas e por outras razões, ou seja, em defesa do rigor e da objectividade, que «Cartabranca» voltou a interpelar Fonseca:
- Sr. Fonseca, explique-me, mas de maneira a que eu compreenda, em que se baseia para garantir que este assento é do lado direito e não do esquerdo.
Com uma paciência só comparável à de Job, Fonseca explicou, pormenorizadamente, que aquele assento só poderia ser do lado direito, porque, por exemplo, as calhas de deslizamento longitudinal eram diferentes, como se podia observar, aliás, por comparação com o outro assento, etc. e tal, e «Cartabranca» mostrou-se, finalmente, convencido. Já não era sem tempo! Encarou «Toninho», que tinha seguido atentamente a conversa:
- Ouviu, não ouviu? Tome declarações ao Sr. Fonseca, de maneira a reproduzir as explicações que foram dadas.
- Afinal, confessas! Então, sempre é verdade! Andas com essa ordinária, que nem sequer se lembra que é casada. E julgavas que eu ia deixar a procuração como estava? Para quê? Para gozares o dinheiro com aquela puta?
- Não a insultes!!!
- É puta, pois então! Nem uma vaca consegue ser tão puta como ela!
Bonifácio perdeu completamente as estribeiras. É numa altura destas que alguém, ou algo, talvez a tal divina providência, ou coisa parecida, devia tomar conta dos infelizes humanos, principalmente daqueles que, em situações extremas, são incapazes de meter pé ao travão das atitudes e carregar com toda a força. Eu até admito que Bonifácio tenha tentado meter o pé no travão das atitudes; mas, com a bebedeira, deve ter-se enganado e carregou no acelerador. Completamente fora de si, meteu a mão ao bolso e empunhou o revólver, apontando-o a D. Perpétua:
- Se voltas a insultá-la, mato-te!
Os relâmpagos iam iluminando a cena que, sujeita à alternância de luz e escuridão, tomava um aspecto fantasmagórico. D. Perpétua viu o brilho da arma na mão do marido, mas também ela estava cheia de raiva. E nós sabemos como, em determinadas circunstâncias, a raiva nos tira a percepção do perigo. Suponho que é assim que surgem os heróis: é quando tomam uma atitude sem medir os riscos que ela, a atitude, naturalmente, comporta. Acresce, a isto tudo, que o espaço no interior do carro não era propriamente o de um daqueles carros que nós estamos habituados a ver nos filmes americanos dos anos sessenta e que, actualmente, são parte do folclore cubano. Quer dizer, eu estou habituado, falo por mim. O Fiat Uno é um carro pequeno e, naquelas circunstâncias, o empunhar e apontar a arma obrigava a uma relação de proximidade muito íntima. Por outras palavras, a mão de Bonifácio ficou perigosamente perto da boca de D. Perpétua. Esta, com um raro sentido de oportunidade, ferrou os dentes no punho que se lhe apresentava, dando origem a que duas coisas acontecessem, quase simultaneamente: o arquitecto largou um berro capaz de acordar as rochas adormecidas, e um tiro fez-se ouvir. Como não há duas sem três, uma terceira coisa aconteceu – só que não foi causada por qualquer das personagens: um trovão ribombou violentamente. Sem qualquer prática no manejo de armas, Bonifácio tinha, ignorante e estupidamente, colocado o dedo indicador no gatilho. Reagindo à dentada de D. Perpétua, o dedo contraiu-se e premiu o dispositivo de disparo. A bala saiu e, por um capricho que só a balística conseguirá explicar, ricocheteou várias vezes no interior do carro, sem atingir quem quer que fosse. Finalmente, perdida a sua força inicial, o projéctil foi aninhar-se junto ao umbigo de D. Perpétua, que sentiu como que uma picadela, mais nada. Também se diga de passagem que não teve tempo para tentar saber qual a origem da picadela; completamente fora de si, Bonifácio deixou cair a mão que empunhava a arma uma, e outra, e outra vez, sobre a cabeça da esposa, até que esta deixou de dar sinais de reacção. O sangue começou a correr vertiginosamente da cabeça ferida, manchando o forro da porta do lado onde se encontrava. A cabeça de D. Perpétua tombou para o lado esquerdo, na altura em que Bonifácio punha o carro em movimento. A tempestade tinha passado, tão rapidamente como tinha surgido. O sangue, esse, continuava a pingar, deslizando pela napa que guarnecia a zona lateral do assento, e caindo, gota a gota, sobre o tapete traseiro
D. Perpétua respirava debilmente.
In "Não Há Crimes Perfeitos?" de José Carlos Moreira. Devidamente autorizada a transcrição parcial, por deferência do autor.
2009-08-01
OS PREGUIÇOSOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS
Após alguma acalmia, eis que a retrógrada comunicação social volta ao ataque, sem dúvida a mando do dono: 1) - os funcionários públicos são quem tem menos horas de trabalho semanais, em comparação à Europa; 2) - têm muitos mais dias de férias que o sector privado. Uns privilegiados, é o que eles são. Esquecem-se de dizer, nem isso convém, é que também são os que menos ganham, na Europa; e que os tais dias de férias a mais foram dados pelo Eng.º Guterres, precisamente para compensar a míngua de aumentos salariais que, durante o guterrrismo, foram abaixo de cão. Ou ainda menos. Como se fosse possível comprar batatas com dias de férias...
Vamos ter um pouco de vergonha, senhores da comunicação social.