2010-09-27

OS ABUSADORES

Há dias, aguardava consulta num centro de saúde. A privacidade era garantida, de modo que consegui ouvir, do lado de dentro da porta do consultório, o médico que se exasperava com um doente:
- Oh homem! Mas eu ainda na semana passada lhe receitei uma embalagem de cem comprimidos, e você está a pedir-me mais uma receita??? Olhe que isto é para tomar UM por dia.
- O sr. Dr. compreende... - argumentava o paciente - como são de graça, a gente aproveita, não é verdade? A reforma não dá para comprar nada, e assim eu vou-me entretendo a tomar comprimidos. Antes isso do que andar na droga, não é verdade, senhor doutor?

Vim a ter conhecimento, depois, em conversa com o médico, que era verdade e recorrente. Velhotes com pensões de miséria, a quem o Estado - todos nós! - comparticipa na compra de medicamentos, abusavam. Abusavam descaradamente, consumindo medicamentos sem necessidade, e até aventou a hipótese de haver velhotes que vendiam esses medicamentos pela Internet, em unidose, numa descarada concorrência desleal às farmácias, esquecendo-se de que o país está em crise e que o dinheiro que vai para os medicamentos que eles tomam e/ou vendem abusivamente faz falta para TGV, fundações, pensões milionárias e carros topo de gama para altas figuras do Estado e de empresas públicas.
Felizmente que temos uma ministra da saúde que devia ser oftalmologista, a julgar pela visão que tem do país e do futuro. "Para acabar com os abusos", segundo disse, os velhotes vão passar a pagar 5% dos medicamentos. Ainda bem! Ainda bem que alguém tem coragem política de tomar uma medida impopular, certamente, mas altamente moralizadora.
"Para acabar com os abusos" disse ela. Plenamente convencida de que alguém acredita, certamente. Ou a julgar que somos estúpidos, o que já é grave.

2010-08-29

O PAPA REZA...

"Passeando" pelos jornais televisivos, deparo-me com a notícia, a correr em rodapé, de que "Bento XVI reza constantemente pelos mineiros do Chile (o sublinhado constantemente não é meu)".

Desde logo, não está provado que as rezas possam servir para alguma coisa. Se servissem, certamente que nada teria acontecido aos mineiros, pois as famílias também devem rezar constantemente para que nada lhes aconteça. Além disso, tudo quanto é gente está empenhada em tirar os mineiros da dramática situação em que se encontram. Fundamentalmente, estão empenhados em dar-lhes, enquanto durar esta situação, as melhores condições possíveis, evitando a entrada em depressão, tentando mantê-los ocupados, enfim, descrever as preocupações das diversas autoridades seria um exercício redundante, já que os leitores certamente acompanharão o desenrolar da situação. De qualquer modo, onde eu quero chegar é a este ponto: as autoridades não estão a procurar a solução do problema nas mãos de uma qualquer divindade. Ou seja, eles não confiam em deuses para resolver os problemas. Provavelmente confiaram, ao não acautelar as devidas condições de segurança (respiros com escadas, por exemplo); se o fizeram, o resultado está à vista. Depois, acresce outra questão: onde estava Deus quando se deu a derrocada?
Mas a questão principal até nem é essa. "Bento XVI reza constantemente pelos mineiros do Chile". Muito bem, se calhar é a sua obrigação. Mas, porquê a publicidade? Porquê a ânsia de protagonismo? Porquê a compulsiva atitude de se pôr em bicos de pés? Não foi Jesus que disse algo como "Mas, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita" (Mateus 6:3)?

2010-08-15

A VERDADE VEM SEMPRE...

Agora, que a poeira já assentou, já posso falar, desapaixonadamente, sobre o assunto.
Quando o processo "Freeport" foi dado por findo, José Sócrates veio a terreiro berrar que "a verdade vem sempre à tona, como o azeite". E houve muito quem aplaudisse.
José Sócrates (e quem o aplaudiu), nunca viu uma fossa séptica. Se tivesse visto, verificaria que nem só o azeite vem sempre à tona; a merda também. Pelo que a comparação peca por defeito.

2010-08-13

LUCUBRAÇÕES PROFUNDAS

Quando eu era (mais) novo, era recorrente ouvir a minha avó dizer "o dinheiro desaparece como a água". Analfabeta de nascença e por vocação, a minha avó não sabia que a água não desaparece. Foi na escola primária, ainda não havia novas oportunidades e, portanto, tive de frequentar a escola primária, que aprendi que a água não desaparece, ela muda é de lugar. Se não está aqui, estará nalgum sítio, mas não desapareceu. Vejam o que se passa na Rússia, a atravessar um período de seca sem memória, enquanto que ali perto, no Paquistão, na China e na Europa Central, a água provoca inundações. Não está na Rússia, onde faz tanta falta, está noutras paragens, onde cai em excesso.
Vem isto a propósito de uma notícia que passou na TV: a venda de casas de luxo está em alta. Isto quando a Europa se debate com uma crise sem precedentes. Então, como é? Há dinheiro, ou não há dinheiro?
A minha avó tinha razão: o dinheiro é como a água. Mas a comparação fica por aí. Porque, tal como a água, se não há dinheiro aqui, ele estará nalgum lugar. Se não está no meu bolso, está no bolso de alguém. Faz-me falta a mim, há em excesso algures.
Mas não desapareceu.
A água também não...

2010-08-03

PALÁCIO DA BREJOEIRA


Continuo a dizer que não há coisa mais bela e mais cómoda do que a preguiça.

É que ontem fomos até ao Palácio da Brejoeira, em Monção. E vocês nem imaginam a trabalheira que dava estar a escrever tudo acerca do Palácio. Vai daí, e em homenagem ao pecado, fiz "copy/paste" da "press release". Assunto resolvido. Ele aqui vai, com a devida vénia.

Também sinto o dever de informar que as fotos do filme abaixo são de autoria de Alfredo Cunha, Hugo Souto e Jorge Marçoa. Também há algumas minhas, que são fáceis de identificar: são as mais foleiras.

Quando puderem, façam um passeio até Monção e visitem o Palácio. E usufruam da beleza que é a área envolvente.

Ah: Para comer, escolham Valença ou Arcos de Valdevez, de acordo com o itinerário. Esqueçam Monção. Sobretudo, esqueçam o "7 à 7".




PALÁCIO DA BREJOEIRA



Palácio da Brejoeira abre ao público ao fim de dois séculos



Situado na freguesia de Pinheiros, concelho de Monção, classificado como Património Nacional desde 1910,

sendo propriedade privada, só agora decide abrir as suas portas a visitas, e partilhar toda a beleza e relíquias

escondidas, saciando todaacuriosidade de tantosquantospassavam do lado defora dosportões e o

admiravam.

Ex-líbris da região do Alto-Minho, é umagrandiosaconstrução em estiloneo-clássico, dos princípios do

século XIX. Casasenhorial,circundada de altosmuros, aogosto da época, comumfrondoso parque de

essências arbóreas centenárias e pouco vulgares. É um conjunto notável – Palácio, capela, bosque, jardins,

vinhas e adega antiga (onde hoje estagia a prestigiada Aguardente Velha) – que seduzeencanta pela

harmonia que dele emana. Para lá dos seus jardins, cultivam-se com esmero 18 dos30hectares da

propriedade, com vinhadecasta Alvarinho queHermíniaPaes transformounum dosmais emblemáticos

vinhos da Sub-região de Monção.

Datada de 1806, o inicio da sua construção, a mando de um “rico morgado, fidalgo da Casa Real e cavaleiro

da Ordem de Cristo” de nome Luís Pereira Velho de Moscoso é concluída em 1834. Em 1908 e já na posse de

outro proprietário, conselheiro Pedro Maria da Fonseca Araújo, industrial e naalturaPresidente da

Associação de ComerciodoPorto, inicia obras derestauroe remodelação,edifica-se acapela palatina e o

teatro, revestem-se as paredes do átrio e escadaria de azulejos e no exterior reforma os jardins e o bosque

riquíssimo emespéciesexóticas, construindoaindaum belo lago. Em1937,Francisco de OliveiraPaes,

adquire para oferecer a sua filha e actual accionista maioritária, da Sociedade Anónima, que entretanto se

constituiu em Julho de 1999.

Palácio construídonaencantadora Quinta doValeda Rosa, actual QuintadaBrejoeira, com grandes e

luxuosos salões, imensa biblioteca, jardim de inverno, teatro, azulejos figurativos, pratas, loiças do oriente,

mobiliário de madre pérola e pau-preto, tudo aqui é palaciano e pode a partir de agora ser visitado.

Um espaço a conhecer, onde os visitantes vão poder dizer: “eu estive no Palácio da Brejoeira”!


“Não descendemos de sangue real, mas do nosso sangue descendem reis”


2010-08-02

UMA HISTÓRIA DE FICÇÃO

  1. Ambrósio e Briolanja, casaram-se. Foram morar para casa dela.
  2. Passado algum tempo, Ambrósio arranjou uma amante. Concomitantemente, começou a agredir Briolanja, com frequência.
  3. Briolanja foi aguentando, na doce ilusão de "salvar o casamento". Aliás, o padre tinha dito, na cerimónia de casamento, que era "até que a morte nos separe".
  4. Um dia, Briolanja decidiu que já chegava de tareia, e achou que a morte estava a demorar demasiado tempo. Ligou para a polícia, que levou o agressor e o apresentou em tribunal.
  5. O juiz determinou que o arguido ficasse em liberdade, a aguardar julgamento, mediante Termo de Identidade e Residência (T.I.R.). O art.º 196º do Código de Processo Penal reza assim, no seu nº. 2: "Se o arguido não dever ficar preso, do termo deve constar que àquele foi dado conhecimento da obrigação de comparecer perante a autoridade competente ou de se manter à disposição dela sempre que a lei o obrigar ou para tal for devidamente notificado, bem como da de não mudar de residência nem dela se ausentar por mais de cinco dias sem comunicar a nova residência ou o lugar onde possa ser encontrado (o sublinhado é meu).
  6. Para satisfazer as exigências do T.I.R., Ambrósio declinou a sua morada: a mesma de Briolanja, naturalmente.
  7. Briolanja teve de mudar de casa, já que não estava sujeita ao T.I.R. e não quis continuar a "apanhar".
N do A: Esta, é uma história da mais pura ficção, fruto da aliás fecunda imaginação do autor. Qualquer semelhança com o que se vai lendo nos jornais, ou seja, com a realidade, é mera coincidência.

2010-07-29

OS INCÊNDIOS SÃO FOGO!

A exemplo do que vai acontecendo todos os anos, Portugal está a arder. E se um cão morder um homem não é notícia, os incêndios florestais também não o deviam ser. Mas são.
Todos os anos, aí por alturas de Fevereiro/Março, os inteligentes deste país aparecem em tudo quanto é meio de comunicação social a berrar que Portugal está, este ano, preparado para combater, eficazmente, os fogos. E todos os anos, lá por volta de Outubro, aparecem os realistas a dizer que a área ardida é XPTO vezes superior à do ano passado, e que é preciso blábláblá.....
Quando em andava a aprender a ser polícia, uma das coisas que me ensinaram foi que, em caso de crime, se deve formular (entre outras, claro) esta pergunta: A quem interessa o crime? Logo que haja resposta a essa pergunta, teremos metade do caminho andado para a descoberta do autor do crime.
Todos os anos alguém berra que é preciso limpar as matas. Já sabemos. E alguém manda limpar? Provavelmente sim. E alguém limpa? Certamente, não. E acontece alguma coisa, em caso de desobediência? Provavelmente, o relapso paga uma coima. Mas como o relapso sabe fazer contas, chega à conclusão de que limpar a mata fica infinitamente mais caro do que pagar a coima. Que, provavelmente, não pagará. E se a mata arder, os bombeiros darão conta do recado. E os populares. Além disso, é preciso dar dinheiro a ganhar, que o Estado não tem dinheiro para umas coisas, mas tem para outras. Provavelmente, fica muito mais barato o Estado mandar limpar as matas do que pagar helicópteros ao minuto. Provavelmente...
Já agora: nos incêndios florestais, e para além dos suspeitos do costume, que são presos todos os anos (ninguém dá conta de que, depois, acabam por ser libertados por falta de provas ou, até, nem chegam a ser presentes a tribunal) para além destes, dizia eu, a quem interessa, realmente, o crime? A quem interessa que haja fogos florestais?

2010-07-22

MIRANDA DO DOURO - NOTAS DE VIAGEM (II)

Confesso que não fui a Miranda do Douro para visitar a cidade; já a conhecia. Nem sequer fui por causa da posta mirandesa; há locais onde se come melhor posta que em Miranda do Douro.
Mas fui porque Miranda do Douro não é só a cidade, não é só a posta; Miranda do Douro tem muito mais que isso. Miranda do Douro tem recantos desconhecidos, e que bem mereciam ser explorados. Bem explorados. Miranda do Douro tem um barco que desliza, suave e silenciosamente, pelas arribas do Douro internacional. Arribas onde, com alguma sorte, conseguimos ver espécies protegidas, no seu "habitat". Eu tive alguma sorte, consegui ver, e fotografar, uma águia real. Mas mesmo sem fauna, a viagem pelas selvagens arribas do Douro é motivo mais que suficiente para uma visita e um passeio. Curiosamente, e eu até costumo estar mais ou menos a par dessas iniciativas, não me recordo de ter visto que alguma agência de viagens organize passeios para aqueles lados.
Agências portuguesas, claro; porque os autocarros espanhóis fazem bicha, nas imediações do embardacouro. Por isso, não se admire o nosso constrangimento, quando a guia perguntou se havia portugueses a bordo, e... dois braços se levantaram. Cento e dezoito espanhóis, dois portugueses.
Só faltou pedir "tirem-me deste filme"...

2010-07-18

MIRANDA DO DOURO - NOTAS DE VIAGEM

NOTA GASTRONÓMICA

Este fim-de-semana fomos até Miranda do Douro. Embora já conhecesse a cidade, quis visitar alguns pontos interessantes nos arredores, e fazer a viagem pelas arribas do Douro. Mas esta fica para segunda nota.

Levávamos um livro, editado pelo "Expresso", que já nos deu algumas alegrias gastronómicas. O livro indicava (e continua a indicar, claro) o Restaurante da Balbina como sendo o local onde se comia uma boa posta mirandesa. Pelo que, identificado o local, ali assentámos arraiais.
Não sei porquê, fiquei com a ideia de que aquele ditado que diz que ninguém é profeta na sua terra tem o seu quê de verdade. Porque a melhor posta que comi até hoje, foi em... Mogadouro.
Adiante.
Como não podia deixar de ser, convocámos a posta mirandesa. E logo o primeiro sopapo no estômago: o empregado a perguntar se queríamos a posta bem ou mal passada. Importa-se de repetir??? Pedir uma posta mal passada é um pleonasmo com laivos de obscenidade. Perguntar se queremos a posta bem ou mal passada equivale a perguntar se queremos o gelado frio ou quente, se queremos a sericaia doce ou amarga, se queremos o vinho tinto com ou sem cor! A posta deve ser um naco alto de boa e tenra carne, temperada apenas com sal e que, antes de vir para a mesa, deve dar uma passagem ligeira pelas brasas, mas apenas o tempo suficiente para fechar os poros e, dessa forma, manter todo o suco, que se vai espalhando pelo prato a cada golpe da faca.
Claro que fizemos questão de dizer ao empregado que queríamos a posta mal passada, apesar de tudo. Mas nem assim tivemos sorte. Porque quando a posta se apresentou, não tinha passado pelas brasas; tinha dormido um sono completo, como se tivesse tomado um sedativo. Como se não bastasse, o empregado ainda teve o desplante de informar, delicadamente, que se quiséssemos a posta mais bem passada era só dizer... É preciso ter lata! Resultado: a ambicionada posta mais não era do que um bife grosso. E bem passado, que é para eu aprender.
Como desculpa, e perante a mais que justa reclamação, o empregado desculpou-se dizendo que havia pessoas que gostavam assim... E eu, o que é que tenho a ver com isso?
Felizmente, no dia seguinte encontrei onde comer uma boa posta. Ao que parece, precisamente onde ela foi inventada: na Gabriela, em Sendim.
Quanto à Balbina, fui lá duas vezes: a primeira e a última.