2011-03-28

OS MILAGRES (DESCONHECIDOS) DE JESUS

Que Jesus fez milagres, parece que ninguém tem dúvidas. E se as tem, melhor é que as desfaça. Mas há milagres que não constam dos evangelhos, como nos revela o Reverendo padre Rowan Atkinson. A ver, com muita atenção e devoção.

2011-03-14

ROUBADO AO "DIÁRIO ATEÍSTA"


Deus e Catástrofes

  Escrito por Luís Grave Rodrigues  | 

Tradução “livre” de um artigo de A. C. Grayling, publicado no site daRichard Dawkins Foundation.
É com tristeza que todos pensamos nas centenas de milhares de pessoas cujas vidas foram horrivelmente perdidas ou afectadas pelo terramoto e pelo tsunami do Japão, e que marcaram a negro os anais deste ano de 2011, e que vieram logo a seguir ao terramoto que atingiu Christchurch na Nova Zelândia.
Estes acontecimentos, que estão certamente ligados do ponto de vista tectónico, lembram-nos das vastas forças da natureza que, se são normais para o próprio planeta, são já prejudiciais para a vida humana, especialmente para aqueles que vivem perigosamente perto do quebra-cabeças que são as falhas da superfície terrestre.
Alguém me disse que na igreja da sua terra iria haver orações especiais pelas pessoas no Japão. Este comportamento bem-intencionado e fundamentalmente simpático mostra, no entanto, quão absurdas, no sentido literal do termo, são as práticas e as crenças religiosas.
Quando vi na televisão uma reportagem de pessoas a dirigirem-se para a igreja em Christchurch após o trágico terramoto, foram estes pensamentos que me assaltaram.
Não seria simpático da minha parte pensar que aqueles que foram à igreja o foram para dar graças por eles próprios terem escapado pessoalmente; não lhes quero imputar egoísmo e alívio pessoal no meio de um desastre no qual tantas pessoas arbitrária e subitamente perderam as suas vidas por causa de um “acto de Deus”.
Mas se essas pessoas foram rezar para que o seu deus olhe pelas almas daqueles que morreram, por que pensariam elas que esse deus o faria, uma vez que foi ele próprio quem causou, ou permitiu, que os seus corpos fossem súbita e violentamente esmagados ou afogados?
De facto, estariam elas a suplicar e a louvar uma divindade que idealizou um mundo onde existem tantas arbitrárias e súbitas mortes?
Um ser omnisciente conheceria bem todas as implicações daquilo que faz, e por isso saberia também que iria proporcionar estes acontecimentos e todas estas suas horríveis consequências.
Estariam elas a louvar o causador do seu sofrimento, pelo seu sofrimento, e também a suplicar a sua ajuda para escapar àquilo que ele próprio tinha planeado?
Talvez elas pensem que o seu deus não é o responsável pelo terramoto. Mas se elas acreditam que o seu deus idealizou um mundo no qual estas coisas acontecem, mas depois deixou esse mundo sozinho e não intervém mesmo quando ele se torna letal para as suas criaturas, então essas pessoas estão implicitamente a questionar a moralidade do seu carácter.
E se ele não é suficientemente poderoso para fazer alguma coisa sobre a criminosa indiferença do mundo para com os seres humanos, então em que sentido é ele deus?
Pelo contrário, ele parece ser um espírito impotente, para quem é inútil rezar e que é indigno de ser louvado.
Porque se ele não é capaz de impedir um terramoto ou salvar as suas vítimas, então não está qualificado para criar um mundo.
Mas se ele é poderoso o suficiente para ambas as coisas, mas ainda assim cria um mundo perigoso que inflige arbitrariamente sofrimentos violentos e agonizantes a criaturas racionais, então ele é perverso.
De qualquer modo, o que pensam as pessoas que acreditam em tal ser, e vão à igreja para o louvar e adorar?
Como, perante acontecimentos que a bondade e a preocupação humana consideram trágicos e que exigem ajuda – ajuda que são os próprios seres humanas que proporcionam aos seus semelhantes: nunca aparecem anjos vindos do céu para ajudar – podem as pessoas acreditar em tal incoerente ficção, como é a ideia desta divindade?
É este um enigma sem fim.

2011-02-25

A ORIGEM DOS SISMOS

Para quem tiver dúvidas...
Para quem não sabe francês:
"As relações sexuais ilícitas na origem dos tremores de terra?
O aumento das relações sexuais ilícitas é a causa do aumento dos tremores de terra, segundo o 'ayatolah' Kazem Sedighi, imã da oração de sexta-feira de Teerão.
«Muitas mulheres mal vestidas» (não respeitando a veste islâmica) «corrompem os jovens, e o aumento das relações sexuais ilícitas faz aumentar o número dos tremores de terra» declarou".

2011-02-15

AI, OS JORNAIS...

O jornal "Sol", na sua edição electrónica, noticia que o "menino multitransplantado" saiu dos cuidados intensivos.
Eu sei - ou julgo saber - que em jornalismo há uma certa "liberdade", em termos linguísticos, principalmente no que a títulos diz respeito; mas há exageros que se devem evitar, principalmente quando põem em causa princípios básicos da língua portuguesa. Que diabo, não temos dinheiro, a nossa soberania é aquilo que a União Europeia deixar, Cristiano Ronaldo e José Mourinho estão ao serviço de uma equipa estrangeira de futebol, o que é que nos resta? A língua portuguesa. E mesmo essa, sabe-se lá o que lhe vai acontecer, com o Acordo Ortográfico (AO).
(Já agora: se um dos objectivos do AO era eliminar as consoantes mudas, o que anda a fazer o H em Homem, Honra, Hora, etc?)
Voltando ao título: O menino não foi transplantado. Muito menos, foi multitransplantado. Ou seja, transplantado várias vezes, coitado do menino! Porque se o foi, o articulista deveria, em prol do rigor informativo, dizer donde foi transplantado, e para onde. Porque, tanto quanto sei, vários órgãos de um menino que morreu foram (os órgãos, atenção) transplantados para o menino que, agora, saiu dos cuidados intensivos. Ou seja, o menino, este, o que está vivo, foi alvo de, ou objecto de, ou sofreu, múltiplos transplantes.
Mas não me consta que tenha sido transplantado. Claro que posso ter andado distraído... Acontece aos grandes génios, por que não haveria de me acontecer a mim?

2011-02-05

A CÁRIE

O senhor Salustiano era um homem de fé. Lembrou-se de que S. Lamberto era o padroei­ro dos dentistas e, por analogia, entendeu ele, dos sofredores dentais. Por isso, saiu do consul­tório e atravessou a povoação em direcção à igreja onde, naquelas circunstâncias de tempo, já pontificava o nosso conhecido padre José dos Santos Passos, segundo o qual os santos são intermediários entre os homens e Deus. Entrou directo na sacristia. Tinha pressa, porque o remédio que o den­tista tinha colocado no dorido dente corria o risco de ficar fora de prazo em curto prazo.

O padre José dos Santos Passos lia o breviário, e mal se sobressaltou quando se deu a entrada, algo bu­liçosa, do senhor Salustiano:

- Boa tarde, caro paroquiano. É sempre um prazer vê-lo na Casa de Deus. Aliás, a si e a to­dos os paroquianos.

- Boa tarde, padre.

Durante o trajecto, o senhor Salustiano delineara uma espécie de estratégia. Santos são san­tos, têm o poder de interceder junto de Deus, mas não é menos verdade que o mortal não pode estar à espera das dádivas divinas sem que haja uma contrapartida. Não é por mero acaso que muitas pessoas palmilham os caminhos até aos santuários, onde depositam os ex-votos – normalmente sob a forma de dinheiro ou objectos valiosos. Por isso, o senhor Salustiano sabia perfeitamente que não podia esperar um milagre e, depois de concedido, ir todo contente para casa como se nada tivesse acontecido. Era o que faltava!

Estava disposto, assim o tinha decidido, a mandar pintar a igreja – aliás a precisar de pin­tura urgente. Bastava, apenas, que aquela cárie dentária desaparecesse por milagre.

- Diga-me, senhor padre: esta igreja tem alguma imagem de S. Lamberto?

José dos Santos Passos sentiu-se algo interdito. São Lamberto? Por que carga de água? Por acaso até nem era um santo com saída, o que estava a dar mais era os chamados “Santos Populares” ou, em alternativa, o S. Gregório, muito solicitado aos fins-de-semana, fora disso era mais santas, tipo Santa Filomena, Santa Maria Madalena... Agora São Lamberto???

- Por acaso não... temos muitas imagens, São Bento da Porta Aberta, São Teotónio, por exemplo...Mas porquê?

- Bom, é que São Lamberto é o padroeiro dos dentistas; ora, sendo padroeiro dos dentis­tas, certamente que não vai deixar de lado os que sofrem de cárie dentária...

José dos Santos Passos interrompeu-o:

- Não tem lógica, a sua dedução, meu filho. Se São Lamberto é padroeiro dos dentis­tas, nunca pode ser, ao mesmo tempo, padroeiro dos sofredores, não é verdade? São interes­ses antagónicos. Se não houver quem sofra dos dentes, não são precisos dentistas para nada. Se São Lamberto é padroeiro dos dentistas, protege-os, nunca poderia proteger os que têm problemas dentários, pois se assim fosse estaria, naturalmente, a prejudicar os dentis­tas. E os santos podem ter os defeitos que quisermos, mas fazem da honestidade o seu pon­to de honra.

Naturalmente empolgado pelo seu discurso, José dos Santos Passos nem se apercebeu da barbarida­de que acabara de lhe sair pela boca fora. Os santos têm defeitos? E são santos? Valha-me Deus!

Adiante.

O senhor Salustiano, no entanto, não se dava por vencido:

- Então diga-me, padre, a que santo terei de recorrer para curar uma cárie dentária?

José dos Santos Passos estupeficou-se:

- ...Uma cárie dentária???

- Sim, padre. Uma cárie dentária. Sabe o que é isso, certamente.

- Claro que sei, se bem que não por experiência própria, graças a Deus. Mas nunca ouvi fa­lar nesse tipo de cura... sinceramente... Quer dizer: pôr paralíticos a andar, pôr cegos a ver, ainda vá que não vá; agora curar cáries dentárias... não me parece. Aliás, repare: só são considerados milagres os factos que a medicina não consegue explicar.

Fez uma muito curta pausa:

- Nunca nenhum santo era capaz de fazer concorrência à medicina convencional, veja lá se compreende! Se a medicina não sabe como curar, aí sim, entram os milagres em acção. Agora, havendo remédio terreno, para quê ir buscá-lo ao Céu?

O senhor Salustiano ainda ficou uns momentos a olhar, hesitante, para o padre. Depois, acabou por se despedir com duas decisões irrevogavelmente tomadas: a primeira, nunca mais pôr os pés na igreja e, pura e simplesmente, tornar-se ateu; a segunda, arrancar o maldito dente. Podia, até, arrancar os dentes todos. Tudo, menos a broca.

Hoje, o senhor Salustiano é proprietário de uma invejável placa dentária com a qual, nos tempos livres e quando está bem disposto, costuma tocar castanholas, batendo com a arcada in­ferior na superior.

Ou vice-versa...


In: "Enquanto As Armas Falavam", de José Carlos Moreira.

Editora "Lugar da Palavra".

2011-01-16

O CANDIDATO E O PRESIDENTE

No presente programa eleitoral, começa a desenhar-se, finalmente, um candidato com ideias concretas para Portugal. Um candidato que será, certamente, capaz de travar a sanha engolidora de rendimentos dos portugueses mais desfavorecidos. Refiro-me, naturalmente, ao candidato Cavaco Silva.
Citando de memória, e sem preocupações de ordem cronológica, o candidato Cavaco Silva mostrou-se agastado pelo facto de o Governo ter espoliado os cidadãos de mais baixos rendimentos, deixando praticamente incólumes os que auferem rendimentos principescos. O que só foi conseguido, naturalmente, com a assinatura do presidente Cavaco Silva. Também se mostrou inconformado com os cortes salariais sofridos pelos funcionários públicos. Esses cortes faziam parte do Orçamento de Estado/2011, que o presidente Cavaco Silva assinou. Pelos vistos, o candidato Cavaco Silva não assinaria, se fosse presidente. Ultimamente, o candidato Cavaco Silva afirmou que não quer o povo iludido por quem o governa. E eu tiro-lhe o meu chapéu! É assim que se fala, e quem fala assim não é gago. Porque tenho a firme certeza de que o candidato Cavaco Silva, se fosse presidente, não deixaria o governo iludir-nos durante tanto tempo. Aliás, o candidato Cavaco Silva tem deixado mensagens bem claras de discordância com muitas medidas governamentais, que o presidente Cavaco Silva deixou passar. E eu acho que, ao ouvir estas mensagens, o presidente Cavaco Silva deve corar de vergonha. Porque o candidato Cavaco Silva é frontal e directo nas críticas e, estou convencido, não deixaria o Governo governar (-se?) durante tanto tempo. O presidente Cavaco Silva devia rever-se nas posições do candidato que, certamente, lhe vai tirar o lugar. O presidente Cavaco Silva tem muito a aprender com o candidato Cavaco Silva.
Ainda bem. Ainda bem que o presidente Cavaco Silva vai deixar o poleiro, para ser substituído, no dia 23, pelo candidato Cavaco Silva.
Mas não com o meu voto.

NOTA: Qualquer semelhança com a rábula da "Olívia costureira e Olívia patroa", magistralmente interpretada pela saudosa Ivine Silva, é mer(d)a coincidência.

2011-01-10

ELEIÇÕES

O grande problema, nas próximas eleições, é que não iremos, certamente, votar no melhor candidadato; teremos de optar pelo menos mau. Porque a verdade é que em termos de soluções para o país, estamos conversados: ninguém as apresenta, porque ninguém as tem.O importante, neste momento, é descobrir os podres uns dos outros. Pelo que a campanha deixou de ser "eu prometo" e passou a ser "eu tenho menos podres". Verdadeiramente, já ninguém acredita em promessas. Porque nos prometeram leite e mel, e deram-nos água pútrida e fel, e eles sabem disso.

2011-01-03

VILLA JUANITA

O Grove é uma pequena vila piscatória beijada suavemente pelas mansas águas da Ria de Pontevedra. Do outro lado da artística ponte, encontramos a ilha dos cosméticos e das termas: La Toja a que os galegos teimam em chamar (e eu assino por baixo) A Toxa.
O Grove é uma vila calma. É a vila do Festival de Marisco (em Outubro, todos os anos). É a vila donde partem barcos com fundos transparentes, em belos passeios pela ria.
É a vila onde existem os "Hoteles Villa Juanita". Um de duas, outro de três estrelas.
Confesso que (ainda) não conheço o de três estrelas; conheço o de duas.
O "Villa Juanita" nasceu a partir da casa que se vê em baixo; primeiro, tipo tasca; depois, o comedor, e logo os quartos. Nos anos 80, tudo foi abaixo para dar lugar ao hotel.
Mas, o que tem de especial o Villa Juanita"? Nada. Comida de excelente qualidade, preços que são uma agradável surpresa mesmo em tempos de crise e... simpatia, simpatia a rodos. Ali, não nos sentimos num hotel, sentimos-nos
em casa de família. Ali não há o "Gerente do Hotel", há o José António. Que nos trata como se já nos conhecesse há anos. E a esposa, inexcedível em simpatia; e a irmã, que prepara uma "queimada galega" à maneira, acompanhando a preparação com o conjuro declinado a preceito e com convicção.
O serviço funciona! Sem ordens, sem
gestos, sem salamaleques. Funciona, ponto final. Fui lá na passagem do ano 2010/2011. Casa cheia. De vez em quando, prestando atenção, ouvia-se falar espanhol. Mas o idioma "oficial" era o português. Pessoas que se conheciam de outras idas ao "Villa Juanita". Eu confesso que já não ia há anos. A primeira vez, foi em 1996, também para passar o ano. Depois foi uma Páscoa, um "Festival do Marisco". Em todas as ocasiões, o serviço excelente, a simpatia, os preços modestos, mas onde o factor qualidade/preço atinge níveis inesperados. No bom sentido, naturalmente.
Como nós costumamos dizer, "eles estragam-nos, com mimos".
Tenho de lá voltar.
Brevemente. Muito brevemente.






CARTA A UM AGNÓSTICO

Caro Molochbal:

Tenho vindo a acompanhar, com crescente e cuidada atenção, os seus comentários, nomeadamente no que tange a sua posição agnóstica. E deixe-me dizer-lhe que, apesar de não ser a minha posição, considero a sua postura como inteligente, prudente e razoável, quase cartesiana. Com efeito uma posição de "talvez sim, talvez não", acaba por ser uma situação cómoda – e até permite exercícios de ironia como o que se pode ler. Na verdade, nada nos prova que Deus existe, do mesmo modo que nada nos prova o contrário, embora eu defenda (e não estou só) que a inexistência não carece de provas.

Gostaria, no entanto, se esta posição racional se refere, apenas, à existência de Deus, ou se também abrange outras entidades. Por exemplo, o Super-homem, o Pato Donald ou o Peter Pan, sem esquecer a Fada Sininho, cujas existências não estão comprovadas, mas também nada há que prove que não existem.

Concretamente, e porque faz parte das minhas preocupações, gostaria de saber qual a sua opinião relativamente à possibilidade de existência da dupla Astérix/Obélix que, como se sabe, até têm algumas semelhanças com Jeová. Por exemplo, há um livro que afirma a existência de Deus; é a Bíblia e, afinal, não é um livro, são cinco, o chamado Pentateuco, uma imitação revista e ampliada da "santíssima trindade", que são só três pessoas numa só. Ora, a existência da dupla terrível é demonstrada por TRINTA E CINCO livros (eu tenho a colecção completa) que,

naturalmente, são mais fiáveis do que, apenas, CINCO. Mas há mais: diz-se que "Deus está em toda a parte". Estará; mas olhe que Astérix e Obélix de certeza que já lá estiveram. No Egipto, na Grécia, na Hispânia, na Inglaterra, não quero ser exaustivo mas parece que não há canto nenhum do mundo (e só há quatro, como sabemos, basta conferir na Bíblia) onde a eficaz dupla ainda não tenha estado. Finalmente, e para ficarmos por aqui, em termos de similitudes, há quem afirme que "Deus é todo-poderoso". Não duvido, mas quem diz isso certamente nunca viu o Astérix encharcado em poção mágica preparada pelo druida Panoramix. Isto para já não falar no Obélix que, como toda a gente sabe, caiu no caldeirão da poção mágica quando era pequenino, e os efeitos são permanentes.

Ora, perante estes factos, não acha que é, no mínimo, um sinal de sensatez, pôr a existência de Astérix e Obélix no rol das dúvidas metódicas?