2010-10-31

SERÁ PARA O "GUINESS"?

Acabo de ter conhecimento, através da Televisão, que no Algarve se vai rezar ininterruptamente durante quinze dias, para que Deus desperte as vocações. Isto porque, alegadamente, não há padres que cheguem.
Analisemos:
Deus é omnisciente, de acordo com os crentes. Ora, assim sendo, Deus sabe que não há padres que cheguem para satisfazer as necessidades. As necessidades religiosas, naturalmente. Pois bem: se Deus sabe que não há padres suficientes e não desperta, por iniciativa própria, as vocações, ele lá sabe porquê. Isto porque, como é consabido, os desígnios de Deus são insondáveis. Logo, não me parece religiosamente correcto que alguém se arrogue o direito de lembrar Deus dos seus deveres. No mínimo, é um insulto, uma chamada de atenção, sabido que é que Deus, tal como o Papa, é infalível. Aliás, eu até acho que Deus não tem deveres. Deus é Deus, ponto final. Por outras palavras: orar para que Deus desperte as vocações, equivale a questionar Deus. E, ao que dizem, Deus não deve ser questionado.
A não ser... A não ser que alguém pretenda escrever o nome no Livro de Recordes do Guiness. Se assim for, já dá para entender. Confesso que não sei em quanto vai o recorde, mas QUINZE dias a rezar é obra!
Como estratégia de "marketing", confesso que não está mal...

2010-10-25

A IGREJA E O ORÇAMENTO

Com a devida vénia, transcrevo um comunicado da Associação Ateísta Portuguesa.

A Associação Ateísta Portuguesa (AAP), na sequência da separação constitucional do Estado e das Igrejas e na defesa da laicidade daí decorrente, nunca se conformou com os benefícios fiscais concedidos em 1990 à Igreja católica e a sua extensão em 2001 às instituições religiosas não católicas e às instituições particulares de solidariedade social (IPSS), instrumentos de poder e de financiamento habitualmente ao serviço das diversas confissões religiosas.

Perante a crise em curso, a proposta de Orçamento do Estado (OE) de 2011 pretende retirar – e bem – os benefícios fiscais, que jamais deviam ter sido concedidos, às instituições religiosas não católicas. O que deixa a AAP perplexa e indignada é que se mantenham ainda os benefícios fiscais que privilegiam a Igreja católica.

Mantendo esta situação injusta e injustificável, o Governo acrescenta à deplorável genuflexão perante a Igreja Católica a discriminação para com todas as outras confissões religiosas. A injustiça ganha agora geometria variável, com o Estado laico a usar poder discricionário a favor de uma das confissões que disputam o mercado da fé, sem respeitar dois princípios constitucionais: o da igualdade e o da separação entre o Estado e as Igrejas.

A AAP acompanha no espanto e indignação todas as confissões religiosas não católicas e comunidades religiosas radicadas no país, bem como os institutos de vida consagrada e outros institutos que a prevista revogação dos artigos 65º da Lei de Liberdade Religiosa e 2º do Decreto-Lei n.º 20/90 remete para uma situação de desigualdade. É inadmissível que a proposta do OE 2011, pedindo tantos sacrifícios a todos os portugueses, ainda assim mantenha o Estado obrigado «à restituição do imposto sobre o valor acrescentado correspondente às aquisições e importações efectuadas por instituições da Igreja Católica», para fins religiosos, ao abrigo do Artigo 1º do Decreto-Lei n.º 20/90, cirurgicamente preservado nesta proposta.

Assim, a AAP reivindica a revogação do Decreto-Lei nº 20/90, pondo fim aos benefícios fiscais concedidos à Igreja Católica e repondo a igualdade não só entre as confissões religiosas mas também a igualdade entre todos os cidadãos, sejam leigos ou padres, deixando aos crentes o ónus da sustentação do culto sem o fazer recair sobre todos os que não se revêem nessa religião: ateus, agnósticos, cépticos e crentes de outras religiões a quem não cabe custear o proselitismo da religião que se reclama dominante.

2010-10-19

O HOMEM SEM ROSTO


Quedava-se, sentado, no Rossio, exibindo a sua disforme cara e, confesso, o meu sentimento de piedade mesclava-se com alguma repugnância. Era horrendo, aquele rosto, digno dos mais cruéis filmes de terror.

Um médico decidiu operá-lo e devolver-lhe o rosto humano que sempre devia ter tido. A notícia apareceu “online”, e os comentadores não perderam tempo. Mas conseguiram esquecer-se de uma coisa: José Mestre já podia ter sido operado há mais tempo, se não fosse Testemunha de Jeová. Porque a operação implicava, inevitavelmente, transfusões de sangue, o que a bíblia não permite (confesso que ainda não consegui ver onde é que isso está escrito…).

O próprio articulista assobia para o lado, quando relata esta passagem. Por outras palavras: a fé de José Mestre em Jeová permitiu que a deformidade aumentasse de modo a obstruir-lhe a respiração e a quase impossibilitá-lo de comer. A morte era inevitável. Graças a Deus!

Em desespero de causa, e porque começasse a faltar-lhe o ar, José Mestre mandou Jeová às malvas e decidiu submeter-se à intervenção cirúrgica. Porque Jeová também tinha mandado José Mestre às malvas,quod erat demonstrandum. José Mestre está salvo. Graças à ciência! Donde se depreende que a Salvação está… na desobediência a Jeová.

Graças a Deus!

2010-09-27

OS ABUSADORES

Há dias, aguardava consulta num centro de saúde. A privacidade era garantida, de modo que consegui ouvir, do lado de dentro da porta do consultório, o médico que se exasperava com um doente:
- Oh homem! Mas eu ainda na semana passada lhe receitei uma embalagem de cem comprimidos, e você está a pedir-me mais uma receita??? Olhe que isto é para tomar UM por dia.
- O sr. Dr. compreende... - argumentava o paciente - como são de graça, a gente aproveita, não é verdade? A reforma não dá para comprar nada, e assim eu vou-me entretendo a tomar comprimidos. Antes isso do que andar na droga, não é verdade, senhor doutor?

Vim a ter conhecimento, depois, em conversa com o médico, que era verdade e recorrente. Velhotes com pensões de miséria, a quem o Estado - todos nós! - comparticipa na compra de medicamentos, abusavam. Abusavam descaradamente, consumindo medicamentos sem necessidade, e até aventou a hipótese de haver velhotes que vendiam esses medicamentos pela Internet, em unidose, numa descarada concorrência desleal às farmácias, esquecendo-se de que o país está em crise e que o dinheiro que vai para os medicamentos que eles tomam e/ou vendem abusivamente faz falta para TGV, fundações, pensões milionárias e carros topo de gama para altas figuras do Estado e de empresas públicas.
Felizmente que temos uma ministra da saúde que devia ser oftalmologista, a julgar pela visão que tem do país e do futuro. "Para acabar com os abusos", segundo disse, os velhotes vão passar a pagar 5% dos medicamentos. Ainda bem! Ainda bem que alguém tem coragem política de tomar uma medida impopular, certamente, mas altamente moralizadora.
"Para acabar com os abusos" disse ela. Plenamente convencida de que alguém acredita, certamente. Ou a julgar que somos estúpidos, o que já é grave.

2010-08-29

O PAPA REZA...

"Passeando" pelos jornais televisivos, deparo-me com a notícia, a correr em rodapé, de que "Bento XVI reza constantemente pelos mineiros do Chile (o sublinhado constantemente não é meu)".

Desde logo, não está provado que as rezas possam servir para alguma coisa. Se servissem, certamente que nada teria acontecido aos mineiros, pois as famílias também devem rezar constantemente para que nada lhes aconteça. Além disso, tudo quanto é gente está empenhada em tirar os mineiros da dramática situação em que se encontram. Fundamentalmente, estão empenhados em dar-lhes, enquanto durar esta situação, as melhores condições possíveis, evitando a entrada em depressão, tentando mantê-los ocupados, enfim, descrever as preocupações das diversas autoridades seria um exercício redundante, já que os leitores certamente acompanharão o desenrolar da situação. De qualquer modo, onde eu quero chegar é a este ponto: as autoridades não estão a procurar a solução do problema nas mãos de uma qualquer divindade. Ou seja, eles não confiam em deuses para resolver os problemas. Provavelmente confiaram, ao não acautelar as devidas condições de segurança (respiros com escadas, por exemplo); se o fizeram, o resultado está à vista. Depois, acresce outra questão: onde estava Deus quando se deu a derrocada?
Mas a questão principal até nem é essa. "Bento XVI reza constantemente pelos mineiros do Chile". Muito bem, se calhar é a sua obrigação. Mas, porquê a publicidade? Porquê a ânsia de protagonismo? Porquê a compulsiva atitude de se pôr em bicos de pés? Não foi Jesus que disse algo como "Mas, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita" (Mateus 6:3)?

2010-08-15

A VERDADE VEM SEMPRE...

Agora, que a poeira já assentou, já posso falar, desapaixonadamente, sobre o assunto.
Quando o processo "Freeport" foi dado por findo, José Sócrates veio a terreiro berrar que "a verdade vem sempre à tona, como o azeite". E houve muito quem aplaudisse.
José Sócrates (e quem o aplaudiu), nunca viu uma fossa séptica. Se tivesse visto, verificaria que nem só o azeite vem sempre à tona; a merda também. Pelo que a comparação peca por defeito.

2010-08-13

LUCUBRAÇÕES PROFUNDAS

Quando eu era (mais) novo, era recorrente ouvir a minha avó dizer "o dinheiro desaparece como a água". Analfabeta de nascença e por vocação, a minha avó não sabia que a água não desaparece. Foi na escola primária, ainda não havia novas oportunidades e, portanto, tive de frequentar a escola primária, que aprendi que a água não desaparece, ela muda é de lugar. Se não está aqui, estará nalgum sítio, mas não desapareceu. Vejam o que se passa na Rússia, a atravessar um período de seca sem memória, enquanto que ali perto, no Paquistão, na China e na Europa Central, a água provoca inundações. Não está na Rússia, onde faz tanta falta, está noutras paragens, onde cai em excesso.
Vem isto a propósito de uma notícia que passou na TV: a venda de casas de luxo está em alta. Isto quando a Europa se debate com uma crise sem precedentes. Então, como é? Há dinheiro, ou não há dinheiro?
A minha avó tinha razão: o dinheiro é como a água. Mas a comparação fica por aí. Porque, tal como a água, se não há dinheiro aqui, ele estará nalgum lugar. Se não está no meu bolso, está no bolso de alguém. Faz-me falta a mim, há em excesso algures.
Mas não desapareceu.
A água também não...

2010-08-03

PALÁCIO DA BREJOEIRA


Continuo a dizer que não há coisa mais bela e mais cómoda do que a preguiça.

É que ontem fomos até ao Palácio da Brejoeira, em Monção. E vocês nem imaginam a trabalheira que dava estar a escrever tudo acerca do Palácio. Vai daí, e em homenagem ao pecado, fiz "copy/paste" da "press release". Assunto resolvido. Ele aqui vai, com a devida vénia.

Também sinto o dever de informar que as fotos do filme abaixo são de autoria de Alfredo Cunha, Hugo Souto e Jorge Marçoa. Também há algumas minhas, que são fáceis de identificar: são as mais foleiras.

Quando puderem, façam um passeio até Monção e visitem o Palácio. E usufruam da beleza que é a área envolvente.

Ah: Para comer, escolham Valença ou Arcos de Valdevez, de acordo com o itinerário. Esqueçam Monção. Sobretudo, esqueçam o "7 à 7".




PALÁCIO DA BREJOEIRA



Palácio da Brejoeira abre ao público ao fim de dois séculos



Situado na freguesia de Pinheiros, concelho de Monção, classificado como Património Nacional desde 1910,

sendo propriedade privada, só agora decide abrir as suas portas a visitas, e partilhar toda a beleza e relíquias

escondidas, saciando todaacuriosidade de tantosquantospassavam do lado defora dosportões e o

admiravam.

Ex-líbris da região do Alto-Minho, é umagrandiosaconstrução em estiloneo-clássico, dos princípios do

século XIX. Casasenhorial,circundada de altosmuros, aogosto da época, comumfrondoso parque de

essências arbóreas centenárias e pouco vulgares. É um conjunto notável – Palácio, capela, bosque, jardins,

vinhas e adega antiga (onde hoje estagia a prestigiada Aguardente Velha) que seduzeencanta pela

harmonia que dele emana. Para dos seus jardins, cultivam-se com esmero 18 dos30hectares da

propriedade, com vinhadecasta Alvarinho queHermíniaPaes transformounum dosmais emblemáticos

vinhos da Sub-região de Monção.

Datada de 1806, o inicio da sua construção, a mando de um “rico morgado, fidalgo da Casa Real e cavaleiro

da Ordem de Cristo” de nome Luís Pereira Velho de Moscoso é concluída em 1834. Em 1908 e já na posse de

outro proprietário, conselheiro Pedro Maria da Fonseca Araújo, industrial e naalturaPresidente da

Associação de ComerciodoPorto, inicia obras derestauroe remodelação,edifica-se acapela palatina e o

teatro, revestem-se as paredes do átrio e escadaria de azulejos e no exterior reforma os jardins e o bosque

riquíssimo emespéciesexóticas, construindoaindaum belo lago. Em1937,Francisco de OliveiraPaes,

adquire para oferecer a sua filha e actual accionista maioritária, da Sociedade Anónima, que entretanto se

constituiu em Julho de 1999.

Palácio construídonaencantadora Quinta doValeda Rosa, actual QuintadaBrejoeira, com grandes e

luxuosos salões, imensa biblioteca, jardim de inverno, teatro, azulejos figurativos, pratas, loiças do oriente,

mobiliário de madre pérola e pau-preto, tudo aqui é palaciano e pode a partir de agora ser visitado.

Um espaço a conhecer, onde os visitantes vão poder dizer: “eu estive no Palácio da Brejoeira”!


“Não descendemos de sangue real, mas do nosso sangue descendem reis”


2010-08-02

UMA HISTÓRIA DE FICÇÃO

  1. Ambrósio e Briolanja, casaram-se. Foram morar para casa dela.
  2. Passado algum tempo, Ambrósio arranjou uma amante. Concomitantemente, começou a agredir Briolanja, com frequência.
  3. Briolanja foi aguentando, na doce ilusão de "salvar o casamento". Aliás, o padre tinha dito, na cerimónia de casamento, que era "até que a morte nos separe".
  4. Um dia, Briolanja decidiu que já chegava de tareia, e achou que a morte estava a demorar demasiado tempo. Ligou para a polícia, que levou o agressor e o apresentou em tribunal.
  5. O juiz determinou que o arguido ficasse em liberdade, a aguardar julgamento, mediante Termo de Identidade e Residência (T.I.R.). O art.º 196º do Código de Processo Penal reza assim, no seu nº. 2: "Se o arguido não dever ficar preso, do termo deve constar que àquele foi dado conhecimento da obrigação de comparecer perante a autoridade competente ou de se manter à disposição dela sempre que a lei o obrigar ou para tal for devidamente notificado, bem como da de não mudar de residência nem dela se ausentar por mais de cinco dias sem comunicar a nova residência ou o lugar onde possa ser encontrado (o sublinhado é meu).
  6. Para satisfazer as exigências do T.I.R., Ambrósio declinou a sua morada: a mesma de Briolanja, naturalmente.
  7. Briolanja teve de mudar de casa, já que não estava sujeita ao T.I.R. e não quis continuar a "apanhar".
N do A: Esta, é uma história da mais pura ficção, fruto da aliás fecunda imaginação do autor. Qualquer semelhança com o que se vai lendo nos jornais, ou seja, com a realidade, é mera coincidência.

2010-07-29

OS INCÊNDIOS SÃO FOGO!

A exemplo do que vai acontecendo todos os anos, Portugal está a arder. E se um cão morder um homem não é notícia, os incêndios florestais também não o deviam ser. Mas são.
Todos os anos, aí por alturas de Fevereiro/Março, os inteligentes deste país aparecem em tudo quanto é meio de comunicação social a berrar que Portugal está, este ano, preparado para combater, eficazmente, os fogos. E todos os anos, lá por volta de Outubro, aparecem os realistas a dizer que a área ardida é XPTO vezes superior à do ano passado, e que é preciso blábláblá.....
Quando em andava a aprender a ser polícia, uma das coisas que me ensinaram foi que, em caso de crime, se deve formular (entre outras, claro) esta pergunta: A quem interessa o crime? Logo que haja resposta a essa pergunta, teremos metade do caminho andado para a descoberta do autor do crime.
Todos os anos alguém berra que é preciso limpar as matas. Já sabemos. E alguém manda limpar? Provavelmente sim. E alguém limpa? Certamente, não. E acontece alguma coisa, em caso de desobediência? Provavelmente, o relapso paga uma coima. Mas como o relapso sabe fazer contas, chega à conclusão de que limpar a mata fica infinitamente mais caro do que pagar a coima. Que, provavelmente, não pagará. E se a mata arder, os bombeiros darão conta do recado. E os populares. Além disso, é preciso dar dinheiro a ganhar, que o Estado não tem dinheiro para umas coisas, mas tem para outras. Provavelmente, fica muito mais barato o Estado mandar limpar as matas do que pagar helicópteros ao minuto. Provavelmente...
Já agora: nos incêndios florestais, e para além dos suspeitos do costume, que são presos todos os anos (ninguém dá conta de que, depois, acabam por ser libertados por falta de provas ou, até, nem chegam a ser presentes a tribunal) para além destes, dizia eu, a quem interessa, realmente, o crime? A quem interessa que haja fogos florestais?