2011-05-28

ACHMED, O TERRORISTA MORTO

Suponho que já tem uns anos. Mas continua (cada vez mais?) actual.



CARIDADE, OU VAIDADE?

1 - Alguém, não sei quem, disse algo parecido com isto: "Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita" - isto relativamente a fazer o bem. Traduzido para português decente, os actos solidários (eu não gosto da palavra caridade, prefiro solidariedade) não devem ser exibicionistas. 
2 - Confesso-me um indefectível das novas tecnologias. Assunto que eu possa resolver sem levantar o cu da cadeira, é assunto arrumado. Meter o IRS, fazer uma compra, apresentar uma reclamação, são exemplos de assuntos que eu resolvo sem sair da frente do teclado. Foi, por isso, com enorme satisfação que soube que o Banco Alimentar Contra a Fome tinha criado uma página através da qual podíamos fazer as nossas doações - em géneros ou dinheiro. Mais um assunto que eu poderia, eventualmente, resolver sem sair de casa. Por isso, logo na primeira oportunidade fui espreitar a página onde as doações podem ser efectuadas online. Afinal,  fui encontrar uma feira de vaidades. Para além de constarem os nomes dos doadores, alguns há que, não contentes em ter lá o nome (parece que não há forma de o evitar, por motivos óbvios) não se dispensam de colocar a fotografia. Para que conste. Foi assim que fiquei a saber que a minha vizinha do 3º esquerdo, afinal não é nenhuma pelintra; ela também doou qualquer coisa ao Banco Alimentar. Está lá a fotografia dela.
Para que conste.
Por fim, parece-me haver alguma discriminação. Porque quem faz a doação online tem direito a um recibo para apresentar ao Fisco, para descontar no IRS - para além da publicidade; mas quem doa directamente, por exemplo num supermercado, não tem direito a nada: nem a nome, nem a fotografia, nem a benefícios fiscais.

2011-04-05

DEUS É GRANDE...

Vejo, na televisão, os avanços e recuos dos rebeldes na Líbia. Brega é um ponto estratégico, e todos a querem conquistar. De cada vez que os rebeldes avançam, fazendo recuar as tropas do exército de Khadafi, ouvem-se gritos "Allah u Akbar" (Deus é grande). Mas na reportagem seguinte, são os militares de Khadafi que avançam e fazem os rebeldes fugir. É a vez de as tropas governamentais berrarem "Allah u Akbar". De um lado e de outro os combatentes, quais piões, avançam e recuam, dando expressividade ao nome "peões de Brega".
As equipas de futebol entram em campo. A equipa visitante pisa o relvado, e alguns jogadores tocam a erva com a mão direita, e benzem-se - certamente pedindo a Deus uma vitória; depois, entra a equipa visitada, e o ritual repete-se - jogadores a tocarem a relva e a benzerem-se.
E eu pergunto, à moda de Richard Dawkins: afinal, de que lado está Deus?

2011-04-04

O MILAGRE

Até à náusea, a RTP vai repetindo a reportagem dos passageiros que chegaram a Lisboa, depois de terem apanhado um valente susto a bordo de um avião da TAP. E a reportagem abre com uma passageira a garantir que nunca sentiu medo, porque confiou em Deus que, por fim, acabou por fazer o milagre evitando o pior.
Note-se que não tenho qualquer razão para duvidar, nem das palavras da passageira nem do poder de Deus; mas pergunto se não seria mais fácil a Deus evitar a avaria do motor - como, aliás, faz com todos os aviões cujos motores não pegam fogo, graças a Deus. A minha mulher, católica, elucida-me que naquele tempo ainda não havia aviões e, portanto, Deus não sabia nada de engenharia aeronáutica - nem tinha obrigação de saber, principalmente agora, que a idade começa a pesar. Era uma altura em que o Sol andava à volta da Terra, e esta era plana e assente sobre pilares. Acabei por concordar com a aliás imbatível argumentação. Na verdade, lendo a bíblia não se vê qualquer referência a aviões... Adiante. Fico, pois, vencido e convencido de que a mão de Deus esteve no momento histórico da salvação dos passageiros do avião. E neste momento outra questão se levanta: de que está à espera, a TAP, para levantar um rigoroso inquérito à actuação do piloto e do co-piloto? Porque era a eles que competia levar o avião a bom porto - perdão, aeroporto - e, em vez de cumprirem o seu dever, demitiram-se das suas funções deixando nas mãos de Deus o que a eles competia em exclusivo - isto, claro, de acordo com a referida passageira, cujas palavras não me atrevo a por em dúvida.
Despedimento por incompetência, era o mínimo que lhes deveria acontecer. E a prová-lo, está o facto de a RTP não ter dedicado uma única palavra aos pilotos.

2011-03-28

OS MILAGRES (DESCONHECIDOS) DE JESUS

Que Jesus fez milagres, parece que ninguém tem dúvidas. E se as tem, melhor é que as desfaça. Mas há milagres que não constam dos evangelhos, como nos revela o Reverendo padre Rowan Atkinson. A ver, com muita atenção e devoção.

2011-03-14

ROUBADO AO "DIÁRIO ATEÍSTA"


Deus e Catástrofes

  Escrito por Luís Grave Rodrigues  | 

Tradução “livre” de um artigo de A. C. Grayling, publicado no site daRichard Dawkins Foundation.
É com tristeza que todos pensamos nas centenas de milhares de pessoas cujas vidas foram horrivelmente perdidas ou afectadas pelo terramoto e pelo tsunami do Japão, e que marcaram a negro os anais deste ano de 2011, e que vieram logo a seguir ao terramoto que atingiu Christchurch na Nova Zelândia.
Estes acontecimentos, que estão certamente ligados do ponto de vista tectónico, lembram-nos das vastas forças da natureza que, se são normais para o próprio planeta, são já prejudiciais para a vida humana, especialmente para aqueles que vivem perigosamente perto do quebra-cabeças que são as falhas da superfície terrestre.
Alguém me disse que na igreja da sua terra iria haver orações especiais pelas pessoas no Japão. Este comportamento bem-intencionado e fundamentalmente simpático mostra, no entanto, quão absurdas, no sentido literal do termo, são as práticas e as crenças religiosas.
Quando vi na televisão uma reportagem de pessoas a dirigirem-se para a igreja em Christchurch após o trágico terramoto, foram estes pensamentos que me assaltaram.
Não seria simpático da minha parte pensar que aqueles que foram à igreja o foram para dar graças por eles próprios terem escapado pessoalmente; não lhes quero imputar egoísmo e alívio pessoal no meio de um desastre no qual tantas pessoas arbitrária e subitamente perderam as suas vidas por causa de um “acto de Deus”.
Mas se essas pessoas foram rezar para que o seu deus olhe pelas almas daqueles que morreram, por que pensariam elas que esse deus o faria, uma vez que foi ele próprio quem causou, ou permitiu, que os seus corpos fossem súbita e violentamente esmagados ou afogados?
De facto, estariam elas a suplicar e a louvar uma divindade que idealizou um mundo onde existem tantas arbitrárias e súbitas mortes?
Um ser omnisciente conheceria bem todas as implicações daquilo que faz, e por isso saberia também que iria proporcionar estes acontecimentos e todas estas suas horríveis consequências.
Estariam elas a louvar o causador do seu sofrimento, pelo seu sofrimento, e também a suplicar a sua ajuda para escapar àquilo que ele próprio tinha planeado?
Talvez elas pensem que o seu deus não é o responsável pelo terramoto. Mas se elas acreditam que o seu deus idealizou um mundo no qual estas coisas acontecem, mas depois deixou esse mundo sozinho e não intervém mesmo quando ele se torna letal para as suas criaturas, então essas pessoas estão implicitamente a questionar a moralidade do seu carácter.
E se ele não é suficientemente poderoso para fazer alguma coisa sobre a criminosa indiferença do mundo para com os seres humanos, então em que sentido é ele deus?
Pelo contrário, ele parece ser um espírito impotente, para quem é inútil rezar e que é indigno de ser louvado.
Porque se ele não é capaz de impedir um terramoto ou salvar as suas vítimas, então não está qualificado para criar um mundo.
Mas se ele é poderoso o suficiente para ambas as coisas, mas ainda assim cria um mundo perigoso que inflige arbitrariamente sofrimentos violentos e agonizantes a criaturas racionais, então ele é perverso.
De qualquer modo, o que pensam as pessoas que acreditam em tal ser, e vão à igreja para o louvar e adorar?
Como, perante acontecimentos que a bondade e a preocupação humana consideram trágicos e que exigem ajuda – ajuda que são os próprios seres humanas que proporcionam aos seus semelhantes: nunca aparecem anjos vindos do céu para ajudar – podem as pessoas acreditar em tal incoerente ficção, como é a ideia desta divindade?
É este um enigma sem fim.

2011-02-25

A ORIGEM DOS SISMOS

Para quem tiver dúvidas...
Para quem não sabe francês:
"As relações sexuais ilícitas na origem dos tremores de terra?
O aumento das relações sexuais ilícitas é a causa do aumento dos tremores de terra, segundo o 'ayatolah' Kazem Sedighi, imã da oração de sexta-feira de Teerão.
«Muitas mulheres mal vestidas» (não respeitando a veste islâmica) «corrompem os jovens, e o aumento das relações sexuais ilícitas faz aumentar o número dos tremores de terra» declarou".

2011-02-15

AI, OS JORNAIS...

O jornal "Sol", na sua edição electrónica, noticia que o "menino multitransplantado" saiu dos cuidados intensivos.
Eu sei - ou julgo saber - que em jornalismo há uma certa "liberdade", em termos linguísticos, principalmente no que a títulos diz respeito; mas há exageros que se devem evitar, principalmente quando põem em causa princípios básicos da língua portuguesa. Que diabo, não temos dinheiro, a nossa soberania é aquilo que a União Europeia deixar, Cristiano Ronaldo e José Mourinho estão ao serviço de uma equipa estrangeira de futebol, o que é que nos resta? A língua portuguesa. E mesmo essa, sabe-se lá o que lhe vai acontecer, com o Acordo Ortográfico (AO).
(Já agora: se um dos objectivos do AO era eliminar as consoantes mudas, o que anda a fazer o H em Homem, Honra, Hora, etc?)
Voltando ao título: O menino não foi transplantado. Muito menos, foi multitransplantado. Ou seja, transplantado várias vezes, coitado do menino! Porque se o foi, o articulista deveria, em prol do rigor informativo, dizer donde foi transplantado, e para onde. Porque, tanto quanto sei, vários órgãos de um menino que morreu foram (os órgãos, atenção) transplantados para o menino que, agora, saiu dos cuidados intensivos. Ou seja, o menino, este, o que está vivo, foi alvo de, ou objecto de, ou sofreu, múltiplos transplantes.
Mas não me consta que tenha sido transplantado. Claro que posso ter andado distraído... Acontece aos grandes génios, por que não haveria de me acontecer a mim?

2011-02-05

A CÁRIE

O senhor Salustiano era um homem de fé. Lembrou-se de que S. Lamberto era o padroei­ro dos dentistas e, por analogia, entendeu ele, dos sofredores dentais. Por isso, saiu do consul­tório e atravessou a povoação em direcção à igreja onde, naquelas circunstâncias de tempo, já pontificava o nosso conhecido padre José dos Santos Passos, segundo o qual os santos são intermediários entre os homens e Deus. Entrou directo na sacristia. Tinha pressa, porque o remédio que o den­tista tinha colocado no dorido dente corria o risco de ficar fora de prazo em curto prazo.

O padre José dos Santos Passos lia o breviário, e mal se sobressaltou quando se deu a entrada, algo bu­liçosa, do senhor Salustiano:

- Boa tarde, caro paroquiano. É sempre um prazer vê-lo na Casa de Deus. Aliás, a si e a to­dos os paroquianos.

- Boa tarde, padre.

Durante o trajecto, o senhor Salustiano delineara uma espécie de estratégia. Santos são san­tos, têm o poder de interceder junto de Deus, mas não é menos verdade que o mortal não pode estar à espera das dádivas divinas sem que haja uma contrapartida. Não é por mero acaso que muitas pessoas palmilham os caminhos até aos santuários, onde depositam os ex-votos – normalmente sob a forma de dinheiro ou objectos valiosos. Por isso, o senhor Salustiano sabia perfeitamente que não podia esperar um milagre e, depois de concedido, ir todo contente para casa como se nada tivesse acontecido. Era o que faltava!

Estava disposto, assim o tinha decidido, a mandar pintar a igreja – aliás a precisar de pin­tura urgente. Bastava, apenas, que aquela cárie dentária desaparecesse por milagre.

- Diga-me, senhor padre: esta igreja tem alguma imagem de S. Lamberto?

José dos Santos Passos sentiu-se algo interdito. São Lamberto? Por que carga de água? Por acaso até nem era um santo com saída, o que estava a dar mais era os chamados “Santos Populares” ou, em alternativa, o S. Gregório, muito solicitado aos fins-de-semana, fora disso era mais santas, tipo Santa Filomena, Santa Maria Madalena... Agora São Lamberto???

- Por acaso não... temos muitas imagens, São Bento da Porta Aberta, São Teotónio, por exemplo...Mas porquê?

- Bom, é que São Lamberto é o padroeiro dos dentistas; ora, sendo padroeiro dos dentis­tas, certamente que não vai deixar de lado os que sofrem de cárie dentária...

José dos Santos Passos interrompeu-o:

- Não tem lógica, a sua dedução, meu filho. Se São Lamberto é padroeiro dos dentis­tas, nunca pode ser, ao mesmo tempo, padroeiro dos sofredores, não é verdade? São interes­ses antagónicos. Se não houver quem sofra dos dentes, não são precisos dentistas para nada. Se São Lamberto é padroeiro dos dentistas, protege-os, nunca poderia proteger os que têm problemas dentários, pois se assim fosse estaria, naturalmente, a prejudicar os dentis­tas. E os santos podem ter os defeitos que quisermos, mas fazem da honestidade o seu pon­to de honra.

Naturalmente empolgado pelo seu discurso, José dos Santos Passos nem se apercebeu da barbarida­de que acabara de lhe sair pela boca fora. Os santos têm defeitos? E são santos? Valha-me Deus!

Adiante.

O senhor Salustiano, no entanto, não se dava por vencido:

- Então diga-me, padre, a que santo terei de recorrer para curar uma cárie dentária?

José dos Santos Passos estupeficou-se:

- ...Uma cárie dentária???

- Sim, padre. Uma cárie dentária. Sabe o que é isso, certamente.

- Claro que sei, se bem que não por experiência própria, graças a Deus. Mas nunca ouvi fa­lar nesse tipo de cura... sinceramente... Quer dizer: pôr paralíticos a andar, pôr cegos a ver, ainda vá que não vá; agora curar cáries dentárias... não me parece. Aliás, repare: só são considerados milagres os factos que a medicina não consegue explicar.

Fez uma muito curta pausa:

- Nunca nenhum santo era capaz de fazer concorrência à medicina convencional, veja lá se compreende! Se a medicina não sabe como curar, aí sim, entram os milagres em acção. Agora, havendo remédio terreno, para quê ir buscá-lo ao Céu?

O senhor Salustiano ainda ficou uns momentos a olhar, hesitante, para o padre. Depois, acabou por se despedir com duas decisões irrevogavelmente tomadas: a primeira, nunca mais pôr os pés na igreja e, pura e simplesmente, tornar-se ateu; a segunda, arrancar o maldito dente. Podia, até, arrancar os dentes todos. Tudo, menos a broca.

Hoje, o senhor Salustiano é proprietário de uma invejável placa dentária com a qual, nos tempos livres e quando está bem disposto, costuma tocar castanholas, batendo com a arcada in­ferior na superior.

Ou vice-versa...


In: "Enquanto As Armas Falavam", de José Carlos Moreira.

Editora "Lugar da Palavra".