2013-07-11

O Francisco na tertúlia

Desta vez, a nossa tertúlia mensal só tinha quatro tertulianos, fosse devido a férias, fosse devido a outras razões sendo certo, porém, que entre quatro é mais fácil manter uma conversa do que entre dez ou doze. E a conversa ia decorrendo calmamente, ao compasso das mastigações e deglutições quando, sem que eu me tenha apercebido bem como e porquê, o papa Francisco aparece na mesa, convocado por um companheiro de anteriores lides e actuais lazeres. Que, sim senhores, era, talvez, o melhor papa dos últimos anos, estava a fazer uma limpeza nunca vista no Vaticano, e com tal entusiasmo falava o Alfredo, que me senti na obrigação de o moderar um pouco, não fosse o músculo cardíaco ressentir-se, calma, Fredo, olha que o homem está sujeito a seguir o caminho de João Paulo I, no que fui secundado pelo companheiro à minha direita, ex-seminarista convicto e anti-clerical assumido, está bem, voltava o Fredo, mas olha que é preciso tê-los no sítio, o entusiasmo não acalmava, olha que foi o único que foi a Lampedusa...
- Fazer o quê? - não me contive.
- Olha, pá, foi dar apoio àqueles desgraçados...
Interrompi-o novamente:
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- Resolveu-lhes algum problema?
- Não mas, pelo menos, alertou o mundo...
- Porquê, o mundo não sabe o que se passa? Achas que a visita do Francisco vai resolver o problema da fome nos países africanos? Não vai, nem isso convém, porque quando deixasse de haver fome no mundo, a ICAR fechava por falta de clientela..
A meu lado, o ex-seminarista abanava afirmativamente a cabeça, impedido de falar pela educação,  não se fala com a boca cheia.
Já com o entusiasmo mitigado, Alfredo ainda insistiu:
- Pois, mas pelo menos foi lá, os outros não foram.
- Está bem, mas foi lá fazer alguma coisa de jeito? Se não foi lá fazer o quê?
Decidi abarbatar-me ao entusiasmo que o Fredo ia dispensando:
- O que o papa fez foi a mesma coisa que fazem milhares de crentes quando rezam: nada! O papa não fez nada, para além da promoção pessoal. Continuará a haver, todos os dias, desgraçados que chegarão a Lampeduza, e não só. Há tempos, numa excursão a Marrocos, ainda em Ceuta, foi encontrado um marroquino sabes onde? Pois num curto espaço existente no motor. O problema dos desgraçados que vão chegando, e não nos esqueçamos dos que se ficam pelas águas, não é religioso, é político. Aliás, duvido de que a religião alguma vez tenha resolvido outros problemas que não os seus; mas conheço muitos problemas criados pelas mesmas religiões.
O Fredo não contra-argumentou, e não sei se foi por não ter argumentos, se achou que nem valia a pena passar-me cartão, ou se também estava com a boca cheia.
Francisco acabou por sair como tinha entrado.

2013-06-18

Greve aos exames

Não sei o que dizer da greve dos professores... Mas sei que tem desencadeado ódios e afectos. De um lado, os que berram que os alunos é que são prejudicados, porque se prepararam, sem cuidarem de saber que o que aprenderam permanece. Ou seja, se os exames forem adiados, o saber mantém-se - a menos que alguém faça uma formatação. Também é verdade que os alunos não têm culpa de que PPC y sus muchachos tivessem decidido pôs os funcionários públicos abaixo de cão, e refiro-me ao vulgar cão vadio, que os outros são mais bem tratados. Ou seja, os alunos não deviam ser prejudicados pela greve. Pois é, mas nas greves dos transportes os utentes, que até já compraram o passe, também são prejudicados, e ninguém diz nada. Tal como os doentes, nas greves dos médicos. Aliás, peço que me indiquem quais são as greves em que o patronato é REALMENTE prejudicado. Talvez as greves do Pingo Doce, ou do Continente... Mas aí não há greves. Adiante.
Bem ou mal, os professores estão a lutar por direitos que foram conquistados ao longo de décadas; e o mesmo devia ser feito por toda a função pública que, no entanto, se limita a baixar a cerviz e a aguardar, com a paciência do boi que vai para o matadouro, que o cutelo lhe caia na cabeça.
Pedro Passos Coelho não gosta dos funcionários públicos. Aliás, ele mesmo o disse, sub-liminarmente, quando foi questionado: "Eu não sou funcionário público", afirmou em plena Assembleia da República.
Não sei se os professores têm razão; mas sei que o Governo se tem posto a jeito para que, numa atitude primária, eu esteja solidário com eles.

2013-02-05

Etiquetas

Faça a experiência. Entre numa loja de roupas, e escolha uma peça. Pode ser à sorte. Pegue na peça, como se estivesse interessado/a, e procure a etiqueta que, normalmente, acompanha as peças desde a origem. Essa etiqueta é cosida à peça e, normalmente, contém: composição (x de lã, y de elastano, por exemplo), instruções de lavagem e "Made in...".
Observe bem. Não encontra o "Made in"? Verifique se, por acaso, a etiqueta não apresenta sinais de ter sido cortada. Se não encontra a parte que diz "Made in", é porque foi cortada. E foi cortada, porquê? Ora, porque, naturalmente, era "Made in... China".
Ai você é dequeles/as que garantem nunca comprar nada nas lojas chinesas? Tudo bem, até pode nunca ter entrado numa loja chinesa; mas nunca garanta que nunca comprou "Made in China".
É verdade. Há casas de moda, bem portuguesas, que se abastecem na "Chinatown", cortam as etiquetas de origem, e aplicam etiquetas "da casa". Obviamente, compram por preços "Made in China" e vendem por preços "Made in Portugal".
Notem: não é boato; tive o cuidado de confirmar. Ou então, expliquem-me por que razão as etiquetas são cortadas (na loja, "explicaram-me" que a peça já vinha assim do armazenista. Não tive contra-argumentos).
Quem disse que os portugas não são espertos?

2013-01-31

Corrupção?????

A comunicação social refere Mariano Rajoy como estando envolvido num caso de corrupção.
Façam-se um favor: falem-me de padres corruptos, de polícias corruptos, de médicos corruptos enfim, falem do que quiserem corrupto. Mas, por favor: não me falem de políticos corruptos.
Detesto pleonasmos.

2013-01-05

Um caso de bur(r)ocracia

Fatiade Salame é um nome fictício, que atribuo a uma pessoa que existe mesmo. Conheço-a e trato-a por tu.
Veio da Guiné-Bissau com um passaporte no bolso e um sonho na mente: aliviar a  miséria em que se encontrava.
Fatiade Salame encontrou emprego na construção civil, onde se afincou durante uma temporada. Depois, a firma viu-se na contingência de dispensar pessoal. Fatiade Salame foi dos primeiros a ser dispensado, por ser dos mais modernos. De repente, Fatade Salame viu-se na rua, sem direito a subsídio de desemprego, por o patrão não ter procedido aos devidos descontos. No bolso, continuava o passaporte, já devidamente caducado.
Fatiade Salame começou a sobreviver graças à solidariedade que é paradigma das gentes africanas. Mas continuou a procurar emprego.
Um dia, teve um mau encontro com a Polícia de Segurança Pública que, numa acção de rotina, verificou que Fatiade se encontrava em situação ilegal. Remeteu-se o caso para o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) que advertiu Fatiade Salame: tinha de arranjar emprego, não podia continuar naquela situação. Mas não é fácil arranjar emprego quando alguém se encontra em situação ilegal: "Vá ao SEF pedir uma autorização de residência, só assim lhe posso dar emprego. Empregar ilegais é punível por lei". Fatiade foi ao SEF: "Arranje emprego, que nós damos-lhe a autorização de residência". Cena que se repete com frequência.
Não é estória, é verdade. Fatiade Salame sente-se uma bola de ténis, a levar pancada nos dois lados da rede. Sobrevive a expensas de uma irmã, que ganha menos que o ordenado mínimo (sim, isso é possível) e que tem quatro filhos a quem dar de comer.
Portugal, século XXI, com burocracia do século XIX. Troca de símbolos, apenas...

2012-12-04

Sorria.Está a ser filmado/a

A comunicação social anuncia que o Governo vai obrigar certos estabelecimentos - designadamente farmácias, ourivesarias e postos de abastecimento de combustível - a dotar as suas superfícies comerciais com câmaras de vigilância. Parece que esta medida só se aplicará aos estabelecimentos que abram futuramente, pelo que se prevê uma corrida aos dispositivos de vigilância, graças à enorme expansão da nossa economia.
Parece-me acertada, esta medida. Pelo menos, os telespectadores deixarão de ser, diariamente, confrontados com a pasmaceira pachorrenta dos discursos do Gaspar, e passarão a verificar como é que os assaltos são realizados. Sempre é outra diversão, muito mais apelativa. Mas para ter êxito, esta medida deve ser acompanhada por outra: a de proibir terminantemente os assaltantes de usarem gorros,  capacetes, capuzes, óculos de sol, máscaras, e outras aldrabices que não permitam que sejam identificados. Quem o fizer é bom que pague uma multa, convertida em prisão.
Finalmente, era conveniente que a futura Lei indicasse claramente qual a marca de câmaras de vigilância a instalar. Se possível, por ajuste directo. Para evitar eventuais concorrentes...

2012-12-02

O feriado do 1º

Desde que me lembro o 1º de Dezembro sempre foi feriado. É um feriado histórico, que faz parte da nossa memória colectiva. E que até poderia ser aproveitado, futuramente, para a realização de eleições, fossem elas de que cariz fossem, já que dificilmente o Zé Povo vai à praia, neste dia. Comemora (eu prefiro bebemorar, mas há gostos para tudo) o dia em que nos livrámos do jugo espanhol, embora ainda haja (?) quem ache que estaríamos melhor se o 1640 não tivesse acontecido. Opiniões...
Mas os tempos mudaram. E a troica (um conjunto de três carteiristas, chama-se terno, trio ou trempe; troica, é a primeira vez  que ouço) achou que os portugueses não passavam de uma cambada de madraços, que o que precisavam era de trabalhar. Vai daí, há que cortar os feriados que, juntamente com os domingos, são os dias em que não se faz a ponta de um corno. Fora os outros, claro.
Ora, o nosso católico governo não esteve com meias-medidas; provavelmente para não chatear "nuestros hermanos", com quem a gente se dá bem, eliminaram o feriado . em que se comemorava o dia em que nos vimos livres deles. E não mexeram no 25 de Abril!!!
Não concordo. O dias 25 de Abril faz, a cada dia que passa, menos e menos sentido. Não tem razão de existir, como feriado. Exemplos? O 25/4 veio para acabar com desigualdades; no entanto, há presos que se dão ao luxo de escolherem a prisão para onde querem ir, devido à "falta de condições"; tem direito à justiça, à saúde,ao ensino, quem tiver dinheiro; os outros, que se amanhem.
A Constituição saída   do 25/4 previa saúde universal e gratuita; depois, passou a tendencialmente gratuita; agora, é (bem) paga, e quanto a universal... estamos conversados. Ou tens dinheiro e vais para um hospital privado, ou contentas-te com a doença. O ensino segue o mesmo caminho. A liberdade de imprensa... bem, o melhor é acautelarem-se. As eleições democráticas... Espera aí: quando a maioria dos votantes não põe os pés nas assembleias de voto, isso são eleições democráticas? Quando eu não escolho os meus representantes (vota-se nos partidos, e não nas pessoas) isso é democracia? Quando o presidente da República é eleito por uma minoria que resolveu ir às urnas, é o "presidente de todos os portugueses"? Quando só falta voltar a (re)criar a Legião Portuguesa para dar sopa aos desvalidos, isso é democracia? Quando a Igreja exige a manutenção dos "seus" feriados, quando o Estado paga vencimentos a capelães, seja nos hospitais seja nas prisões - para além de outras exigências - isso é democracia? Quando o Estado (todos nós) compra um banco falido, isso é democracia? Quando os verdadeiros responsáveis pelo estado a que Portugal chegou se passeiam impunemente e não são chamados à responsabilidade, isso é democracia?
As esperanças que brotaram no 25 de Abril morreram todas. os sucessivos governos foram-se encarregando de as matar, enquanto alguns bandulhos se foram enchendo. Houve um governante que, num raro momento de lucidez, entendeu que o 25 de Abril não foi revolução, foi evolução. Ele lá sabia o que estava a dizer.
Comemorar o quê, em 25 de Abril?

2012-10-12

Estamos salvos!!!

Estamos salvos!!!
Finalmente.

Segundo o mui católico Jornal de Notícias", uma catrefada de gente vai até Fátima pedir à respectiva senhora para ajudar o país.
Desde logo, se levanta a questão: só agora??? Só agora, que o Gaspar y sus mucha
chos nos foram ao bolso, eu ia dizer que nos tinham ido a outro sítio, mas contive-me, no fim de contas o assunto é religioso, nada de pornografias, dizia eu que só agora é que se lembraram de pedir ajuda????
Claro que isto levanta uma série de questões. Assim: a dita "rainha de Portugal" não sabe o que se passa no seu reino? Será que é uma figura decorativa, como alguns presidentes da república que eu conheço? Então, se a gaja não manda nada, vão pedir para quê? E é preciso ir a Fátima? É só lá que a senhora atende? Está muito atrasada, a rapariga. A Maya já dá consultas pelo telefone e pela TV.
De qualquer modo, estou convencido de que, finalmente, o país vai ter rumo. Com a senhora a orientar o gado, tudo vai ficar nos conformes: o IRS vai desaparecer, vão ser atribuídos 16 meses de vencimento, o combustível vai ficar mais barato que a água da torneira, e eu sou o coelhinho da Páscoa. Só se lamenta é que os governos, o do Sócrates e o do Passos, não se tenham lembrado de ir fazer uma peregrinações a Fátima, em vez de andarem a pedir caguinhas à troica. No fim de contas, a roupa suja sempre era lavada em casa, e a senhora Merkel ficava sem saber da nossa vida. Uma data de ateus, é o que eles são!
Pronto, vou já tratar de mudar de carro, que isto de rezar resulta sempre.
Ai não, que não resulta. Eu até ia mais longe, e punha aquela gente toda no governo da nação. Religiosos em vez de políticos, é só a experiência que nos falta. Sim, porque pelos vistos, aquela gente da Opus Dei também não merece nenhuma consideração do Altíssimo. Nem os da Maçonaria, aliás. Gente de devoção mariana é que nos interessa.
Ave Maria...

2012-10-11

Apelo patriótico

Caros leitores, amigos ou nem por isso: o País está em crise, debate-se com dificuldades que todos conhecemos. Cabe-nos a nós, portugueses, contribuir para que Portugal volte a ser um país onde os governantes possam continuar a gastar à tripa-forra. Vejam o exemplo que nos é dado pela bancada parlamentar do Partido Socialista. Assim, sim! Nada de Bentelys, Aston-Martins ou Rolls-Royces. Nada! Só carrinhos utilitários.
São estes gajos que se assumem como "alternativa". Olha a novidade! Como se nós não soubéssemos.
Por isso, meus caros, nem vale a pena. Estes ou os outros, a diferença está nas moscas. A nossa desgraça é que não se vislumbra ninguém capaz de pôr ordem no país. Uns fanam, outros gamam.
No fim, quando o Povo já não puder mais, há sempre um país de sonho à espera. Paris, Bruxelas, ou um Alto Comissariado qualquer. Se não houver, inventa-se.

2012-08-22

A polémica dos cartões

O grupo Jerónimo Martins (Pingo Doce) decidiu só aceitar o pagamento por cartões de débito para importâncias superiores a 20,00€, e o grupo Auchan (Jumbo) resolveu seguir os mesmos passos. Logo se levantaram vozes revoltadas, aqui d'el-rei que está ameaçada a segurança dos consumidores.
Vamos por partes.
Antes de mais, é consabido que a Banca mama em tudo quanto é teta. E quando não há teta para mamar, inventa-a. E os jornais dão-nos conta de que as comissões cobradas pela pagamento com cartão são exagerados. A Unicre vem alegar que as comissões estão em conformidade com os padrões europeus, mas a verdade é que esta gentalha só faz comparações com os padrões europeus quando se trata de mamar; porque quando de trata de pagar ao trabalhador, esquecem-se dos padrões europeus.
Adiante.
Ameaçada a "segurança dos consumidores"?? Porquê? Porque são obrigados a transportar valores, em dinheiro, inferiores a 20,00 euros? E o que é que se compra, hoje, com menos de 20 euros? Uma garrafa de águas? Um pão "bijou"? Alguém gasta só 20 euros ao fazer as compras para o mês? E onde é que está a "ameaça à segurança" quando se transportam 20 euros?
Alega-se, também, que vai contra a comodidade dos consumidores... Por favor, não brinquem com a minha inteligência, que ela é tão pequenina... Está ameaçada, sim, a comodidade dos operadores de caixa, que vão ter que se desunhar para arranjar trocos para as notas de 20 euros. E lá vamos nós voltar a ouvir a cantilena "Fico-lhe a dever um cêntimo, tá beinhe?" porque os preços acabam, quase todos, em ,99 €,
Não é a segurança, nem a comodidade dos consumidores, que estão ameaçadas; é a bolsa, porra!

2012-08-16

Estatísticas

Sou um apreciador de estatísticas. Entre outras coisas, porque permitem fazer, com elas, o que quisermos. Por exemplo, manipular a opinião pública e atirar areia para os olhos dos idiotas.
Desde há uns anos que os sucessivos governos, curiosamente pertencentes à mesma área partidária, vêm fazendo crer, à população em geral, que os funcionários públicos são os mamões desta paróquia chamada Portugal. Crença que, naturalmente, desencadeia animosidade. Não é raro ouvir-se dizer, por exemplo, que os funcionários públicos têm a garantia de não irem para o desemprego. Não têm. Com a agravante de que quando vão, são os únicos que não recebem indemnização. Nem têm direito ao Fundo de Desemprego. E são os únicos que pagam ao patrão, para trabalhar.
A comunicação social tinha obrigação de elucidar a opinião pública. Mas, por razões que ,me escapam completamente, não o fazem. Porque não querem. Pelo contrário, tentam envenenar a opinião pública, como se pode ver aqui, aqui e aqui.
Meus amigos, eu também sei fabricar estatísticas. Querem ver como? É simples. Vamos supor que você é porteiro numa empresa privada, e ganha 480 euros; o presidente do conselho de administração dessa empresa, ganha,,, 20.000 euros por mês. Feitas as contas, o porteiro ganha, em média, 10.480 euros. O que até nem é mau, para um porteiro.
São essas contas que o povão é levado a fazer, basta ler os comentários às notícias. Cautelosamente, omite-se que há muitos funcionários públicos a ganhar pouco mais do que o ordenado mínimo.
Um bocadinho de honestidade intelectual, não ficava nada mal.

2012-08-08

A factura

O Governo decidiu que todos os utentes do Serviço Nacional de Saúde (SNS) devem receber uma factura virtual de cada vez que se dirijam a uma urgência hospitalar. Mais tarde, essa factura incidirá, também, sobre os internamentos. Pretende, o Governo, alertar para os custos do SNS.
Julgo que, aos poucos, o Governo de PPC está a rasgar a Constituição. A qual refere ter, o cidadão, direito a um serviço nacional de saúde universal e tendencialmente gratuíto. Já agora, não esqueçamos que o tendencialmente só começou a fazer parte da Constituição há relativamente pouco tempo. Adiante.
Por isso, acho uma pieguice governamental esta coisa de estar a queixar-se dos gastos com os desgraçados que vão à urgência. Já agora: aqui há dias, uma pessoa da minha família dirigiu-se a uma urgência hospitalar, por receio de uma infecção generalizada (felizmente, não se confirmou). O médico observou-a, e mandou-a para casa aconselhando-a a continuar a medicação. Apenas. Lá se foram 20 euros, e eu pergunto: que tipo de factura passariam, se já estivesse em vigor no país?
Quanto aos internamentos: se o médico me mandar internar, logicamente haverá despesa. E depois? Será que sou internado de livre vontade? O hospital tem gastos? Pois tem, mas o Governo tem os meus impostos, que são para isso mesmo. Está bem, já sei que os impostos também têm de alimentar as Parcerias Publico-Privadas, e as rendas à EDP, Petrogal, etc. Mas não fui eu que assinei esses acordos.

Pensando bem...
Pensando bem, até talvez não seja má ideia, essa da factura piegas. Estou convencido - e isto a julgar pelos comentários que vejo na TV (curiosamente, não vi comentários contra, mas devo andar distraído) de que a ideia é boa. As pessoas olham para a factura, e pensam duas vezes antes de voltar ao hospital, sabendo das dificuldades que o país - perdão, a maioria dos habitantes - atravessa. Ora, sendo assim, talvez fosse boa ideia alargar a iniciativa. Por exemplo, os alunos das escolas públicas ficariam a saber quanto é que o ministério gasta com eles, e pensariam duas vezes antes de voltar à escola. As vítimas de crimes pensariam duas vezes antes de irem à polícia queixar-se de terem levado um tareão e, ainda por cima, terem ficado sem a carteira, o dinheiro, os cartões e o telemóvel. Finalmente, podia-se apresentar uma factura desse tipo aos que acabassem de cumprir pena de prisão.Ou aos que saíssem em precária.Estou convicto de que pensariam duas vezes antes de voltar para trás das grades.

2012-07-30

A senhora ministra confessou-se...


Eu já andava desconfiado. A sério. Depois de ter proclamado a sua fé, a senhora ministra remeteu-se ao recolhimento esperando, talvez, que a chuva viesse. Porque a fé sempre há-de valer para alguma coisa, não é verdade? Mas o raio da chuva não veio e a senhora ministra resolveu mudar de tática, porque, certamente, alguém lá em cima não acreditou na fé da senhora ministra. Assim, e para que não restassem dúvidas, proclamou urbi et orbi que está na política porque é cristã.
Pois.
A mudança de tática é compreensível, não vá dar-se o caso de alguém, lá em cima, ter lido a Constituição da República Portuguesa e ter concluído - erradamente, claro - que estávamos num país laico. Ora, a assim ser, o S. Pedro, que é o que manda nestas coisas da chuva e do bom tempo, deve ter-se sentido desobrigado de molhar o país (se calhar, entendeu que não seria necessário, dado isto estar a meter água por tudo quanto é sítio, mas isto sou eu a pensar...), já que aquela declaração de fé pode ter cheirado a discurso político. E nós sabemos que os políticos, enquanto tais, são sérios candidatos a uma estada no Inferno. O que lhes vai valendo ainda são essas coisas da religião.
Mas não. A senhora ministra reiterou as suas convicções fortemente católicas, pelo que a sua situação é mais de apostolado do que de ministério. Ou então, é de ministério da Igreja, e assim já se compreende.
Por isso, S. Pedro, podes mandar água à vontade. Mas não muita, que isto já está a afundar-se...

Em simultâneo no "Diário de uns Ateus"

2012-07-27

Perguntem ao Povo

Face às notícias que davam conta de uma descida drástica do número de consultas médicas, o sr. bastonário da Ordem dos Médicos (OM) mostrou-se muito preocupado. E eu comovi-me, com essa preocupação. Mas o sr. bastonário não se ficou pela mera preocupação: foi mais longe, e disse que vai exigir, do Governo, uma auditoria para se conhecerem as razões dessa diminuição. Trata-se, pois, de um excelente exercício de hipocrisia demagógica; mas admito estar enganado e ser, afinal, um exercício de demagogia hipócrita. Se assim for, peço desculpas, desde já.
Numa altura em que o país se afunda, diariamente, numa crise que o Povo não provocou mas paga, enquanto os que a provocaram não pagam, ainda há lata para exigir... uma auditoria. Gastar dinheiro para quê, se toda a gente - o Povo! - sabe das razões? Deixem-se de auditorias, que acabam por encher os bolsos a alguns, e perguntem ao Povo. As auditorias são como as comissões parlamentares: ainda hoje ninguém descobriu para que servem. Os parlamentares sabem, mas não dizem à gente...
Perguntem ao Povo, senhores! O Povo vos dirá que não vai às consultas porque não tem dinheiro para comprar pão, quanto mais para pagar as consultas! Sim, porque as taxas moderadoras são uma forma encapotrada de pagar os actos médicos.
Há dias, fui ao Centro de Saúde e pedi à funcionária que fizesse chegar, ao meu médico de família, uns exames. Não vi o médico, não falei com ele nem sequer pelo telefone, mas paguei como se tivesse feito uma consulta.
Deixem-se de hipocrisias! Entre comprar comida para os filhos ou pagar a vergonhosa taxa moderadora, o Povo escolhe a primeira hipótese. O Povo não tem mais saúde, não senhores: está mais doente mas, também, mais faminto.
Ganhem vergonha! Perguntem ao Povo.

2012-07-25

Ai, os subsídios

De vez em quando, lá me aparece, na caixa do correio, uma mensagem escandalizada porque um novo funcionário público tomou posse e, no respectivo despacho, vê-se-lhe ser atribuídos os subsídios de Natal e de Férias, que os mensageiros acusam de estar encapotados pelo termo "abono suplementar". O mais grave é que alguns destes mensageiros (leia-se remetentes das mensagens) são funcionários públicos - em actividade, ou aposentados.
Vou tentar explicar: os funcionários públicos não recebem subsídios. Os subsídios são, por exemplo, para os agricultores, quando os incêndios, as cheias ou as secas lhes dão cabo dos produtos agrícolas; os funcionários públicos são gente fina e recebem abonos suplementares. Do mesmo modo, não há registo de funcionários públicos reformados; reformados, são os simples mortais. Os funcionários públicos são aposentados e, em certos casos, até podem ser jubilados. Reformados, nunca!
Posto isto, vamos aos abonos suplementares. Eles são atribuídos por lei, quer na função pública quer no sector privado. Se a lei diz que o funcionário público tem direito ao abono, e se nenhuma lei posterior diz que esse abono foi eliminado, então, parece que o direito subsiste. E tem de constar do despacho de nomeação. É lógico. Se, depois, aparece outra lei a dizer que os abonos são suspensos, o que é diferente de eliminados, a conversa é outra. Mas o direito mantém-se.
Vamos, agora, fazer o filme ao contrário. Vamos supor, para fazer a vontade aos escandalizados mensageiros, que o despacho de nomeação não incluía os referidos abonos. E vamos supor, por hipótese académica - e completamente absurda, mas tem que ser, para o exercício de raciocínio que pretendo fazer - que daqui a uns anos os abonos eram devolvidos. O que aconteceria ao tal funcionário público nomeado nestas condições? É simples. Não recebia o abono, porque a ele não tinha direito.
Perceberam?

2012-07-22

O novo "milagre" da multiplicação

Enquanto o café arrefecia na chávena, o meu amigo Adalbataberto vociferava, batendo com o indicador no já datado "Jornal de Notícias" (JN):
- Mas tu já viste isto? Já leste bem a notícia?
A notícia, publicada ao fundo da página 20 do JN do dia 19 de Julho, não me pareceu assim muito transcendente. Passei-lhe os olhos:
- Pronto. "Artesãos trabalham a favor de bombeiros".E depois?
- "Depois?!" perguntou o Adalbataberto, mexendo furiosamente o café, na tentativa, já inglória, de dissolver o açúcar -. Isso quer dizer que não leste bem. Mas eu elucido-te - acrescentou com uma ponta de ironia. E prosseguiu:
- Para já, começa por dizer que "Os Bombeiros Voluntários do Porto e de Coimbrões" vão poder juntar 20.800 euros por ano com as receitas dos "Sábados Solidários". Ora, como no Porto há duas corporações de bombeiros voluntários, isso quer dizer que os "Portuenses" não recebem a ponta de um corno.
Ignorando a grosseira observação, argumentei:
- Calma. A notícia não diz qual corporação vai abichar essa guita toda. Pode ser que sejam as duas...
Adalbataberto nem me deu tempo:
- As duas?!. Tu estás bom, ou deixaste de saber ler? Queres ver que te licenciaste como o outro? Bombeiros Voluntários do Porto não está escrita com minúsculas. É com maiúsculas, pá! Sabes o que isso quer dizer? Se estivesse escrito com minúsculas significaria que eram todos os bombeiros voluntários; com maiúsculas significa que são aqueles, e mais nenhuns. É nome próprio, percebeste?
Não discuti, até porque o Adalbataberto percebe de português como poucos. mas o meu amigo não me dava tréguas:
- E leste quem é que vai proporcionar essa receita?
- Li, claro. É a Associação de Bares da Zona Histórica do Porto (ABZHP) - respondi, tendo o cuidado de  acentuar as maiúsculas, não fosse o Adalbataberto querer dar-me outra lição de português.
- Pois. E o que é que a ABZHP tem a ver com o artesanato?
- Boa pergunta! Não sei - confessei.
- Pois não - Adalbataberto estava eufórico. - Não sabes tu, nem sabe ninguém.
- Calma aí - decidi passar ao ataque. - Sabes lá se não vão vender bebidas artesanais? Tipo vinho a martelo, champanhe do Cartaxo, rum das Berlengas... De qualquer modo, dado que é uma iniciativa de uma associação, certamente foi votada em assembleia geral...
- Não brinques, pá! Qual assembleia geral? Tentei falar com o presidente, e não consegui...
- Qual presidente?  - perguntei, distraído a observar uma boazona que descruzava, para voltar a cruzar, as pernas pela cagagésima vez. - O Cavaco?
Adalbataberto enfureceu-se. Não gosta de distrações quando fala:
- Qual Cavaco, porra! O presidente da assembleia geral, pá! Não consegui. Nem com ele, nem com ninguém do conselho fiscal, nem com o tesoureiro, já que isto envolve dinheiro... Dá a impressão de que essa gente não existe. Mas não é tudo.
Recostei-me na cadeira e observei com atenção o meu amigo, dado que a boazona tinha ido embora.
- Que mais temos?
- Sabes fazer contas?
- Olha, pá, nem por isso. A matemática nunca foi o meu forte...
- Não faz mal, eu ajudo-te. Lê aqui - apontou-me onde eu devia ler, com o dedo indicador. Mas, sem esperar que eu fizesse as contas, missão algo penosa para mim, esclareceu-me:
- A ABZHP promete fazer "feiras solidárias" todos os primeiros e últimos sábados de cada vez. Cada feira terá, "pelo menos", 50 artesãos. Cada artesão pagará uma "quota solidária" de dez euros. E será essa receita que garantirá os 20.800 euros a cada corporação. Agora, faz as contas comigo: duas semanas por mês, dá 24 semanas por ano. A multiplicar por cinquenta artesãos, dá 1200 artesãos. Se cada artesão pagar uma "quota solidária" de 10 euros, vai dar 12.000 euros ao fim do ano. A dividir por duas corporações de bombeiros, dá seis mil euros a cada uma. Então, onde estão os 20.800 euros? Ou teremos a versão moderna do "milagre" da multiplicação, só que em vez de pães e peixes são euros? Olha, o Governo podia aproveitar, que a ABZHP era capaz de dar cabo da crise.
Meio atordoado com a rapidez das contas que, na verdade, não consegui acompanhar, ainda ouvi Adalbataberto dizer:
- Agora, repara: "os bombeiros ficarão com 80% das receitas; os restantes 20% destinam-se aos gastos da organização". Gastos da organização?? Quais gastos? Despesas com e-mail? Sinceramente, conheço os termos "bolso", "algibeira", mas é a primeira vez que vejo alguém chamar-lhe "gastos de organização"...
Adalbataberto parecia mais calmo. Chamei o empregado, paguei a despesa, e preparei-me para sair. Mas ainda ouvi o meu amigo desabafar:
- Estes políticos sempre me saíram uns trafulhas..! Mas como é que um jornal respeitável, como o JN, embarca numa história destas? Não sabem fazer contas? Ou já andam nos fretes?
Antes de sair, ainda me atrevi a perguntar:
- Quem te disse que foi um político...?
- Ora, pá! Só um político é que promete,sabendo que não vai cumprir. De caras.
Saí. Não cheguei a perceber a que político Adalbataberto se referia.


2012-07-18

Assim não, senhor bispo


Deixe-me dizer-lhe que subscrevo inteiramente as suas palavras. Na verdade, se o anterior governo dizia mata, este diz esfola. E o senhor falou em corrupção precisamente numa altura em que as autoridades andam a investigar negociatas a que membros do governo não são alheios. No entanto, não lhe reconheço o direito de dizer o que disse. Ou seja, o tiro foi certeiro, a arma é que não foi a adequada, isto para utilizar terminologia da tropa.
Vou tentar explicar.
O senhor disse cobras e lagartos do actual Governo - precisamente o Governo que lhe aconchega a carteira ao fim do mês. Mas isso até ainda é o menos; há muitos funcionários públicos a dizer mal do Governo, e não é por aí que o gato vai às filhoses. O grande problema, senhor bispo, é que o senhor falou enquanto bispo. Pelo menos, envergava um dos fardamentos da função. E embora a ICAR tenha vindo, mui lesta, dizer que o senhor exprimiu uma opinião pessoal - nem outra coisa era de esperar - a verdade é que era o bispo das Forças Armadas que estava a falar. E é aí que eu começo a não concordar.E sabe porquê? Porque se trata de uma indecente ingerência da Igreja nas questões governativas. Do Estado, portanto. Já ouviu falar em separação? Pois...
Diga-me uma coisa: se, por hipótese meramente académica e completamente absurda, dado o permanente ajoelhar governativo, um membro do Governo se pronunciasse relativamente ao celibato dos padres ou ao sacerdócio das mulheres, como reagiria?
Pois é. Há situações em que fica muito mal morder a mão que alimenta.
Em simultâneo no Diário de uns Ateus

2012-07-14

Exm.º Ministro...

...Paulo Portas. Permita-me que o trate assim, porque não sei em que qualidade V.ª Exª. falou, se na de ministro, se na de dirigente partidário.
Deixe-me dizer.lhe, antes de mais, que não gosto de si nem um bocadinho. Já sei que V.ª Ex.ª está-se borrifando mara o facto de eu gostar, ou não, de si. Mas eu precisava de dizer isto.
V.ª Ex.ª falou e disse. Acerca do acórdão do Tribunal Constitucional (TC) disse que não era legítimo estender aos privados a dívida do Estado. Se não foi assim, a ideia era essa. Ou seja: se a dívida é do Estado, que sejam os seus funcionários a pagá-la. E eu quase dei comigo a aplaudir com ambas as mãos - já tentei aplaudir só com uma, e não consegui, mas isso é outra conversa.
Na verdade, todas as despesas que os diversos governos - e este "diversos" é uma figura de retórica, já que, na verdade, só houve dois, uns conluiados com o Partido de V.ª Ex.ª, outros nem por isso - dizia eu que todas as despesas feitas pelos governantes foram para beneficiar o Estado e seus funcionários. Principalmente, os funcionários, por isso é justo que sejam eles a pagar os excessos que ainda agora se vão mantendo.
Estou a lembrar-me, assim de repente, de uns submarinos, para os funcionários do Estado darem as suas voltinhas aos domingos. Mas também me lembro de uma quantidade enorme es estádios de futebol, de auto-estradas sem necessidade, de um projecto de TGV e de um aeroporto, tudo para que os funcionários do Estado pudessem partir para férias, certamente com os chorudos subsídios das ditas. As parcerias público-privadas foram estabelecidas para os funcionários públicos encherem os bolsos, os institutos são para dar dinheiro aos funcionários públicos.
É por isso que quando se diz que nós gastámos mais do que o devido, eu pergunto: NÓS, quem?
Senhor ministro, tenha vergonha. Não é preciso muita, basta um pouco.

2012-07-09

"Alá é grande"

A barbárie religiosa não tem limites. Deus, seja o dos católicos, seja o dos islâmicos, seja o dos judeus, seja o do raio que os parta a todos, é a justificação perfeita para que se continuem a perpetuar as maiores barbaridades. Desta vez, foi no Afeganistão. Mas podia ser em qualquer outra parte do Mundo. Porque o deus é “grande”, seja onde for. Principalmente, onde convier.
Em simultâneo no "Diário Ateísta"