2011-06-29

AS DESGRAÇAS

Morreu o actor/cantor/modelo Angélico Vieira. Desde já, lamenta-se a morte. Qualquer morte.
Durante dias, as TV invadiram as nossas casas com "directos" de vigílias e orações. Que nada resolveram, como era de esperar. Nunca rtesolveram, não era agora que iam passar a resolver... Vamos esperar por mais dias de notícias sobre autópsia, câmara ardente, funeral. E o inevitável desfile de vaidades, que as TV vão lá estar. Muitas lágrimas e muito ranho, em directo. Há-de ser transmitida a missa do 7º dia, provavelmente também "em directo".
Entretanto: alguém sabe notícias de Sónia Brasão? Morreu? Está melhor? Ou deixou de ser notícia?
Desculpem, foi só um aparte...
Dizia eu que Angélico Vieira continuará a ser notícia, até à próxima desgraça. Quando ela acontecer, toda a gente vai esquecer Angélico Vieira.
Quem é que ainda se lembra de Sónia Brasão?

PS: Morreu Salvador Caetano que, apenas com a 4ª classe, construiu o império que hoje conhecemos. Fez mais, pelo país a dormir, do que todos os angélicos vieiras acordados.
Morreu, aos 85 anos.
Sem "directos".
Sem vigílias.
Sem orações...

A vida é mesmo filha da puta, não é?
Ou algumas pessoas é que são?

2011-06-24

"ELES NÃO SABEM, NEM SONHAM..."

Hoje, logo pela manhã, a RTP noticiava, relativamente às festas de S. João, qualquer coisa como (e cito de memória): "O fogo de artifício, encerrou a noite de S. João, na cidade do Porto". Pode não ter sido exactamente assim, mas a ideia é essa.
E agora começamos a perceber algumas coisas. Por exemplo, por que razão os lisboetas não querem a regionalização. É que quando ocorrer a divisão do país em regiões, o S. João deixa de ser um mero feriado municipal, e corre o risco de se tornar um feriado nacional, talvez europeu - como sou modesto, não me atrevo a afirmar que pode tornar-se um feriado mundial. Por isso, vão dizendo que o fogo de artifício "fechou", ou "encerrou", a  noite de S. João.
Não, caros lampiões: a extraordinária sessão de fogo de artifício DEU INÍCIO, ABRIU, FOI O PONTO DE PARTIDA para a mais democrática, mais longa, mais bela noite de Portugal: a noite de S. João ou, para quem não alinha muito em religiosidades, a noite em que se festeja o solstício de Verão.
Aprendam, por favor: a noite de S. João só finda quando for dia; e de dia, o fogo de artifício não vale nada. Nem dá para ver...

2011-06-05

VIVA A SEGURANÇA!!!

As televisões anunciam que, na Esquadra de Faro (Allgarve) da P.S.P., alguns agentes, certamente impedidos de fazer greve, arranjaram as mais diversas desculpas para não se apresentarem ao serviço: baixa por doença, assistência a familiar doente, enfim, todos os truques que nós, funcionários públicos (ou ex...) conhecemos. Razão: a alteração, para pior, dos horários de trabalho.
A população farense não entrou em pânico, mas mostrou-se preocupada. Legitimamente, ia eu escrever, mas os responsáveis da PSP já fizeram questão de tranquilizar a grei: a segurança não está posta em causa.
Fico mais tranquilo, embora resida a mais de 600 quilómetros de Faro. Mas fico tranquilo pelos meus compatriotas (?). No entanto, sempre pergunto:

  1. Se a segurança está não está posta em causa com a ausência dos agentes, o que é que eles estão a fazer lá em Faro? Notoriamente, não fazem falta.
  2. Não seria melhor colocá-los em locais onde haja carência de elementos?
  3. Ainda voltando à pergunta 1): se a segurança não está posta em causa, a que se devem os novos horários de trabalho (mais penalizadores, naturalmente)? Foi a troika que mandou?

2011-06-01

TRANSPLANTES

Foi hoje mesmo, no Telejornal da RTP1. Fátima Campos Ferreira fazia uma reportagem sobre os momentos íntimos do nosso querido líder, o engº. José Sócrates. A certa do campeonato, o (ainda?) primeiro-ministro confidencia que atravessou um período difícil, em 2008, quando seu irmão "foi transplantado". Dei-lhe o benefício da dúvida. Um engano qualquer tem, por mais primeiro-ministro que seja. Acontece aos melhores (já me aconteceu a mim...). Mas, pouco depois, o homem reincidiu: referiu-se a um senhor "que também tinha sido transplantado". Prontos, fiquei a saber: o irmão do nosso primeiro e o tal senhor, foram transplantados. Por vezes, é preciso transplantar um coração, um fígado, já ouvi falar em transplantar medula óssea. Mas nunca tinha ouvido falar em transplantar pessoas... Também não sou obrigado a saber tudo, pois não?
Ora bem: segundo leio no dicionário, transplantar é 
v. tr.
1. Arrancar de um lugar para plantar noutro.
2. Por ext. Fazer passar de uma região para outra.
3. Fig. Traduzir; trasladar.

O nosso primeiro terá querido dizer que passaram o irmão de um lado para o outro? 
E se nós aproveitássemos o próximo dia 5 e o transplantássemos também? 

2011-05-28

ACHMED, O TERRORISTA MORTO

Suponho que já tem uns anos. Mas continua (cada vez mais?) actual.



CARIDADE, OU VAIDADE?

1 - Alguém, não sei quem, disse algo parecido com isto: "Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a direita" - isto relativamente a fazer o bem. Traduzido para português decente, os actos solidários (eu não gosto da palavra caridade, prefiro solidariedade) não devem ser exibicionistas. 
2 - Confesso-me um indefectível das novas tecnologias. Assunto que eu possa resolver sem levantar o cu da cadeira, é assunto arrumado. Meter o IRS, fazer uma compra, apresentar uma reclamação, são exemplos de assuntos que eu resolvo sem sair da frente do teclado. Foi, por isso, com enorme satisfação que soube que o Banco Alimentar Contra a Fome tinha criado uma página através da qual podíamos fazer as nossas doações - em géneros ou dinheiro. Mais um assunto que eu poderia, eventualmente, resolver sem sair de casa. Por isso, logo na primeira oportunidade fui espreitar a página onde as doações podem ser efectuadas online. Afinal,  fui encontrar uma feira de vaidades. Para além de constarem os nomes dos doadores, alguns há que, não contentes em ter lá o nome (parece que não há forma de o evitar, por motivos óbvios) não se dispensam de colocar a fotografia. Para que conste. Foi assim que fiquei a saber que a minha vizinha do 3º esquerdo, afinal não é nenhuma pelintra; ela também doou qualquer coisa ao Banco Alimentar. Está lá a fotografia dela.
Para que conste.
Por fim, parece-me haver alguma discriminação. Porque quem faz a doação online tem direito a um recibo para apresentar ao Fisco, para descontar no IRS - para além da publicidade; mas quem doa directamente, por exemplo num supermercado, não tem direito a nada: nem a nome, nem a fotografia, nem a benefícios fiscais.

2011-04-05

DEUS É GRANDE...

Vejo, na televisão, os avanços e recuos dos rebeldes na Líbia. Brega é um ponto estratégico, e todos a querem conquistar. De cada vez que os rebeldes avançam, fazendo recuar as tropas do exército de Khadafi, ouvem-se gritos "Allah u Akbar" (Deus é grande). Mas na reportagem seguinte, são os militares de Khadafi que avançam e fazem os rebeldes fugir. É a vez de as tropas governamentais berrarem "Allah u Akbar". De um lado e de outro os combatentes, quais piões, avançam e recuam, dando expressividade ao nome "peões de Brega".
As equipas de futebol entram em campo. A equipa visitante pisa o relvado, e alguns jogadores tocam a erva com a mão direita, e benzem-se - certamente pedindo a Deus uma vitória; depois, entra a equipa visitada, e o ritual repete-se - jogadores a tocarem a relva e a benzerem-se.
E eu pergunto, à moda de Richard Dawkins: afinal, de que lado está Deus?

2011-04-04

O MILAGRE

Até à náusea, a RTP vai repetindo a reportagem dos passageiros que chegaram a Lisboa, depois de terem apanhado um valente susto a bordo de um avião da TAP. E a reportagem abre com uma passageira a garantir que nunca sentiu medo, porque confiou em Deus que, por fim, acabou por fazer o milagre evitando o pior.
Note-se que não tenho qualquer razão para duvidar, nem das palavras da passageira nem do poder de Deus; mas pergunto se não seria mais fácil a Deus evitar a avaria do motor - como, aliás, faz com todos os aviões cujos motores não pegam fogo, graças a Deus. A minha mulher, católica, elucida-me que naquele tempo ainda não havia aviões e, portanto, Deus não sabia nada de engenharia aeronáutica - nem tinha obrigação de saber, principalmente agora, que a idade começa a pesar. Era uma altura em que o Sol andava à volta da Terra, e esta era plana e assente sobre pilares. Acabei por concordar com a aliás imbatível argumentação. Na verdade, lendo a bíblia não se vê qualquer referência a aviões... Adiante. Fico, pois, vencido e convencido de que a mão de Deus esteve no momento histórico da salvação dos passageiros do avião. E neste momento outra questão se levanta: de que está à espera, a TAP, para levantar um rigoroso inquérito à actuação do piloto e do co-piloto? Porque era a eles que competia levar o avião a bom porto - perdão, aeroporto - e, em vez de cumprirem o seu dever, demitiram-se das suas funções deixando nas mãos de Deus o que a eles competia em exclusivo - isto, claro, de acordo com a referida passageira, cujas palavras não me atrevo a por em dúvida.
Despedimento por incompetência, era o mínimo que lhes deveria acontecer. E a prová-lo, está o facto de a RTP não ter dedicado uma única palavra aos pilotos.

2011-03-28

OS MILAGRES (DESCONHECIDOS) DE JESUS

Que Jesus fez milagres, parece que ninguém tem dúvidas. E se as tem, melhor é que as desfaça. Mas há milagres que não constam dos evangelhos, como nos revela o Reverendo padre Rowan Atkinson. A ver, com muita atenção e devoção.

2011-03-14

ROUBADO AO "DIÁRIO ATEÍSTA"


Deus e Catástrofes

  Escrito por Luís Grave Rodrigues  | 

Tradução “livre” de um artigo de A. C. Grayling, publicado no site daRichard Dawkins Foundation.
É com tristeza que todos pensamos nas centenas de milhares de pessoas cujas vidas foram horrivelmente perdidas ou afectadas pelo terramoto e pelo tsunami do Japão, e que marcaram a negro os anais deste ano de 2011, e que vieram logo a seguir ao terramoto que atingiu Christchurch na Nova Zelândia.
Estes acontecimentos, que estão certamente ligados do ponto de vista tectónico, lembram-nos das vastas forças da natureza que, se são normais para o próprio planeta, são já prejudiciais para a vida humana, especialmente para aqueles que vivem perigosamente perto do quebra-cabeças que são as falhas da superfície terrestre.
Alguém me disse que na igreja da sua terra iria haver orações especiais pelas pessoas no Japão. Este comportamento bem-intencionado e fundamentalmente simpático mostra, no entanto, quão absurdas, no sentido literal do termo, são as práticas e as crenças religiosas.
Quando vi na televisão uma reportagem de pessoas a dirigirem-se para a igreja em Christchurch após o trágico terramoto, foram estes pensamentos que me assaltaram.
Não seria simpático da minha parte pensar que aqueles que foram à igreja o foram para dar graças por eles próprios terem escapado pessoalmente; não lhes quero imputar egoísmo e alívio pessoal no meio de um desastre no qual tantas pessoas arbitrária e subitamente perderam as suas vidas por causa de um “acto de Deus”.
Mas se essas pessoas foram rezar para que o seu deus olhe pelas almas daqueles que morreram, por que pensariam elas que esse deus o faria, uma vez que foi ele próprio quem causou, ou permitiu, que os seus corpos fossem súbita e violentamente esmagados ou afogados?
De facto, estariam elas a suplicar e a louvar uma divindade que idealizou um mundo onde existem tantas arbitrárias e súbitas mortes?
Um ser omnisciente conheceria bem todas as implicações daquilo que faz, e por isso saberia também que iria proporcionar estes acontecimentos e todas estas suas horríveis consequências.
Estariam elas a louvar o causador do seu sofrimento, pelo seu sofrimento, e também a suplicar a sua ajuda para escapar àquilo que ele próprio tinha planeado?
Talvez elas pensem que o seu deus não é o responsável pelo terramoto. Mas se elas acreditam que o seu deus idealizou um mundo no qual estas coisas acontecem, mas depois deixou esse mundo sozinho e não intervém mesmo quando ele se torna letal para as suas criaturas, então essas pessoas estão implicitamente a questionar a moralidade do seu carácter.
E se ele não é suficientemente poderoso para fazer alguma coisa sobre a criminosa indiferença do mundo para com os seres humanos, então em que sentido é ele deus?
Pelo contrário, ele parece ser um espírito impotente, para quem é inútil rezar e que é indigno de ser louvado.
Porque se ele não é capaz de impedir um terramoto ou salvar as suas vítimas, então não está qualificado para criar um mundo.
Mas se ele é poderoso o suficiente para ambas as coisas, mas ainda assim cria um mundo perigoso que inflige arbitrariamente sofrimentos violentos e agonizantes a criaturas racionais, então ele é perverso.
De qualquer modo, o que pensam as pessoas que acreditam em tal ser, e vão à igreja para o louvar e adorar?
Como, perante acontecimentos que a bondade e a preocupação humana consideram trágicos e que exigem ajuda – ajuda que são os próprios seres humanas que proporcionam aos seus semelhantes: nunca aparecem anjos vindos do céu para ajudar – podem as pessoas acreditar em tal incoerente ficção, como é a ideia desta divindade?
É este um enigma sem fim.