2008-12-27

"TORCE PALAVRAS"

Assumo que não pedi autorização ao Ludwig Krippahl para publicar este delicioso e preclaro texto; mas parto do princípio de que não se sentirá ofendido por difundir as suas ideias. Aliás, acho que é isso que se deve fazer às ideias esclarecidas e esclarecedoras: divulgá-las o mais possível.





A teologia safa-se pelo domínio da ambiguidade, e Anselmo Borges deu uma bela lição disto no DN de dia 20. A Associação Humanista Britânica está a organizar uma campanha publicitária a favor do ateísmo, com o slogan «Deus provavelmente não existe. Agora deixe de se preocupar e goze a vida» (1). Anselmo Borges diz que é uma ideia interessante porque obriga «as pessoas a pensar nas questões essenciais, e Deus é uma dessas questões decisivas.» (2)

Questões são perguntas. Como é que surgiu o universo? O que nos causou? Como podemos saber? O Anselmo torce o sentido de "questão" e mete uma resposta pela porta do cavalo. Porque Deus não é uma questão. O deus do Anselmo é apenas uma de muitas tentativas de responder estas perguntas. E levanta uma questão importante. Porque é que há de ser o deus dele e não um dos outros? Para responder a isto, a teologia torce as palavras conforme dá jeito.

«Afinal, também há razões para não crer, mas, quando se pensa na contingência do mundo, no dinamismo da esperança em conexão com a moral e na exigência de sentido último, não se pode negar que é razoável acreditar no Deus pessoal, criador e salvador, que dá sentido final a todas as coisas. Numa e noutra posição - crente e não crente -, entra sempre também algo de opcional.»

Crer ou não crer é uma escolha. Mas a palavra "razões" é usada aqui de duas formas subtilmente diferentes. Quando somos razoáveis baseamo-nos em razões partilhadas. Quando usamos razões só nossas não somos razoáveis aos olhos dos outros. É razoável largar o pote se está demasiado quente mas não por me dar na gana ou por medo que dê azar. As razões para não crer em Deus vêm do que observamos à nossa volta. Cada criança que fica sem pernas por pisar uma mina dá uma razão forte para rejeitar o tal ser benevolente que lhe podia ter segredado "cuidado, aí há minas"*. A imensa indiferença do universo perante o nosso sofrimento torna razoável a descrença. Mas a crença em Deus, como o próprio Anselmo admite, vem apenas de desejos pessoais como a esperança e a exigência de um sentido último, e não é por desejos que se forma uma opinião razoável acerca do que existe ou não existe.

Depois, o amor. «Agora que está aí o Natal, é ocasião para meditar no Deus que manifesta a sua benevolência e magnanimidade criadoras no rosto de uma criança. Jesus não veio senão revelar que Deus é amor, favorável a todos os homens e mulheres» (mas não às crianças que pisam minas).

Usamos a palavra "amor" para referir o que sentimos por alguém ou para referir esse alguém. Esta ambiguidade é ideal para a teologia. No primeiro sentido "Deus é amor" dá uma evidência directa que Deus existe. Todos sentimos amor e os crentes amam Deus. O sentimento existe. E torcendo a palavra para o outro lado concluem que o objecto desse amor também existe. É um disparate atraente. É disparate porque o objecto do nosso amor pode nem se parecer com aquilo que julgávamos amar. Mas é atraente porque preferimos esquecer essas experiências dolorosas e fingir que não é assim. O amor não só cega como enfraquece as ideias.

E quando torcem o amor com a ciência têm uma combinação perfeita. «A existência de Deus não é objecto de saber de ciência, à maneira das matemáticas ou das ciências verificáveis experimentalmente.» Ou seja, a existência de Deus não é ciência por não ser de cariz experimental. E Deus é amor, que sabemos não ser científico. Mas isto só encaixa torcendo as palavras. Porque o amor é experimental; é experimentando-o que o conhecemos e é pela experiência quotidiana que sabemos quem amamos e quem nos ama. E o amor só não é científico porque nos falta uma teoria detalhada. Falta-nos as palavras para modelar o amor. Falta-nos o logos do amor.

Mas isso é o que a teologia finge ser. O logos de Deus que, segundo dizem, é amor. A teologia é a teoria do amor inventada por celibatários que baralham as palavras e negam a experiência. Não admira que mesmo ao fim de tantas voltas não tenham chegado a lado nenhum.

*A desculpa para isto é a vontade livre. É um argumento válido, e aceito-o. Mas apenas nos casos em que a própria criança pôs lá a mina.

1- CNN, 23-10-08, Atheists Run Ads Saying God 'Probably' Doesn't Exist
2- Anselmo Borges, DN, 20-12-08, "Provavelmente Deus não existe"

Em simultâneo no Que Treta!

CARTA ABERTA AO ZÉ RODRIGUES

Caro Zé Rodrigues:


Vi-te, hoje, na televisão. O que, só por si, nem sequer é motivo para te escrever. Afinal, apareces na televisão todos os dias – mais dia, menos dia, é claro. Mas hoje, a tua aparição foi especial: é que tu fizeste um – aliás maroto – piscar de olho, e disseste: "Para si, em especial, um grande 2009". Ora, como eu era a única pessoa do meu extenso agregado familiar que estava defronte do televisor, deduzi que estavas a falar comigo. Cabe aqui dizer que disseste por extenso: doismilenove. O que só te fica bem, porque os portugueses cada vez percebem menos de números… Mas isso é outra conversa.

Para já, não tinhas necessidade de me tratares por "você". Entre colegas – tu és escritor e eu também sou – não há necessidade disso.

Sim, Zé Rodrigues, também sou escritor, embora escreva outro tipo de livros. Mas eu é mais livros de cheques. Ah, e também obrigo os funcionários bancários a escrever. Tipo "Informo Vª. Ex.ª de que o seu cheque foi devolvido por falta de provisão" bom, mas isso também é outra conversa. Eles tratam-me por Vª. Ex.ª., o que acaricia o meu ego. Ah, e também apareço na televisão, quando tenho a câmara de vídeo ligada ao aparelho respectivo.

Pois esta minha carta tem o único objectivo de te elucidar. Tu estás, agora, a lançar-te no campo das letras, passe a publicidade, mas eu já ando metido em letras há muito tempo. Olha, tu ainda eras espermatozóide, e já eu as assinava (as letras) com uma pinta que nem imaginas. Bom, mas isso é, também e ainda, outra conversa.

O ano de 2009 não pode ser grande. Desculpa lá, mas fazes-me lembrar aqueles comentadores desportivos "O Quim marcou um grande golo". Ora, todos sabemos que os golos são, todos do mesmo tamanho. Que é, exactamente, o tamanho da bola que entra na baliza. Pois com os anos passa-se a mesma coisa, com uma excepção, a qual acontece de quatro em quatro anos. De facto, ano que se preze tem 365 dias.

Ora, acontece esta coisa incrível: como podes TU, Zé Rodrigues, desejar um "grande" 2009 (ou, se quiseres, doismilenove), a um ano que, ainda por cima, vai ter menos um dia que o doismileoito (ou, para quem souber a numeração árabe, 2008)???

Vamos ter juízo, rapaz! De contrário, ainda corremos o risco de ver o outro Zé, o Pinto de Sousa, desejar aos portugueses um Ano Novo cheio de prosperidades…

2008-12-26

AS BEATAS

As beatas

Elas envelhecem com pequenos passos
Como de cãezinhos ou de gatinhos
As beatas
Elas envelhecem tão depressa
Que confundem o amor e a água benta
Como todas as beatas
Se eu fosse diabo ao vê-las por vezes
Eu acho que me faria castrar
Se eu fosse Deus ao vê-las rezar
Eu acho que perderia a fé
Pelas beatas
Elas procissionam em pequenos passos
De pia de água benta em pia de água benta
As beatas
E patati e patata
As minhas orelhas começam a assobiar
As beatas
Vestidas de negro como o Senhor Padre
Que é demasiado bom com as criaturas
Elas beatizam-se de olhos em baixo
Como se Deus dormisse sob os seus sapatos
De beatas
No sábado à noite depois do trabalho
Vê-se o operário parisiense
Mas nada de beatas
Porque é no fundo das suas casas
Que elas se preservam dos rapazes
As beatas
Que preferem encarquilhar-se
De vésperas em vésperas, de missa em missa
Muito orgulhosas de terem conservado
O diamante que dorme entre as suas pernas
De beatas
Depois morrem em pequenos passos
Em fogo lento, em montinhos
As beatas
E enterram-se em pequenos passos
De manhãzinha num dia frio
De beatas
E no céu que não existe
Os anjos fazem depressa um paraíso para elas
Uma auréola e duas pontas de asa
E elas voam… com pequenos passos
De beatas
(Jacques Brel, 1962; tradução livre de Ricardo Alves)

Les bigotes

Elles vieillissent à petits pas
De petits chiens en petits chats
Les bigotes
Elles vieillissent d’autant plus vite
Qu’elles confondent l’amour et l’eau bénite
Comme toutes les bigotes
Si j’étais diable en les voyant parfois
Je crois que je me ferais châtrer
Si j’étais Dieu en les voyant prier
Je crois que je perdrais la foi
Par les bigotes
Elles processionnent à petits pas
De bénitier en bénitier
Les bigotes
Et patati et patata
Mes oreilles commencent à siffler
Les bigotes
Vêtues de noir comme Monsieur le Curé
Qui est trop bon avec les créatures
Elles s’embigotent les yeux baissés
Comme si Dieu dormait sous leurs chaussures
De bigotes
Le samedi soir après le turbin
On voit l’ouvrier parisien
Mais pas de bigotes
Car c’est au fond de leur maison
Qu’elles se préservent des garçons
Les bigotes
Qui préfèrent se ratatiner
De vêpres en vêpres de messe en messe
Toutes fières d’avoir pu conserver
Le diamant qui dort entre leurs f…s
De bigotes
Puis elles meurent à petits pas
A petit feu en petit tas
Les bigotes
Qui cimetièrent à petits pas
Au petit jour d’un petit froid
De bigotes
Et dans le ciel qui n’existe pas
Les anges font vite un paradis pour elles
Une auréole et deux bouts d’ailes
Et elles s’envolent… à petits pas
De bigotes
Jacques Brel (1929-1978)

2008-12-24

EXPRESSODASNOVE.PT

"A Igreja é um escândalo, uma vergonha,
uma nódoa! Não tem salvação"
Afirma o professor Armando Medeiros em exclusivo a este jornal. E pergunta: “A que propósito é que aquele sujeito, Bento não sei quantos, anda coberto de jóias e pratas? A que propósito é que o tesouro do Vaticano tem um valor incalculável?”

E o Natal no meio de tudo isto?
Queres que eu diga o que é o Natal para mim?

Quero…
Para mim é uma data de calendário com a mesma importância que o 15 de Agosto, ou outra…

Mas o Natal é a maior festa do ano e a maior festa do mundo…
Maior em que sentido?

Maior no sentido em que mobiliza mais gente…
De que maneira?

Ao nível do consumismo, por exemplo…
Para fazer o bem?

Depende...
Então, deixa-me ser eu a dizer: é a maior festa do ano porque é a que mobiliza mais gente. Para fazer o bem?

Não.
Tu falaste em consumismo...

O Natal é o maior negócio do ano…
É o maior negócio do ano. Exactamente. Para quem compram as pessoas? Para os necessitados?

Compram para as suas famílias e crianças…
E para os necessitados?

Algumas fazem-no…
Fazem-no? Como? Limpam os sótãos e dão o que não vestem…

Aliás, muitos dos que o fazem só o fazem na altura do Natal… São apenas solidários no Natal. É uma forma de aliviarem a consciência.
Por um lado, praticam caridade, ficam aliviados, mas, por outro lado, ganham uns pontos na caderneta do santo que estiver de serviço nesse dia!

Como achas que deveria ser o Natal, tendo em conta a realidade da sociedade em que vivemos?
Julgo que o Natal devia ser, na realidade açoriana, como tudo na realidade açoriana devia ser, mas não é: comedido, modesto, simples. Quem tem pouco, pouco gasta.

Mas as empresas fazem tudo para que as pessoas comprem coisas… caso contrário não conseguiriam sobreviver.
As empresas que vão para o Diabo!

As pessoas reagem aos apelos do mercado, são impulsivas…
Recebem apelos para comprarem metralhadoras para as crianças!

Exactamente.
E jogos de computador, em que só ganha quem provocar mais desastres de automóvel e quem provocar mais mortes. É isso?

É isso, sim. Mas a solução que propões é bastante irrealista…
Não vejo como poderia ser de outra maneira. Os senhores padres nas igrejas continuam a copiar, nas suas homilias, as páginas na Bíblia que falam da viúva de Caim e das Bodas de Canã…

A Igreja não devia ter um papel de moderação na festa do Natal?
A Igreja é um escândalo, uma vergonha, uma nódoa!

Porquê?
Porque assim se tornou…

Que faz a Igreja para ser uma nódoa?
Olha, por exemplo, só oficialmente chamo ao Papa “Sumo Pontífice”. Em família, chamo-lhe “mijo” de Papa! Diz-me uma coisa, Eduardo: a que propósito é que anda aquele gajo coberto de ouro, quando metade do mundo morre de fome?! E a história do rico só entrar no céu pelo buraco da agulha?!

A Igreja não distribui riquezas materiais…
A que propósito é que aquele sujeito, Bento não sei quantos,
anda coberto de jóias e pratas?! A que propósito é que o tesouro do Vaticano tem um valor incalculável?

A Igreja precisa de dinheiro para manter os templos… e para pagar os salários aos sacerdotes, que são muitos milhares por esse mundo...
A Igreja poderia melhorar o Natal começando por modificar a ideia que deu da pessoa que foi Jesus Cristo. É porque, primeiro, devia ser ensinado aquilo que eu dizia aos meus alunos: não há nada que prove, nada, coisa nenhuma, que prove que Cristo tenha sido, realmente, mais filho de Deus do que eu, ou tu! Ele até foi dado a conversas que nada tinham a ver com o filho de Deus. Disse Ele às mulheres de Jerusalém: “Não choreis, que muito mais hão-de chorar os vossos filhos!” Se isto não é uma ameaça, cheira a isso. E Ele disse também: “Quem não é por mim é contra mim!” Se isto não é intolerância, cheira a isso. Estas afirmações perdoam-se a um visionário que foi, sem dúvida, magnífico, e que transformou a face do mundo, mas são afirmações que não se perdoam a um Deus.

Ele terá dito isso enquanto homem…
Mas admite-se que o tenha dito?!

O discurso bíblico que chegou até nós foi “filtrado” pela Igreja…
Um puto de 14 anos lê o Velho Testamento e fica mais assustado do que depois de ter lido o Barba Azul! Porque o Velho Testamento fala em horrores, vinganças e caprichos…

A Bíblia espelha a cultura humana. Ainda hoje, vivemos numa sociedade de horrores…
Ora bem.

Olha para o Iraque, olha para o Médio Oriente, olha para África...
Aos nossos meninos, na catequese, ensina-se-lhes que no princípio havia um jardim onde um sujeito e uma sujeita foram expulsos por terem desobedecido ao comerem uma peça de fruta. E, depois, diz ainda a Santa Bíblia que Adão e Eva geraram Abel e Caim e que Abel gerou este e que Caim gerou aquele... mas onde está a senhora Abel? E onde está a senhora Caim? É muito esquisito, o Deus dessa Bíblia. Violento, intolerante, vomitando pragas...

É um Deus... esquizofrénico. Fala-me do teu Deus, do verdadeiro Deus…
O verdadeiro Deus, para mim... é o que encontro nas Furnas e nas Sete Cidades. Chego às Furnas e às Sete Cidades e digo: “Imaginem toda esta beleza... uma imensa extensão de cinzas e esterilidade. Isto não é revisitar a criação?...”. As Furnas são uma catedral verde, onde encontro o Deus primeiro, a força primeira…

Mas, hoje, de que forma é que se encontra esse Deus na sociedade? As pessoas não ligam muito ao Deus das Furnas e das Sete Cidades…
São-Lhe absolutamente indiferentes!

E porquê?
Porque aquilo que julgam saber de Deus vem-lhes dos padres. E os padres são uma nódoa...

Não sabem ensinar Deus.
As nódoas não ensinam. Deixam marcas de gordura.

Não vais à missa? Por que será que os padres são incapazes de se envolver mais na comunidade em que vivem? Far-lhes-á falta a livre expressão da sua vida sexual?
(Risos) Eles estão fartos de se exprimir a esse nível, pelo amor de Deus!

Será que se tornam egoístas e distantes por não serem livres afectivamente e emocionalmente?
São um poço de frustrações…

De onde virá a sua frustração?
De darem por si a fazer o que nunca quiseram fazer…

Não podem amar uma mulher, nem um homem. Não podem dar larga aos seus sentimentos...
Sejam honestos. Demitam-se. Ou seja lá o que for que fazem os padres honestos, que não estão dispostos a continuar uma fraude.

Talvez seja uma questão de educação. Os padres são educados de uma certa maneira. Ah, e as mulheres não podem ser padres…
Graças a Deus!

Talvez pudessem ser elas a salvar a Igreja!…
A Igreja não tem salvação possível. E a católica está moribunda. No fundo, que formação e que paciência e que crença há-de ter um sacerdote se o próprio Vaticano cria uma vacina chamada desobriga? Vai-se uma vez por ano, na Quaresma, fazer uma confissão e fica-se despachado para o ano todo! Mas que coisa é esta? Com a validade de um ano?! E olha que sei do que estou a falar porque vivi e ensinei um ano na Terceira e fui muito amigo do padre Edmundo Machado Oliveira, que deu o nome ao orfeão. Tínhamos longas conversas e ele confiava-me muitas vezes o seu desencanto.


EDUARDO BRUM


23 de Dezembro de 2008

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2008-12-23

UMA CURIOSIDADE...

Sabe donde vem a palavra "cretino"?
Leia o que diz a Wikipédia: "A palavra cretino provém de uma palavra do dialeto franco-provençal, "crétin", que significava cristão. O seu atual uso resulta do costume de usar a expressão «pobre cristão» ou «cristão», no sentido de «inocente», para designar os loucos e débeis mentais."
Por outras palavras: dizer cretino ou dizer cristão é a mesma coisa.

2008-12-22

CÁRITAS - CARIDADE

Ano de 2008. Dia, 22. Mês, Dezembro.

Estou na Rua Latino Coelho, na cidade do Porto. Saio do supermercado "Minipreço" (passe a publicidade) e dirijo-me ao carro, estacionado mais acima, com as últimas compras natalícias. Reparo que na paragem de autocarro ali existente, uma senhora aguardava transporte. Chamou-me a atenção um saco de papel forte, onde eram transportados alguns géneros alimentícios. "Um cabaz de natal", concluiu a minha mulher. Era. No passeio defronte fica uma delegação da Cáritas Diocesana, e dali vão saindo pessoas carregando sacos iguais, pelo menos na aparência, àquele que tinha visto na paragem de autocarro.

As pessoas que vão saindo da "Cáritas" nem tentam esconder a sua condição humilde. Com roupas modestas e, algumas vezes, escassas, transportam o que, provavelmente, irá ser o seu aconchego natalício. Único aconchego, quiçá.

Eis senão quando, uma senhora me chama a atenção. Veste de forma que contrasta flagrantemente com os demais. Casaco comprido de corte razoável, cabelo loiro bem penteado, sapato de tacão alto. "Pobreza envergonhada", penso ingenuamente. A senhora sai da porta e empunha o telemóvel. Naturalmente, não sei a quem telefona nem o que diz. Mas deduzo. E acerto. Porque deixo-me estar o tempo suficiente para ver que um automóvel se aproxima e que a senhora nele entra.

Dias antes, eu tinha dado aquela que, neste preciso momento, passou a ser a minha última contribuição para o Banco Alimentar Contra a Fome.

2008-12-21

AS DEZ PROFECIAS TECNOLÓGICAS…

…NÃO CUMPRIDAS


 

A revista de informática T3 publicou um ranking com as dez piores profecias tecnológicas de sempre. Na lista figuram nomes bem conhecidos como Bill Gates, que, em 2004, garantiu que o «spam» iria acabar brevemente.

Aspiradores movidos a energia nuclear e cartas enviadas por foguetes foram outras promessas que ficaram pelo caminho.

Fique com as dez piores profecias tecnológicas de sempre:

«O iPod nunca terá sucesso», disse Alan Sugar, fundador da Amstrad, em 2005

«Não é necessário um computador em cada casa», afirmou Ken Olsen, fundador da Digital Equipment, em 1977

«Os aspiradores impulsionados por energia nuclear serão uma realidade em dez anos», garantiu Alex Lewyt, presidente da fabricante de aspiradores Lewyt, em 1955

«A televisão não vai durar muito, porque as pessoas cansar-se-ão rapidamente de passar todas as noites a olhar para uma caixa de madeira», pressagiou Darryl Zanuck, produtor da 20th Century Fox, em 1946

«Nunca se irá fabricar um avião maior do que este», proclamou um engenheiro da Boeing, sobre o 247, que tinha capacidade para dez passageiros, em 1933

«Estamos no limiar do correio via foguete», disse Arthur Summerfield, director-geral do Serviço Postal, em 1959

«Ninguém vai precisar de mais de 640 Kb de memória no seu PC», assegurou Bill Gates, em 1981

«Os norte-americanos precisam do telefone, mas nós não. Nós temos mensageiros de sobra», disse Sir William Preece, director da oficina britânico dos Correios, em 1878

«O spam estará resolvido em dois anos», afirmou Bill Gates, em 2004

«Vai-se acabar por provar que os raio-X são uma farsa», adivinhou Lord Kelvin, presidente da Royal Society, em 1883


 

In
"Diário Digital"

FELIZ SOLSTÍCIO

O solstício de inverno acontece neste exacto momento, às 12 horas e 4 minutos.

É o instante em que a ponta norte do eixo de rotação da Terra se encontra inclinada 23º44′ para fora da órbita da Terra (ver o lado direito da imagem de baixo). No solstício de verão, a ponta norte do eixo de rotação da Terra encontra-se inclinada para dentro da órbita da Terra (ver o lado esquerdo da imagem de baixo).

O sinal mais evidente do solstício é a menor duração do dia no hemisfério norte (e a menor duração da noite no hemisfério sul). Outra evidência é a menor altura a que o sol «sobe», no mesmo hemisfério, relativamente à linha do horizonte (durante o seu «movimento» diário).

O dia mais curto do ano e a noite mais longa do ano marcam o início de um novo ciclo, com dias que se alongarão sucessivamente durante os próximos seis meses, até ao solstício de verão, quando o sol estará no seu máximo de altura no horizonte.

Bom ano!


(in Diário Ateísta)

O SABER E O PODER

Quem, como o autor destas linhas, frequentou a catequese, ouviu, certamente, estas afirmações – aliás repetidas até à náusea: Deus é omnipotente, omnisciente e omnipresente. Bom, quanto a omnipresente, nada a objectar. Mas quanto a omnisciente E omnipotente, vamos devagar, que a coisa não é assim tão simples.

Uma das falácias mais empregue pelos crentes é a de que "a Deus nada é impossível". Faz-me lembrar outras falácias que fui ouvindo ao longo dos anos, do tipo "um polícia só não sabe aquilo que não quer" ou "eu só não levei para a cama as mulheres que eu não quis". Dizer que "a Deus nada é impossível" é tão falacioso como afirmar que Deus não pode criar um ser ainda mais poderoso.

Parece, pois, que a melhor forma de tentar resolver o problema é deixar os dogmatismos de lado e caminhar pela zona racional. A qual nos levará, inevitavelmente a esta conclusão: falando de Deus, e admitindo, por hipótese académica e absurda, que Deus existe, o poder e o saber são incompatíveis.

Vamos supor que Deus sabe que amanhã vai haver um terramoto. Não interessa onde, não é importante. Vai haver um terramoto, ponto final. Deus sabe isso, aliás, Deus sabe tudo. Será que Deus pode evitar esse terramoto? Qualquer crente que se preza afirmará, sem sombra de dúvida: "Claro que pode, se quiser. A Deus nada é impossível!" Peço desculpa, mas eu afirmo: não pode. Vejamos: Deus sabe que vai haver um terramoto. Para que o poder de omnisciência se justifique, o terramoto tem
de existir. Claro que Deus, todo-poderoso, pode evitar o terramoto, mas isso iria entrar em conflito com o seu saber. Naturalmente, apresenta-se-nos outra hipótese: Deus sabe que vai haver terramoto, mas vai evitar esse terramoto. Ah, pois… Mas então, teremos de alterar as premissas: o que Deus sabe é que iria haver um terramoto, que não haverá graças à intervenção divina. Por outras palavras: Deus sabe que, afinal, não haverá terramoto. Porque, repito, se Deus sabe que vai haver terramoto, é porque vai haver mesmo.

Deus queira que não…

2008-12-20

FELIZ NATAL



Por tudo quanto é sítio, ouvimos que o Natal é, por excelência, a época de dádiva, de solidariedade. É a época em que nasceu Aquele que veio para nos salvar. Nesta época, os pobres sentem mais aconchego, os desvalidos da sorte aquecem o estômago. Aqueles que podem - e, principalmente, aqueles que querem - multiplicam-se em ações solidárias, distribuindo comida e agasalhos pelos esquecidos de Deus. Nesta época, principalmente, as crianças são especialmente lembradas. Nas igrejas reza-se, com refinado fervor, pelas crianças de África, para que tenham um Natal com menos fome. Nas empresas, os empregados reunem-se com os patrões e/ou chefes, numa salutar convivência; empresas há que promovem idas ao circo, dos filhos dos funcionários.
E uma lágrima teimosa assoma ao canto do meu olho esquerdo, que é o do lado do coração, e rola suavemente pela minha face que acusa, já, alguns sinais de anos vividos.
Em resumo: o Natal é a época, por excelência, de lavagem de consciências. E ainda bem! Quero dizer, ainda bem que o Natal é só um dia no ano. Porque sempre sobejam 364 dias (365 de quatro em quatro anos), para nos esquecermos das crianças com fome, do frio que passam os sem-abrigo, para os patrões poderem, olimpicamente, esquecer-se dos empregados (mas lembram-se quando é para os despedir), para as rezas poderem continuar nas igrejas mas sem provas da sua eficácia, para os chefes continuarem a exercer o poder sobre os subalternos esquecendo-se, provavelmente, da época em que também eram, eles próprios, subalternos.
Além disso, ainda ninguém conseguiu explicar-me DE QUE é que eu fui "salvo" por alguém que, provavelmente (e não há quaisquer provas disso) nasceu há mais de dois mil anos... quando eu só nasci há pouco mais de sessenta.
Trezentos e tal dias num ano compensam, plenamente, a hipocrisia de um dia só. De qualquer modo, nem custa assim tanto lavar a consciência em um dia do ano; nos restantes 365 ela pouco uso tem...
Feliz Natal.