2007-10-13

OS DESÍGNIOS DE DEUS


Há pessoas que, quando acham que o mundo se abateu sobre as suas (respectivas) cabeças, se tornam irreverentes. Eu sou uma dessas pessoas.
Durante o período em que tive de acorrer ao Serviço de Oncologia do Hospital de Stº. António, a minha irreverência apenas era travada pela amabilidade, competência e delicadeza das enfermeiras, o que, diga-se de passagem, não me facilitava as coisas: não podia ser irreverente com quem tão bem me tratava, no entanto sempre encontrava espaço para uma observação mais mordaz ou uma piada algo impertinente.
Pois bem, durante as minhas andanças para aplicação do catéter, ministração de quimioterapia, transfusões de sangue, etc, reparei que duas freiras se submetiam ao mesmo tratamento que eu - ou seja, também eram doentes oncológicas. Facto que me causou alguma estranheza, como se verá.
Em condições normais, o mais certo seria que nem delas me aproximasse - a não ser que tivesse fortes razões para tal; mas eu não estava em condições "normais". Por isso, num dos dias em que esperava a minha vez, vislumbrei as duas freiras que, tendo acabado o tratamento, se dirigiam para a saída. Interpelei-as, com a impunidade que a idade e o estado de saúde permitem (ou parece que permitem):
- Desculparão a pergunta, mas há algo que me faz confusão, e que gostaria que me esclarecessem, se possível: como é que as senhoras, que dedicam toda a vida a Deus, se encontram a fazer este tipo de tratamento? Não era suposto que Deus as protegesse?
As religiosas olharam uma para a outra, e a mais velha - ou assim o parecia - elucidou-me. Completamente, diga-se de passagem:
- Sabe, irmão, são os desígnios de Deus...
- Os desígnios de Deus???? Mas as senhoras andam em tratamento! Não estarão a contrariar os desígnios de Deus?
As freiras voltaram a entreolhar-se, murmuraram um "fique com Deus, irmão" e afastaram-se, enquanto eu ficava a pensar por que caminhos teria andado o meu pai, e como foi que elas me reconheceram...
Irmão...?

O DOLOROSO ÓBITO


O trabalho dos tribunais é, por norma, um trabalho sério, responsável. Assoberbados por montanhas de processos, os funcionários quase nem têm tempo para esboçar um sorriso.
Mas - há sempre um mas - de quando em vez há alguém que, com refinado sentido de humor e não menos requintada ironia, se aproveita de situações sérias para provocar uma saudável gargalhada.
Pois bem: rebuscando no sótão das minhas recordações, veio parar-me às mãos uma fotocópia que, na altura em que foi - largamente, diga-se de passagem - difundida, provocava irreprimíveis gargalhadas aos que a liam. Tratava-se, em resumo, de uma apreensão de aves ornamentais e canoras, provavelmente provenientes de furto. Só que quem se encarregou de acautelar o apreendido não o fez com os cuidados devidos. Por exemplo, colocou um canário e um melro na mesma gaiola, com os resultados fáceis de adivinhar.
A informação elaborada pelo Chefe de Secretaria do Tribunal de Instrução Criminal respectivo, dá-nos uma imagem do sucedido. Ei-la, devidamente transcrita:


Meritíssimo Juiz:

Algo consternado, cumpre-me informar Vª. Exª. que a canária amarela, apreendida neste TIC e no processo de Instrução Preparatória à margem indicado, que foi remetido à Polícia Judiciária de Lisboa
para investigação, foi hoje e há poucos minutos, agredido pelo melro, seu companheiro de cativeiro, e encontra-se já cadáver, jazendo quase desfeita sobre o fundo conspurcado da gaiola, onde os seus restos mortais estão a ser devorados plo seu próprio homicida, reinando na gaiola um ambiente macabro. Para que Vª. Exª. se digne determinar o que tiver por conveniente, sentidamente presto esta informação. (seguem-se a data e a assinatura).


Irrepreensível, e inatacável. Isto, se considerarmos o ambiente normalmente austero dos tribunais.
Resta dizer que na mesma gaiola ainda havia uma outra canária, que também morreu. Quanto ao melro "homicida" acabou por falecer duas semanas depois, supõe-se que de saudades.
Mas isto já sou eu a supor...

2007-10-11

Por terras de Pedro, "O Grande"


Noites Brancas…


Chamavam-lhe Pedro, “O Grande”.


Neste caso, o epíteto “O Grande” não se refere a grandiosidade, mas a tamanho. Com mais de dois metros de altura, era mesmo “Grande”. Como se isso não bastasse, era completamente desproporcionado: a cabeça extremamente pequena em relação ao corpo, braços compridos, ombros estreitos, pés demasiadamente pequenos para o tamanho do corpo… Uma perfeita desconformidade.

Chamavam-lhe Pedro, “O Grande”; hoje chamam-lhe Pedro, o falecido…


****

Petrogrado, aliás Leninegrado, aliás S. Petersburgo.

Meia-noite menos um quarto. Aproximo-me da janela do hotel, para tirar uma fotografia ao pôr-do-sol…

Não, não. Não me enganei. Era meia-noite menos um quarto. Por isso lhes chamam as “Noites Brancas”. Brancas, porque não conhecem a escuridão, nesta altura do ano. Pelas quatro horas, começa a nascer o dia… que não chegou a morrer.


***

S. Petersburgo é conhecida como a “Veneza do Norte” ou, também, “A Cidade dos Mil Palácios”. Um passeio de barco através dos seus inúmeros canais (mesmo sem o gondoleiro a cantar o “Cuore ‘ngrato”) dá-nos a real percepção de uma quantidade incalculável de palácios – qual deles o mais belo, pese embora o facto de muitos deles estarem a pedir obras de conservação.


***

São poucos os táxis, em S. Petersburgo. Por duas razões, fundamentalmente: são relativamente caros (para os russos, evidentemente) e quase não são necessários, já que os transportes públicos satisfazem plenamente as necessidades e… são extremamente baratos.

Mas depois do jantar tudo se altera já que os transportes são mais lentos e não nos levam aonde nós queremos; e se não há táxis, há carros particulares que fazem o mesmo serviço… bem mais barato. Preço marralhado, naturalmente.

Há quem invista na compra desses carros particulares, como num negócio. E que faça disso modo de vida. Afinal, não é proibido “oferecer boleia”…


***


Aterragem no Aeroporto Internacional de Moscovo, e as primeiras perplexidades dos companheiros de viagem: “Que raio de povo é este, que escreve Я em vez de R, e И em vez de N?!”


***

Afinal, a Praça Vermelha, de vermelho não tem nada. A explicação veio depois: no idioma russo antigo, “vermelho” (‘crassnaiá’) queria dizer “bonito”. O povo chamava-lhe “Praça Bonita” (que o é!).


***

Mausoléu de Lenine (aliás, Vladimir Ilich Ulianov). Muito bem conservado, o cadáver. Quase não dá para acreditar.

Em cada patamar das escadas, um militar leva o dedo à boca, em ordem de “silêncio”. Um companheiro de viagem é formalmente convidado a retirar as mãos dos bolsos.

Terra de contradições: eles não gostavam do Lenine, mas respeitaram o seu cadáver, a ponto de o preservarem. Ainda há (muitas) estátuas do homem, embora muitas outras tenham sido apeadas. Lenine é, agora, uma curiosidade.


***


notas pretas


O povo russo divide-se em duas categorias: os que ainda pensam que é o Partido que lhes paga o ordenado, e os que decidiram fazer pela vida. Os primeiros não gostam de turistas, principalmente se forem estrangeiros. Também não gostam de estrangeiros, principalmente se forem turistas. Podem ser encontrados nos hotéis, nos estabelecimentos comerciais e nos cafés, sempre disfarçados de empregados; os segundos podem ser motoristas de táxi, vendedores de artesanato e/ou “souvenirs”.


***


Aos primeiros, o turista/estrangeiro (ou o estrangeiro/turista) não pode falar russo. Primeira reacção: espanto (“um estrangeiro a falar russo?”); segunda reacção: desconfiança (“será que estou a ouvir bem? Ou este gajo está a gozar comigo? A falar russo?!?!”); terceira reacção: arrogância (“nenhum #*+?! £@&%’»$º de um estrangeiro vem para aqui falar russo! Só nós, os russos, é que falamos russo!”).

Os segundos… até falam português! Eu ouvi.


***


Hotel Sovetscaia (lê-se Советская), último dia. O jantar aproximava-se do fim, e o carrancudo (como é normal…) empregado colocou uma vasilha com água quente. Numa taça, pacotinhos de chá – um para cada pessoa! O nosso acompanhante interpelou o empregado (diálogos em inglês, devidamente traduzidos): “Café, por favor”. O empregado respondeu desabridamente: “Não é café, é chá!”. O acompanhante insistiu: “Eu pago! Os portugueses não bebem chá”. O homem ficou desnorteado: um turista atrevia-se a contrariá-lo! Chamou a chefe, que resolveu o problema: mandou substituir os pacotes de chá por outros tantos de café.


***


Controlo de passaportes, à saída, no aeroporto. A funcionária olhava atenta e alternadamente a companheira de viagem que me precedia; os segundos escoavam-se, e a funcionária não se desengomava. Até que pareceu acordar (segue-se o longo e elucidativo diálogo, que consegui traduzir do inglês):

Funcionária: “Na fotografia, o cabelo está loiro, mas o seu cabelo é castanho…”

Companheira de viagem: “É. Cada dia, cada cor. Amanhã, volta a ser diferente”.

O passaporte foi, finalmente, devolvido.


***


Na Rússia dos czares, tudo pode acontecer.




PORTUGAL, A RELIGIÃO E A GUERRA

Do co-bloguista e contribuinte da minha caixa de correio electrónico ("de minimis", que das outras contribuições, digo como os franceses: 'chacun sabe de si') A. Gomes, recebi um texto que, depois de obtida a devida autorização pelo inebriantemente rápido sistema "Simplex", passo a reproduzir (quase) na íntegra (NOTA: os "acrescentos" são da minha responsabilidade):

"Permito-me transcrever de http://aijesus.blogspot.com um texto sobre
Portugal, o Mundial, a religião e a guerra.

O futebol de alta competição vive-se [vive-se! mais do que se vê] em
Portugal como se vive a religião e a guerra. A própria linguagem com
que se interpreta [interpreta-se! mais do que se descreve] o(s)
fenómeno(s) é sintomática [particularmente quando utilizada pelos
fazedores dos "media"]:

1. Na capa da Visão de 29 de Junho, a montagem dos retratos-meio-corpo
de Figo e Beckham agiganta-os tanto como o título: "Duelo de
gigantes". O desenvolvimento no interior tem título ainda mais
"sugestivo" ("O combate dos deuses"), classifica o jogo
Portugal-Inglaterra como "histórico e dramático" e refere-se ao
"espírito guerreiro", que ilustra com uma foto de Ricardo Carvalho em
pose de combatente, esclarecendo que foi este jogador quem
"evidenciou, na defesa, o espírito guerreiro da selecção".



2. A imprensa publicada no dia do jogo Portugal-França não foi menos
comedida [a lembrar nalguns casos o "espírito" da t-shirt que o meu
vizinho vestiu, dominada pela promessa colorida -- adivinhem-lhe as
cores! -- de que "até os comemos!"]: O Record e o Jornal de Notícias,
cautelosa mas sugestivamente, garantiam que, neste "dia mágico", os
jogadores da selecção estavam "prontos para a final". O Público, esse
asseverava que "já ganhámos tudo mesmo se perdermos". A Bola prometia
a conquista de Berlim e O Jogo, que o galo francês iria ficar sem penas.

3. Especialistas em linguagem labial juram que o treinador Scolari
reza nas grandes penalidades, ele que, segundo parece, também manda
pôr velinhas a Nossa Senhora de não-sei-quê. Quanto ao guarda-redes
Ricardo, sabe-se que é homem de ir a Fátima a pé agradecer as vitórias
à Virgem local. É a mulher do mesmo guarda-redes que lembra que o
marido "é um herói nacional" [é-se herói por defender uns penáltis?!
-- pergunto eu].

.....1.........0.....

4. Mas ontem os deuses foram franceses [e a Virgem de Lourdes venceu a
Virgem de Fátima]. Segundo Scolari, o que aconteceu foi porque
Portugal é um patinho feio [só ontem ou já antes? -- pergunto eu].
Os jogadores e o seleccionador franceses já tinham dito que achavam os
jogadores portugueses uns fiteiros. Pelos vistos, o seleccionador também - digo eu.

5. Há dias José Carlos de Vasconcelos escrevia: "[...] é excelente
ficar pelo menos entre os oito melhores do Mundo[...]. Claro que seria
muito melhor estarmos nessa posição nos índices de nível de vida,
desenvolvimento, literacia -- e por aí fora". É pena que a coisa não
vá por aí fora e se fique só pelos futebóis. O Jornal de Notícias de
hoje lamenta: "O sonho acabou". Provavelmente, Portugal também."

LAICO, MAS SEM EXAGEROS...



Dia 8 de Julho do ano de Deus Nosso Senhor 2006. Estugarda, Alemanha. Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, um Estado Laico - de acordo com a Constituição - (ou terá sido, apenas, o cidadão Aníbal Cavaco Silva?) aproxima-se do estádio onde vão defrontar-se a equipa da Federação Portuguesa de Futebol e a equipa da Federação Alemã de Futebol (julgo que é assim que se chama; se não for, corrijam-me nos comentários). Os "pés-de-microfone" de serviço, acolitados pelas respectivas câmaras, assediam Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, um Estado Laico - de acordo com a Constituição - (ou terá sido, apenas, o cidadão Aníbal Cavaco Silva?), a quem colocam as mais diversas questões - ou fazem as mais diversas perguntas, como se diz em português.
Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, um Estado Laico - de acordo com a Constituição - (ou terá sido, apenas, o cidadão Aníbal Cavaco Silva?), vai respondendo "a destra e a sinistra", e mostra-se confiante na vitória da equipa da Federação Portuguesa de Futebol. E, à pergunta sobre se tem fé na vitória da equipa da FPF, para que não restassem dúvidas, Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, um Estado Laico - de acordo com a Constituição - (ou terá sido, apenas, o cidadão Aníbal Cavaco Silva?) rematou, absolutamente imparável:
- Claro que temos fé. Somos crentes, somos católicos!

Assim falou Sua Excelência o Presidente da República Portuguesa, um Estado Laico - de acordo com a Constituição - (ou terá sido, apenas, o cidadão Aníbal Cavaco Silva?).

E BIBÓPORTO, CARAGO!!!!


Começo por dizer que me considero absolutamente insuspeito, quando falo (ou escrevo) acerca do Porto. Embora tenha nascido na "Cidade Invicta" e ali tenha sido criado, a verdade é que não posso esconder a minha predilecção por Vila Nova de Gaia. Aí, sim! Sentado numa esplanada à beira-rio, diante de um copo de fresca cerveja, delicio-me... a olhar para o Porto.

Obviamente, resulta absurdo, incongruente e paradoxal, baptizar um blogue com "À Moda do Porto", afinfar-lhe com o endereço "blogdastripas" e, no fm, desatar a falar de tudo menos... do Porto.
Vou falar dele, naturalmente; e considerando que, como se diz em jornalismo, "uma imagem vale mais que mil palavras" (o Fidel Castro saberá disto?), vou ilustrar as minhas falas com belas imagens.
Claro que não posso deixar de plasmar o meu agradecimento ao particular amigo e antigo companheiro de algumas aventuras, Tomé Afonso, que até pode ter uma boa máquina fotográfica; até pode ter uma lente espectacular; mas tudo isso, compra-se. O que não se compra, é o "olho" para a fotografia. E isso, o Tomé Afonso tem!

Pelo Alentejo


O Alentejo é lindo!!!
Foi uma grata surpresa, viajar por este mundo tão ignorado.

2007-08-13

ESTARÃO EM PROMOÇÃO?

Uma Cruzada de Milagres, tem propósitos e objectivos especificos.


1 - O Apóstolo leva a Unção do Ministério que está sobre a sua vida para abençoar a igreja.

2 - Leva uma Palavra especifica de Deus.

3 - Ministra às pessoas conforme as suas necessidades.



Tem problemas de saúde? Não importa o resultado dos seus exames! Deus tem um milagre para a sua saúde!
Tem falta de dinheiro?Não se deixe vencer pela Crise!Deus tem um milagre para as suas finanças!
Problemas estão a destruir a sua família ou o seu casamento?Não DESISTA! Deus tem um MILAGRE para a sua familia!





2007-01-21

A ROTINA


Resolvi, hoje, escrever sobre a rotina. Isto, para alterar o dia-a-dia cheio do tédio de não escrever nada. Para quebrar a rotina, portanto.

Mas, antes que você, leitor, comece a ficar confuso, vou explicar-lhe o que é a rotina. A rotina mais não é que o quotidiano preenchido com os mesmos hábitos, os mesmos gestos, os mesmos pensamentos, as mesmas expressões ou palavras. É o levantar-se todos os dias à mesma hora, tomar o banho diário começando sempre por lavar a cabeça com o champô do costume, passar à lavagem do tronco ensaboando primeiro o peito depois as costas e daí descer às partes mais sensíveis, ou seja, os pés cheios de calos pelo uso rotineiro dos mesmos sapatos. Depois, é o fazer da barba sempre com os gestos de todos os dias, deixando o queixo para o fim, lavar os dentes sempre com a mesma escova, primeiro movendo-a na vertical, começando pelos dentes superiores, depois em gestos horizontais, começando pelo lado esquerdo e passando ao lado direito. Rotina é o vestir habitualmente a camisa por dentro das calças, a gravata sob a dobra do colarinho, o casaco por fora da camisa, calçar os sapatos sempre um em cada pé, invariavelmente por fora das peúgas. É o apanhar habitualmente o autocarro das 08,27h, repetir o gesto rotineiro de exibir o título de transporte. No emprego, é o intro­duzir o cartão — sempre o mesmo cartão—no relógio de ponto, que faz o rotineiro «catra-ploc»... Enfim, acho que já perceberam.

Então a rotina é má? Nem por sombras!

A rotina tem toda uma série de vantagens que só os espíritos menos lúcidos e mais obstruídos — não é o caso do autor — se atreverão a pôr em causa? Repare-se que a repetição quotidiana dos mesmos gestos e dos mesmos pensamentos evita-nos o desgaste intelectual de procurar novas atitudes, o que vai permitir desenvolver activamente a preguiça mental. Por outro lado, o corpo habitua-se, treina-se, torna-se exímio nesses gestos. Os gestos tornam-se infalíveis, precisos. Não se corre o risco de dar um beijo na secretária do chefe, por distracção, em vez de apertar a mão ao dito.

E a rotina aplicada à escrita? Ah! a rotina aplicada à escrita!...

Maravilha das maravilhas, a rotina aplicada à escrita traz-nos o produto final da moderna tecnologia de ponta, que é a frase estereotipada, ou estereótipo. O estereótipo literário permite-nos escrever correcta e claramente, sem o recurso a termos rebuscados tais como «logótipo», «hemiplégico», «caraças», «cloargirite», «redudante», isto só a título de mero exemplo, já para não falar de termos com pendor menos tecnocrático mas de sabor mais literário como «alvorada», «principalmente», «adultério», «florilégio», «a boazona do 2.° Esquerdo», etc.



Quantos de vós, principalmente os que trabalham em sectores ligados à justiça, se deixaram de deliciar com expressões estereotipadas que fazem parte do quotidiano, tais como «Tenho a honra de informar V. Ex.'», «a prisão foi legal porque efectuada em flagrante delito», «a arma que me está superiormente distribuída», «deferido», «com os melhores cumprimentos» etc.? Já viram com que facilidade se pode construir um texto de belo sabor burocrático a partir de felizes expressões de que as referidas são, apenas, arquétipos? Quem será incapaz de elaborar um relatório sem lhe enfiar, por exemplo, a frase «apesar de inúmeras diligências...»? Reparem que com esta frase, elástica e flexível, praticamente metade do relatório já está feito. E nem precisam de quantificar ou especificar as diligências. Não há que dar satisfações a ninguém; foram inúmeras e foram diligências! O resto pertence à área do segredo profissional, que não pode ser invadida.
Uma outra frase, que me esqueci propositadamente de referir, merece destaque especial. Por isso a deixei para o fim. É uma frase de pendor mais científico, com cambiantes de fino recorte literário e que, por isso mesmo, foi como que eleita rainha de todos os burocratas. Porque é uma frase que resolve praticamente todos os problemas. Porque é uma frase que não deixa 'margem para dúvidas. Porque é uma frase que funciona um pouco como a presunção Júris et Jure: não admite contra-prova.
Preclaros e pacientes leitores, apresento-
-Ihes «Para os fins convenientes».
Seja sincero, caro leitor-burocrata: como conseguiria informar o seu chefe que o autocarro esteve entalado num engarrafamento (D por isso chegou tarde) se não fosse «para os fins convenientes»? Como conseguiria justificar, perante a hierarquia a panada que deu com., a viatura de- serviço, se não fosse «para os fins convenientes»? Ê «para os fins convenientes» que você apresenta um detido em tribunal, pede para se baldar ao serviço — ou justifica a balda do dia anterior — solicita uma audiência, requer um atestado. Podem contar-
-se pêlos dedos os problemas que ficaram por resolver com a frase mágica. Aliás, estou em crer que o próprio mundo foi criado «para os fins convenientes», já que não vejo outra razão. E repare: se há um problema que você não conseguiu ultrapassar com a maravilhosa frase.
basta que do facto informe os seus superiores. Mas não se esqueça de dizer que informa «para os fins convenientes». Pronto. Problema resolvido.
Claro que você, ingénuo leitor, a esta hora está convencido de que o seu chefe, ao ver um documento «para os fins convenientes» em cima da mesa, fica atrapalhadinho.
Não, a sério, está? É nisso que pensa?
É por ter esses pensamentos, que você nunca conseguiu sair da cepa torta. Nunca chegou nem chegará a chefe! Porque você devia saber que o seu superior hierárquico nem pestanejaria. Num caso desses o chefe mantém-se imperturbável. Oual jogador de futebol, recebe a bola, prepara-a e chuta para cima com um rotundo, soberbo, infalível e definitivo «l douta consideração superior». E o seu papel vai subindo, subindo, subindo, até que você, já cansado, acaba por desistir. É que a hierarquia, meu caro, tal como o céu, não tem limites.
Mas atenção, muita atenção! É que à sombra do estereótipo queda-se, felino, vil, matreiro, subtil, enigmático, monstruoso, invisível, subversivo, omnipresente, estulto, sagaz, viperino, catastrófico, paradigmático, inconsequente, iconoclasta, ignaro, metamórfico, narcisista, insidioso, pérfido, caviloso, satânico, o «lapsus calami».
«Lapsus calami», o terror de engenheiros, arquitectos, juristas, magistrados, professores, polícias, advogados, políticos, etc.
Mas, afinal, o que é o «lapsus calami»? Apenas o fenómeno que nos leva a escrever uma coisa quando queríamos escrever outra bem diferente.
Acho que é melhor apontar exemplos. .1
Assim, um exemplo de «lapsus calami» é a inflação, quedar-se nos 6,5%. De certeza que não era aquilo que se pretendia dizer.
Outro caso: o célebre quadro representando o suicídio de Sócrates. Ali se vê que o filósofo com uma das mãos segura a taça da cicuta, enquanto que com a outra mão dá o último suspiro, o que é um grandessíssimo «lapsus calami», já que ninguém dá suspiros com as mãos.

Muitas vezes, e como atrás se disse, o «lapsus calami» deriva directamente de frases ou expressões estereotipadas, que se remetem para o papel de uma forma inconsciente. É bem conhecida a historia daquele polícia que, no seu relatório, escreveu que «o detido reagiu, pelo que tive de usar a forca muscular que me está superiormente distribuída».
Veja-se, a título de outro exemplo, um douto despacho de um juiz: «A detenção foi legal, porque em flagrante delito, por isso a valido». Frase estereotipada, pois, com o «lapsus calami» à espreita, preparado para saltar para o texto. Vejamos a continuação do despacho: «Os autos não indiciam fortemente, nem sequer suficientemente, que o arguido tenha cometido qualquer crime, nomeadamente de tráfico de droga».
Então, como é? O arguido foi detido em flagrante delito de quê?
Um outro caso curioso é o daquele Magistrado que promoveu que o arguido aguardasse «em prisão perpétua» os ulteriores termos do processo. Ê claro que o Digm.", desta forma, veria resolvido o problema dos prazos, já que o C.P.P. é omisso quanto ao regime de prazos no cumprimento da prisão perpétua.
Acho eu
Aliás, creio que é omisso quanto à aplicação da prisão perpétua. 
É por isso que estou em crer que o Magistrado queria dizer «prisão
preventiva», mas o «lapsus calami» atraiçoou-o.
É.
Deve ter sido isso...
Voltando à rotina propriamente dita e às suas vantagens, é que com o tempo vamos construindo intimamente toda uma estrutura cujos elementos se interligam de tal maneira que não admitem elementos estranhos. Por exemplo, os polícias. Já viram que maravilha é se tiverem de fazer uma participação de um crime e tiverem tido o cuidado de guardar cópias de participações de colegas mais antigos? Certamente que encontrarão um modelo que se adapte ao seu caso concreto. Aliás, polícias há que criaram modelos que tanto servem para cheques sem cobertura como para homicídios, passando, por exemplo, por desvio de aeronaves e disseminação de epi-zootias. Dão para tudo. Ê só mudar umas coisinhas aqui e ali, designadamente os nomes das partes envolvidas, e a participação está feita.
Se, por exemplo, o polícia está perante um caso de homicídio qualificado, mas só tem o modelo que dê para furto qualificado, não há que ficar atrapalhado. A solução é simples: participem o furto qualificado, e alguém se encarregará de o corrigir — se calhar... Não devem é participar o homicídio, de forma alguma. Se assim o fizerem, terão de alterar toda a estrutura do modelo e, o que é mais importante, terão de alterar toda a estrutura mental. VÃO TER DE SAIR DA ROTINA! E depois, qual é o problema? Não tiraram a vida à vítima? Então, pode ser furto!
Tudo menos sair da rotina. Poupem esforço físico e mental. Não esqueçam de que o esforço físico é necessário para o descanso, e precisam da mente para tentar não pensar em nada.

2006-07-04

Conversas de café - prólogo

Intervenientes (para memória futura): O "Quim Trolha", o "Manel do Pronto-a-vestir" e o "Zé Burocrata", ao deante designados, respectivamente, por "Quim", "Manel" e "ZÉ" (todos sem aspas).

Têm o hábito de se encontrarem no café, onde discutem de tudo: religião, política e futebol. Não por esta ordem, necessariamente. Tal como a normalidade das conversas dos homens, depois de passarem por estes três temas, ou só por algum ou alguns, as conversas vão descambar em merda. Mas nem sempre...

Hoje, a conversa abordava o "Mundial".
Quim: - Não tenham dúvidas. Se Deus quiser Portugal ganha à França.
Manel: - Eu não duvido. Aliás, tenho rezado bastante para que tal aconteça. Que achas Zé?
Zé: - Acho que como idiotas, sois o máximo. Em primeiro, se Deus quiser que Portugal ganhe, quer dizer que NÃO QUER que a França ganhe. O que quer dizer que estais a insultar Deus, porque estais a chamar-lhe tendencioso e a metê-lo em merdas futebolísticas. Ou será que nunca vos passou pela cabeça que os franceses também rezam, e são muitos mais do que nós? Vocês são a prova provada de que Deus é feito à imagem e semelhança do Homem.
Porra, que nunca mais aprendem!