2008-08-23

O PAÍS PRECISA "DISTO"????



Face à recente vaga de assaltos, que tem assolado Portugal, a Oposição ao actual Governo exigiu a demissão do Ministro da Administração Interna (MAI). Jogada meramente política, está bem de ver - embora seja verdade que as forças de segurança não têm dado resposta cabal à crescente onda de crimes - cada vez mais violentos. Em resposta, o sr. ministro apressou-se a proclamar, "urbi et orbi", que não se demitirá enquanto o país precisar dele.
Ora bem, várias hipóteses se colocam: ou o sr. ministro apanhou demasiado sol na moleirinha, ou tem um conceito megalómano de si próprio (excesso de auto-estima, talvez...), ou alguém lhe disse que o país precisava dele (o que já é grave) e ele acreditou (o que é ainda mais grave).
Porque, sr. ministro: de pessoas como V.ª Ex.ª está o país farto!
Há mais de trinta e quatro anos.

2008-08-21

AS OLIMPÍADAS


Estamos fartos. Eu, pelo menos, estou!!!
É altura de repensar, seriamente, os Jogos Olímpicos. Estamos quase a chegar a 2012, há que começar a preparar a próxima edição.
Vamos acabar com a hegemonia dos esforçados, dos bem preparados, dos ganhadores! Há sempre alguns que acabam por ganhar medalhas, em detrimento de uma esmagadora maioria, e isso não tem piada.
E os desistentes? Nunca ninguém se lembra dos desistentes? Porquê? Discriminação, é o que é!
Para quando um pódio para os desistentes? Julgam que é fácil desistir? Julgam que é qualquer um que desiste?
Proponho, também, que seja incluído um novo desporto olímpico, onde os portugueses poderiam "dar cartas". Refiro-me a "fazer horas", desporto bem português. Nós somos campeões em fazer horas, já que fazemos horas para tudo.
Vamos começar a fazer horas até 2012, a garanto que viremos carregados de medalhas.

2008-08-20

O ASSALTO

Os meios de comunicação social deram-nos conhecimento de um assalto que, em Portugal assume contornos inéditos: três viaturas, cinco assaltantes, assalto efectuado numa auto-estrada, fuga por uma saída de emergência.
A forma como o assalto foi efectuado revela um grande e minucioso planeamento. O plano só podia ter sido executado - como foi - graças à rotina. Claro que há outra hipótese, mas nem me atrevo a colocá-la...
Levantar o dinheiro à mesma hora em dias(s) certo(s), viajar pelo mesmo itinerário, são rotinas "amigas" dos assaltantes.
A rotina é uma das filhas da burocracia. A burocracia, por sua vez, tem origem no laxismo, no deixa-andar, no "os seguros pagam", pelo que está tudo bem. É, economicamente, mais viável ser vítima de um assalto do que alterar comportamentos, já que isso arrastaria despesas.
Ninguém morreu. Mas se alguém, um dia, morrer, haverá, sempre, outro alguém a berrar que é um caso isolado, que Portugal é o segundo país mais seguro da Península Ibérica.

2008-08-17

OS ÍCONES RELIGIOSOS


Bom. Não há cidade, vila, aldeia ou simples lugarejo que seja digno desse nome, que não tenha o seu orago. Ora, dada a multiplicidade de cidades, vilas, aldeias e lugarejos, pede-se um esforço suplementar à imaginação para criar santo, santa, virgem ou mártir que não seja igual à do/da vizinha. Daí o aparecerem nomes algo fora do vulgar como o "Senhor da Paciência" ou a "Senhora do Pópulo".
Em Espanha, na Galiza, entre Sanxenxo e O Grove, existe, também, uma "senhora": a "Senhora da Lanzada". Não se sabe se apareceu a pastorinhos ou a uma qualquer Bernardete. Sabe-se, isso sim, que é virgem, como convém, e que é remédio santo para arranjar um bom marido e/ou para ter filhos. Infelizmente, o prospecto publicitário é omisso quanto a arranjar uma boa esposa (ou uma esposa boa, que não é a mesma coisa). Quanto à forma de arranjar o tal bom marido e/ou um filho (dizem-me que os ginecologistas andam todos pelo desemprego, naquela zona) basta que a requerente entre na água da praia que banha a ermida no último sábado de um mês que não tenha a letra R (tem graça, dizem que o marisco também não se deve comer nesses meses...) e, molhando-se até ao ventre, receba o impacto de nove ondas. O prospecto é, neste ponto, muito exigente e taxativo: nem uma onda a mais, nem a menos. Têm que ser nove, porque o nove é o inverso do treze (?????).
Bom: para arranjar marido não sei, porque nunca experimentei; mas para ter filhos, sei que há uma maneira mais fácil, menos molhada e bem mais saborosa. Provavelmente, as moças de A Lanzada é que a desconhecem...
A publicidade é que não tem limites... Mas eu ainda me vou enternecendo com estas manifestações de ingenuidade.
Ou será de estupidez e obscurantismo?

AH! POVO TRABALHADOR!!!

Fui passar uns dias à Galiza. Nada de especial, a chuva normal do mês de Agosto, temperaturas a fazer saudades do inverno (bem mais quente, ultimamente).
Quis o acaso, entidade que, quando quer, não há nada a fazer, quer quer, ponto final, que travasse conhecimento com uma jovem portuguesa, que trabalha no bar do restaurante onde nos (eu a e minha mulher, que o respeitinho é muito lindo) abastecíamos de combustível para os respectivos esqueletos. A jovem conversava com outro português (vai-os havendo, por lá, por terras galegas) e o tema da conversa era o trabalho. Depreendemos que a jovem era emigrante (não era nada difícil chegar a tão brilhante conclusão) e a fasquia da escala da minha admiração começou a subir quando a jovem proclamou algo como "trabalho não falta, para quem quiser trabalhar. O que não há é emprego".
De caminho metemos conversa, e a jovem acabou por dizer algo que colocou a minha admiração no seu máximo: "Entro às oito da manhã, saio às cinco da tarde. Volto a entrar às oito da noite, até à uma da manhã. Mas das cinco às oito (no intervalo para descanso, portanto) ainda vou fazer umas limpezas".
Ah! Grande portuguesa! Ah! mulher d'um raio! É desta cepa que elas se fazem! Imaginem só o que seria se esta mulher trabalhasse assim, em Portugal. Mas em Portugal é impensável uma situação destas. Não que os patrões (alguns, entenda-se!) não quisessem; a trabalhadora é que não estava, de certeza, pelos ajustes. Patrão que tentasse, sequer, que a empregada trabalhasse uma hora mais, tinha as autoridades e a Intersindical à perna; ou pagava as horas a dobrar. Em Espanha, a jovem ocupa TRÊS postos de trabalho. Não tem dia de folga.
Por mil e duzentos euros por mês. Contou ela. Em Outubro, o restaurante fecha (a zona é balnear) para só reabrir lá para Maio do próximo ano.

2008-08-10

DEUS NÃO QUIS...


A paranóia religiosa e o obscurantismo não têm limites. Nem podem ter, já que estão intimamente ligados.
O "Jornal de Notícias" de hoje (2007/08/10) chama à primeira página, na sua edição impressa, uma reportagem acerca da violência doméstica, com o subtítulo "Deus não quis que eu morresse". Remete o leitor para o interior do jornal.
A folhas tantas, uma tal "Margarida" (nome fictício) revela factos que já não deviam existir num país que se pretende civilizado. Agressões diárias e violentas, por parte do marido. Enfim, nada de especial, nada a que não estejamos habituados. Acaba por, até, nem ter as honras de notícia, embora esta se justifique por estarmos na chamada "silly season" ou, em português decente, estação parva,
Mas, a certa altura do deu depoimento, "Margarida" desabafa (julgo que em tom agradecido, mas isso sou eu a julgar):
"Tenho consciência de que se ele não me matou foi mesmo porque Deus não quis, porque o homem às vezes parecia o demónio em pessoa...",
Vamos ler devagar, porque esta frase tem pano para mangas. "Deus não quis" q
ue o marido a matasse; mas não mexeu um dedo para evitar a dose diária de agressões. Teve poder para evitar a morte, mas não o usou para evitar as agressões. Ou seja, presume-se que "não quis" que a "Margarida" morresse, mas "quis" (por omissão) que o marido a agredisse diariamente. Pelo menos, permitiu. Isto porque Deus tinha conhecimento dos arraiais diários de pancada, a julgar pela expressão" se ele não me matou foi mesmo porque Deus não quis".
No Alto Douro, mais concretamente na região de Vila Real, corre um ditado que diz Matar, só Deus e os de Abaças - mas com licença dos de Guiães. O que me leva a presumir que o marido não era de Abaças nem tinha pedido licença aos de Guiães. E Deus não quis deixar os créditos por mãos alheias. Tareia diária, vá lá... Matar??? Náááá! Só Ele e os de Abaças (mas com licença dos de Guiães, para que conste). Suponho, aliás, que Deus, na Sua infinita sabedoria, não quis contradizer as sábias palavras de um clérigo nosso conhecido (ver aqui).
Com deuses destes, para que serve o Demónio? Não seria melhor mandá-lo para o desemprego?

2008-08-07

A LÍNGUA PORTUGUESA...

Em verdade, em verdade vos digo: a língua portuguesa é coisa linda. Só quem se dedica a trabalhos de língua é capaz de apreciar as potencialidades da língua portuguesa.
Vejam que tanto de pode dizer "Sebastião José de Carvalho e Melo" como, mais simplesmente, se pode dizer "Marquês de Pombal". O significado é, rigorosamente, o mesmo. Da mesma forma se pode dizer "dar com um pau na cabeça" ou "dar com um pau no meio dos cornos". Frases diferentes, mas com a mesma acepção.
Pois bem. Este blogue - mais exactamente, o seu autor - descobriu dois novos portentos a criar frases diferentes com o mesmo significado: Moutinho, do Sporting, e Cristiano Ronaldo, do Manchester. Os dois conseguiram a fabulosa proeza de criar um significado diferente para a expressão "cláusula de rescisão". A expressão que criaram é "de alma e coração". Depois de, ingloriamente, terem tentado fazer pela vida - como as prostitutas, que também fazem pela vida - decidiram que estão "de alma e coração" com os respectivos clubes. De alma e coração, ou seja, por causa da cláusula de rescisão.
As prostitutas também estão "de alma e coração" com quem lhes paga. Só que não têm cláusula de rescisão. Rescindem quando acaba o serviço.

2008-08-06

VAMOS POUPAR ÁGUA?


Nos meus tempos de estudante - aí por alturas da então chamada 4ª Classe - aprendi a "história" do ciclo da água. Era assim: a água está na Terra, evapora-se, transforma-se em nuvens, condensa-se, cai sobre a Terra, evapora-se... enfim, um ciclo infinito. Contrário ao que acontece com, por exemplo, o petróleo que, como todos sabemos, um dia se irá esgotar.
Ora, então parece que aquele ciclo da água é infinito. Ou seja, a água que existe hoje é a mesma que existia quando a Terra se formou. Nem mais um litro, nem menos um mililitro.
Porém, e apesar disso, andam a querer que eu poupe água. Por acaso até poupo. Não porque ela faça falta aos vindouros, como querem convencer-me, mas porque "pesa" no contador e, por arrastamento, no orçamento doméstico. Só por isso. Porque ninguém vai conseguir convencer-me de que a água que eu gasto hoje vai fazer falta aos meus netos, bisnetos, trinetos, e por aí fora. Quanto mais não seja porque eu não deixo que me convençam. Se me falarem em petróleo, fico calado. É evidente que o que eu gastar hoje não vai haver amanhã. Mas a água...? A água que eu beber hoje hei-de deitá-la fora, ela irá ser purificada pela evaporação e regressará à Terra, tão certo como haver amanhã.
Estão a dizer-me, ao ouvido, que a água que está a faltar é a água potável... Não percebo. A água que cai das nuvens é potável!! Ela continuará a ser potável, a menos que alguém a torne imprópria para consumo. Ora, tanto quanto sei, isso é crime. Então, punam-se exemplarmente os prevaricadores. Não com multas simbólicas, mas de maneira a que deixe de ser compensador poluir a água!
Estão a dizer-me ao ouvido que é economicamente mais viável encarecer a água, com a desculpa de que há pouca... Por causa de alguns interesses instalados, dizem... Que esta coisa de ETAR é muito cara, dizem...
Está bem.
Vou começar a poupar água.

- PS: Estou disponível para aceitar argumentos que contrariem o que exponho, e que me convençam de que estou enganado.
Mas garanto que não vai ser tarefa fácil.

BOAS NOTÍCIAS...?



De vez em quando sabe bem ter conhecimento de boas notícias. Só que, tal como tudo na vida, também as boas notícias são relativas, isto é: podem ser boas notícias para uns, mas nem por isso para outros.
Vamos a factos: a comunicação social tem vindo, através dos seus meios, a dar conhecimento das sucessivas baixas dos preços do crude. Ora, em teoria, isto devia ser uma boa notícia para toda a gente, já que os preços do crude arrastam todos os outros preços. Assim, a boa notícia seria que, atrás do crude, iriam baixar os preços do pão, de todos os bens essenciais cujos preços subiram com o preço do crude, dos transportes, das viagens aéreas (a TAP vai voltar, novamente, a ter lucro, não vai haver despedimentos), enfim, etc.
Mas a prática vai mostrar-nos que estamos em Portugal, país habitado, maioritariamente, por portugueses. E que os preços se vão manter, para gáudio dos espertos do costume. Vai ser mais uma oportunidade para alguns encherem (mais) os bolsos, enquanto a maioria continua a apertar o cinto.
Estarei enganado?

2008-07-05

O NORTE - por Miguel Esteves Cardoso

O texto que se segue foi-me enviado, via correio electrónico, por um amigo. O Pereira. Por norma, a gente lê e reenvia - ou repassa, como dizem os brasileiros. Mas este texto é especial. Para mim, que sou do Norte (e, certamente, para todos os nortenhos). Não quero arriscar-me a que este delicioso naco de prosa seja eliminado numa qualquer - e necessária - limpeza de caixa de correio. Não. Esta delícia tem de permanecer. Tem de continuar a existir. Por isso o transcrevo para o meu/nosso blogue. Para que fique.
Obrigado, Pereira.
Obrigado, Miguel Esteves Cardoso.

Primeiro, as verdades. O Norte é mais Português que Portugal. As minhotas são as raparigas mais bonitas do País. O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela. As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram. Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas. Mais verdades. No Norte a comida é melhor. O vinho é melhor. O serviço é melhor. Os preços são mais baixos. Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia. Estas são as verdades do Norte de Portugal. Mas há uma verdade maior. É que só o Norte existe. O Sul não existe. As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta. Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte. No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista? No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro. Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país. Não haja enganos. Não falam do Norte para separá-lo de Portugal. Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal. Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal. Mas o Norte é onde Portugal começa. Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo. Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte. Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular. É esta a verdade. Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul - falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve - falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela >entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente. No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa. O Norte cheira a dinheiro e a alecrim. O asseio não é asséptico - cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade. Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas. O Norte é feminino. O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso. As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos. Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas. São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos. O Norte é a nossa verdade. Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores. Depois percebi. Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o 'O Norte'. Defendem o 'Norte' em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular - o nome da sua terrinha - para poder pertencer a uma terra maior, é comovente. No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita. O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os-Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar. O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm de dizer 'Portugal' e 'Portugueses'. No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como 'Norte'. Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim que nos chamamos todos?'